Carta aos meus filhos #10

Queridos,
Hoje a mãe perdeu-se por meia hora algures entre uma estação cujo nome não sabe dizer e outra à qual deveria chegar mas cujo nome também não sabe dizer. Pesando os acontecimentos do dia e dos últimos tempos, sentiu essa desorientação como uma suprema liberdade. Perdermo-nos significa não sabermos onde temos os pés. Para onde vamos? Como retornar ao nosso caminho? E a mãe saiu do metro, perdeu o autocarro que devia apanhar e, num ímpeto de fé, meteu-se no primeiro que apareceu. Pensou “com sorte, leva-me aonde quero ir”. E, sentada de frente para as janelas que passavam os arredores como um filme em tela verde e cinzenta, golpeado por rasgos do final do dia, sofreu os altos e baixos do desconhecido e do vagamente familiar. Hoje deu por si a pensar sobre felicidade, casa, religião, o sentido da vida. Desde que chegou que tem procurado os sinais. Sabem, quando estão num sítio e não entendem ao certo como foram lá parar mas, de repente, uma rádio próxima toca a vossa música favorita e vos reconcilia com o universo? A paz transmitida é de quem sabe que está onde deve estar. E, embora vivendo na casinha nº5 – e o 5 significa muito para a mãe, porque somos cinco irmãos – a mãe não voltou a receber sinais sobre estar no sítio certo. Ou, até hoje, não tinha voltado a receber. E o que aconteceu hoje para me reconciliar com a minha vida e para me passar a confiança necessária para entrar num autocarro desconhecido sem saber onde iria aportar?
Bremen é uma cidade lindíssima. Fiquei encantada e envergonhada com a minha ignorância quanto à arte e à História germânicas. A Catedral inebriou-me e a história dos músicos enterneceu-me. Mas a certeza de que hoje estive onde o destino quis que estivesse foi o que aconteceu quando a hora de voltar ao comboio se aproximou. A mãe conseguiu voltar – apenas guiada pelo se sentido de orientação – quem diria que tenho um? – para Bremen Hbf (estação central). Depois de percorrer todas as montras com os olhos, meteu-se numa espécie de self-service de bolos e bebidas quentes mesmo em frente à estação. (Porquê ali e não noutra das dezenas de montras que inspecionei?) Faltava uma hora e meia para o meu comboio e, por isso, comprei uma berliner e um café (uma aguadilha, na realidade) e sentei-me à janela. Um senhor alemão veio apoiar os cotovelos na minha mesa (alta) e começou a debitar coisas conhecidas em Espanhol e contou-me que viveu 8 anos em Alicante. Sentei-me a comer enquanto o funcionário me dizia que os espanhóis não gostam de estrangeiros e lhe pareceram rudes. Entretanto outro senhor, de barba comprida e um estranho chapéu preto na cabeça (que pareceu careca sob as malhas), vem sentar-se ao meu lado em silêncio e ouve discretamente a nossa conversa. Às tantas os dois começam a falar da América em alemão e sou excluída. Oiço o alemão dizer: mas você não bebe álcool, e o outro senhor anui. Pouco depois o alemão desaparece e fico sozinha, a comer a berliner com recheio de doce de amora ou framboesa e a conversar com o senhor que não bebe álcool. Fala mal Inglês, diz-me, porque não aprendeu na escola. Eu acho o seu discurso claro e os seus olhos pacíficos, a escola da vida é infalível. E assim passei ali a hora e meia que faltava para o meu comboio a pensar: olhem para mim, com um metro e cinquenta, sozinha na Alemanha e a conversar tranquilamente com um muçulmano – o bicho papão mundial, segundo a comunicação social. Jovenzinhas, fujam!
O senhor contou-me que é muçulmano, da Argélia e, com um tom conciliador, perguntou-me o que acho dos muçulmanos, o que ouvi dizer deles? Então explicou-me que tem que se sentir os outros com o coração. Que, o que quer que seja que uma religião ou um governo professem, sabemos sempre dentro de nós o que é certo e o que é errado. Respeitam os animais, não comem cão nem gato, adiantou, não são como os chineses. Nem comem animais como o porco ou a cobra, nem bebem o seu sangue. Elucidou-me, por exemplo, no que diz respeito à poligamia. Os homens da sua religião não o fazem por luxúria. Fazem-no por generosidade. Porque um homem, quando tem posses, deve ajudar uma mulher. A primeira mulher tem outro estatuto, mas a segunda pode ser uma viúva com filhos. Ou alguém que, por algum motivo, não casou quando era esperado. Alguém que precisa de apoio e ele estende-lhe esse braço. Porque não ajudá-la se tem meios para o fazer? Se não tiver meios de a sustentar é até imoral acolhê-la como sua mulher. Pus-me a pensar que tantas vezes o homem ocidental leva da mulher ocidental (por acordo mútuo) o mesmo que o homem islâmico leva da mulher islâmica, e sem lhe dar nada em retorno. Tantas vezes nem um telefonema nem um post-it, quanto mais uma casa e alimento. Talvez seja por me sentir desamparada, mas achei que tudo aquilo faz imenso sentido. Ninguém é perfeito, afinal de contas, e muito menos uma cultura, sociedade ou sequer civilização são perfeitas.
