Carta aos meus filhos #1

Meus queridos,

Em 2013, Portugal perdeu definitivamente todo o seu encanto para a mãe. A vida nunca foi exactamente fácil, mas a certeza – uma equação quase absoluta – de que não melhoraria levou a melhor. Tinha vinte e três anos, sim, tive-os um dia, e sabia-me capaz de lutar por uma vida melhor. A Alemanha surgiu então, quase sem querer, como também o meu curso e o meu primeiro emprego a sério surgiram quase sem querer, colocados no meu caminho pela minha estrela da sorte. Agarrei-os como oportunidades que foram.

Agora é época de arregaçar as mangas. Não posso dizer que estou sozinha, porque não estou. Terei uma ajuda preciosa a quem não posso deixar de, um dia, recompensar. Tive o calor e os votos de felicidades da minha antiga entidade patronal, as lágrimas das colegas que deixo para trás, os abraços firmes dos amigos e o seu apoio incondicional.

É isso então, queridos. A mãe vai morar para a Alemanha. Se um dia metade do vosso sangue for Alemão, saberão que foi aqui que o vosso destino ficou traçado. As cartas prometem amor e sucesso no país da Chanceler que tem decidido também o destino de Portugal. De um Portugal cheio de recantos que são também vossos. Não significa que não possa correr tudo mal. Que daqui a umas semanas não esteja de volta, sem dinheiro, sem emprego, sem forças. Mas realmente era-me impossível continuar aqui e manter a sanidade mental. Era-me impossível não me saber capaz de arriscar, de lutar, de avançar, sozinha que fosse.

Tenho muitos sonhos e muitos planos para esta nova fase da minha vida. Escolho fechar os olhos e aproveitar.

Entre outras coisas, ponderei vender todos os meus livros para custear essa empresa. O Anna Karenina, o Dr. Jivago e A Divina Comédia ter-me-iam valido, só por si, uns bons trocos. Mas eu amo-os. Nunca os li e amo-os, folheio-os, dão-me conforto só por me olharem da prateleira. Ainda não foi desta que tive de desfazer-me dos meus tesouros, alguns deles já com uma década de harmoniosa convivência comigo. O Baunilha e Chocolate, autografado, sobreviveu. O Jane Eyre, que já tinha uma casa pronta a adoptá-lo e a dar-lhe amor, vai ficar no espaço agora vazio de mim. Os livros são a minha casa. Vou e regressarei para buscar a minha casa. Tarde, espero. Bem tarde. Espero ser outra pessoa, com outro bolso e outra bagagem cultural, social e humana.

Enquanto estiver fora (e até quando será?) vou dedicar-me aos livros de bolso. Às grandes aventuras. Robert Louis Stevenson, Daniel Dafoe, Bram Stoker. Quero livros pequenos, amarelados, a cheirar a tempo e a qualidade literária.

Em breve vou “consagrar-me” escritora também de romances históricos. A este respeito falarei mais tarde. Mas… estou já a ponderar uma conexão Portugal-Alemanha no século XIX como forma de desenvolver o volume #2.5 da série. Até isto será afectado.

Com um beijo que demorará anos a chegar-vos aos rostos,
Hamburgo espera-me e o voo já se encontra, arquivado, na minha pasta do hotmail.

CCL.
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