Carta aos meus filhos #4

Mes amours,


A mãe não tem tempo. Tem 700 páginas dum romance histórico para rever e só lhe apetece fugir e gastar o pouco tempo que resta em Portugal com cozido à Portuguesa, compilações de música tuga e conversas de escadas com cigarros e as amigas. Já tenho casa, ao menos isso. Um negócio da China dos meus. Entretanto falei com uma pessoa. Com uma pessoa que me olhou fundo nos olhos e que me fez perceber que os medos – como fantasmas dançantes – estão a emergir. Durante anos mantive-os fechados na cave, e agora estão todos a subir ao primeiro andar, quase, quase a bater-me à porta. Será verdade que vivi sempre com medo, a suster a respiração, aterrorizada com voltar a esfolar os joelhos?

Mas também estou tão feliz.

Ontem já fui às compras, já me começo a imaginar feliz no apartamento onde viverei sozinha até ao Natal. Se houver um canteiro vou plantar salsa. Salsa e flores. Há montes de sítios que quero ir visitar em redor – Copenhaga, Berlin, Amesterdão, Wismar, Lubeck, Köln, Brugges, Paris, Estocolmo. A mãe vai ser feliz como nunca foi, escrever sobre coisas novas e preparar-se. Dissera-me para preparar; rodas suplentes para o carro, dois cães, uma espada firme, um manto sólido. Quando a guerra vier, a mãe não admite perder. Admite desistir, mas não perder. E desistir não é perder, talvez vezes é safar a pele. Fugir ao erro, amar-se. Escolher-se.

A mãe não é a Papisa.
A mãe não quer ser como a Papisa.
A mãe é a Imperatriz e o pai é o Imperador.

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