Fez notar que o importante é não julgar, respeitar, e sobretudo tentar compreender. Informar-se, não ouvir falar, mas procurar saber. Aprofunda o discurso dizendo-me que um pai tem sempre um filho favorito perante o seu coração. Também o marido muçulmano não sente o mesmo por todas as esposas, mas não lhe é permitido trata-las diferencialmente, assim como também não o fará perante um filho. Diz-me que acha que tudo seria mais complicado só com uma mulher – quase como se dissesse que no amor entre duas pessoas, uma passa a ser o mundo da outra e, se a relação deles desmoronar (se um morrer, digamos), o mundo desmorona também. Acrescenta que o argumento de que as mulheres, então, também deveriam ter vários maridos, não faz sentido. Não faz sentido porque a mulher é receptáculo de protecção e não fonte dela, é gerente de receitas e não geradora das mesmas. Quando essa mulher tivesse um filho – pois que seria um útero para várias sementes – quem seria o pai? Por muito patriarcal que seja esta visão, eu entendi. Chama-se tradição, e também a tourada é respeitada e é abominável. Porque não abrir um pouco mais a mente? Serão essas mulheres escoltadas por uma arma até ao “altar”?
Adianta que a imagem de violência, terrorismo, maus-tratos para com mulheres, não é ilustrativa de grande parte do islão. São sim o retrato de situações que nem o Deus deles aprova, mas que alguns indivíduos praticam. Mas em cada religião há elementos bons e maus, e Deus (Alá) criou o mundo e não se deve criticar as coisas como ele as fez, ou critica-se a obra superior. Não se deve rir dos outros nem falar nas suas costas, ou gozamos com a obra de Deus (que eu traduzo por – com a ordem das coisas – nada nem ninguém é perfeito e todos temos telhados de vidro).
Fala-me de gratidão – tem saúde, tem trabalho, vive há vinte e dois anos na Alemanha e acha que é como viver noutro sítio qualquer – porque o importante é ser-se feliz e casa é onde nos sentimos bem –, não está desfigurado e tem forças para ir agradecendo pelo que lhe foi oferecido.
Profere tudo isto com humildade, um brilho nos olhos e uma mão no peito. E diz-me; não é minha missão tentar converter-te, mas quando chegares a casa e tiveres dois minutos, podes tentar ler sobre o islão. Depois acrescenta que imagina que eu receie as pessoas da sua religião pelo que se ouve em todo o lado, e eu contei-lhe a minha aventura com um iraniano em Roma. Saliento que me perdi e apenas fui jantar com o rapaz, nada aconteceu nem nenhum romantismo se insinuou. Ele ouve com atenção e no final diz-me, pacientemente: foi um erro, Deus pode desculpar-te uma, duas, três imprudências, mas chegará a vez em que algo de mal te acontecerá. Podia ser agora, aqui neste café, podia ser eu o mau.
E di-lo com tanta bondade no olhar que é como um pai a falar com um filho, e não uma ameaça dissimulada. Ainda não foi dessa vez que tentei a sorte e ela me atirou ao chão. Digo-lhe que sei reconhecer uma boa pessoa quando a vejo. Ele diz-me o mesmo.
Quando me despedi dele, estendi-lhe a mão. Eu tinha meia hora até ao comboio e ele meia hora até à próxima oração. Pediu-me perdão por não poder apertar-me a mão e explicou-me uma última coisa: um muçulmano pode apertar a mão (ou beijar o rosto) de mulheres da sua família com quem não possa casar-se. Uma irmã, tia, cunhada, mãe. Mas não pode fazê-lo a nenhuma mulher com quem possa casar-se. Por isso pede-me perdão pela recusa, diz que lhe seria mais fácil apertar-me a mão do que debitar-me uma explicação. Acrescenta que não é porque tenha nojo de mim ou me ache feia ou indigna, mas o Deus dele pede-lhe que não o faça e ele prefere respeitá-lo. E eu fui-me embora com a certeza de que aquela conversa estava à espera de vir ter comigo.
No autocarro para local desconhecido, perguntei-me se seria agora que a sorte me fugiria de debaixo dos pés. Estava a anoitecer, encaminhava-me para onde, mesmo? Não sabia. Contudo sabia que preciso de beleza na minha vida. E a beleza é algo de relativo que causa comoção. E aqui tudo o que me comove é por uma beleza discreta que não guarda nada de familiar para me mostrar. E casa é onde somos felizes. E a felicidade é quando estamos aonde sabemos que devemos estar. E a mãe não sabia para onde estava a ir, mas sabia que voltava ao caminho certo, mesmo não sabendo onde o autocarro a levava.
E, com a decisão que acabara de tomar, já fazia sentido estar na Alemanha, dormir na casa número cinco e ir a Bremen.
Quando o autocarro finalmente parou, o mercado de flores já tinha fechado. A mãe atravessou a estrada já familiar e desceu para o metro que tinha de apanhar.
Nunca duvidei realmente de que a vida me trouxesse aonde preciso de estar. É só ter fé e acreditar.
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