Carta aos meus filhos #2

Meus queridos,
As coisas estão a compor-se. A mãe já tem o voo e também já tem uma reserva de 3 noites num hostelnão muito longe do centro de Hamburgo. Tenho alguns contactos – nenhum deles muito firme -, mas ainda assim contactos. Não estarei completamente sozinha. As redes sociais estão a ajudar com isto de encontrar portugueses e quartos/apartamentos para alugar em Hamburgo. A mãe vai cozinhar. A mãe vai lavar roupa. Vergonhosamente, a mãe não sabe ligar uma máquina de roupa. A mãe nem sequer mexe em tomadas ou fichas eléctricas. É o meu medo de estimação. Não me reconhecem na mulher que vai pela casa a recolher os vossos despojos e a atirá-los para aquele cilindro mágico com quem se entende como vocês dominam os telemóveis de oitava geração? Nem eu me reconhecerei na quase menina que pede à irmã mais nova que lhe ligue a varinha mágica à electricidade.
A mãe tem receio da comida na Alemanha. Aos 23 anos descobriu uma estranha tendência para engordar – especialmente na barriga. Além disso gosto de feijoada, migas, açorda, pão (pão e mais pão), cozido à portuguesa, etc. A nossa gastronomia é tão boa e tão variada que sei que me vai custar a habituar. Além disso o meu conhecimento do que se come lá não excede as salsichas e ovos fritos. Nem estou bem certa de que comam ovos fritos, mas acho que são grandes amantes de cerveja. Odeio cerveja.
Hoje uma amiga minha disse que a notícia da minha (também) partida a tocou. Não exactamente por mim, mas porque é um momento delicado para a História do país. Já aconteceu no passado, é certo. Mas cada vez Portugal é menos dos Portugueses, e menos ainda dos filhos dos Portugueses. Por isso, quando um dia se sentarem na sala de aula a ouvir o professor debitar as causas e consequências do grande surto de emigração de jovens na viragem do milénio, saibam que não o fizemos por ambição mas por uma quase necessidade; a necessidade de irmos buscar aquilo que as nossas forças são capazes de nos trazer. A necessidade de nadar para a costa quando é certo de que o navio onde navegávamos vai ao fundo e não há suficientes botes para salvaguardar a integridade física de todos.
Imagino o Outono no porto de Hamburgo. Espero que corra lá um arzinho do porto de Lisboa. E, ainda que o fado não ecoe no rio Elba, qual encantamento no anfiteatro do Douro, há-de certamente tocar bastante lá por casa.
Até mais logo,

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