Carta aos meus filhos #14

Hoje a mãe tentou ir trabalhar n’Os Pássaros para a biblioteca municipal. Acontece que não havia internet e, como resultado, não pode fazer nada do planeado. O ficheiro estava suspenso entre o meu e-mail e a dropbox. E fiquei assim, com um computador sem internet à minha frente. A certeza da nulidade de quase tudo sem acesso a ela…
Então peguei em dois livros a respeito das revoltas liberais do séc. XIX e pus-me a pesquisar para o meu novo livro. O mesmo que comecei no Alentejo e que tive de largar entretanto porque me voltou a incapacidade de escrevê-lo.
Em seguida fui sentar-me sozinha no MacDonald’s. Adorable light. Bláblá…A seguir vim para casa, e foi então que sucedeu o “acontecimento do dia”. Já a subir a Avenida do Cristo Rei, tive de me espremer entre um carro e uma velhinha de canadiana. Passei pela senhora de olhos postos no saco dela. Volumoso, mas o conteúdo parecia verde. Podia ser uma couve ou assim. Ainda assim tive de olhar para trás e, como ela me olhou, perguntei-lhe se precisava de ajudar com o saco. Não é nada que a minha avó não faça a toda a hora aqui pela vizinhança, por isso não me fica mal fazê-lo também.
A senhora confiou-me o saco, bastante pesado, porque vinha cheio de maçãs ou pêras, e pôs-se a falar comigo durante os metros que caminhamos ao ritmo da sua perna doente.
Tem oitenta e seis anos, uma reforma miserável. Vive com um filho que “só quer é passear, não me ajuda em nada”. Um filho que poderia aspirar a casa por ela e poupar-lhe esse incómodo. A senhora tem uns olhos castanhos enormes e bondosos, o cabelo liso, completamente branco, pelos ombros, e diz que vive ainda uma vida de trabalho. Pior, é obrigada a aceitar esmolas. Diz que lhe têm oferecido comida. Não tem dinheiro para suportar a ditadura dos trinta dias. Hoje deram-lhe fruta. Às tantas o meu coração aperta, e ela conta que já preparou a roupa para quando morrer. “Já me vesti para a morte”, diz, e a expressão é-me tão inédita que me volto para trás para lhe estudar as feições quando o diz; naturalidade, resignação. “Sim, sim. Já disse ao meu filho; quando morrer está aqui pendurada a roupa e os sapatos que quero levar”. E chegamos ao cruzamento que dita a separação.
Antes de me dizer adeus, ainda insiste para que eu traga alguma fruta comigo. Penso que, de todos os meus males, falta de alimento não é um deles. Quis dizer-lhe que só tinha cinco euros na carteira mas podia ficar com eles – ou acabaria o filho dela a beber bicas com eles?, quis dizer-lhe que, se precisasse, podia bater à minha porta num dia de maior precisão que não iria dormir sem comer qualquer coisa. Quis dar-lhe o meu número e pedir que me ligasse se estivesse aflita. Mas a garganta fechou-se e não disse coisa alguma. Não lhe ofereci ajuda, limitei-me a estender-lhe o saco e a recusar a fruta que me oferecia, antes que me pusesse a verter lágrimas perante a pobre mulher.
Saber que há pessoas que eu, também pobre, poderia ajudar com pequenos gestos. Saber que o Estado está incapacitado de ajudar estas pessoas – sabe-se lá em que circunstâncias caíram nesta mesma miséria. Saber que os filhos – como o dessa senhora – estão desempregados e a mãe de oitenta e seis anos é que vai batendo às portas para pedir comida para os dois. E disse-me “tinha mais precisão de dinheiro do que da fruta”, e eu penso que as suas contas estejam por pagar. Leva-me a ponderar sobre o quão privilegiada sou.
Estou muito de longe de ser rica e, todos os meses, o meu dinheiro chega à conta para as aventuras em que embarco. Desde que comecei a trabalhar, em 2007, dificilmente recebi 1,00€ que fosse da minha família para o que quer que seja – e acho muito bem que assim seja, porque um jovem com braços para se sustentar tem mais é que pô-los a mexer. Mas ainda assim tenho alguns luxos, se calhar até acima do meu nível de vida. Como comprar diariamente uma torrada no café (22,00€ ao final do mês), ou depilação a laser (40,00€ por mês), ou livros (150,00€ no mês da feira do livro), ou uma “actualização da roupa do armário para a estação” (150,00€ antes de ir para Hamburgo), ou tónicos faciais, champôs que prometem milagres no cabelo, incontáveis vernizes que secam no frasco antes que os use, uma televisão (que na realidade nem vejo), um terceiro computador (que ligo uma vez por semana antes de dormir durante dez minutos), um telemóvel longe da febre dos iphones, mas que havia com as mesmas funcionalidades a metade do preço, um quarto ou quinto par de botas, um terceiro ou quarto par de ténis, um décimo casaco, etc. E há as viagens – pelo menos uma boa viagem anual. Na realidade, tenho de considerar que sou mais do que privilegiada. Sou uma sortuda por ter trabalho e por conseguir manter um estilo de vida – que no entanto não me permite fugir desta casa, ou não me permitiu ainda, por má gestão – onde posso incluir viagens. As viagens são aquilo onde o meu dinheiro é melhor aplicado.
Desde o verão de 2012, andei pela Costa Vicentina e refugiei-me numa cabaninha amorosa no Cercal, subi por campos de girassóis no Baixo Alentejo, dividi o protagonismo das fotos com vacas alentejanas e esgotei as pernas no castelo de Beja. Depois percorri o litoral Algarvio e subi até casa via Guadiana, naquele que deve ser o troço de percurso que mais amo em Portugal; as bungavílias em Alcoutim, Espanha logo ali, Mértola encantada e a inacessibilidade do Pulo do Lobo. Fomos ainda a tempo de jantar numa pizzaria na velha e boa Beja. Fui à Irlanda – subimos a castelos, sentámo-nos em muros a admirar as cruzes celtas, furámos um pneu, visitámos inúmeras igrejas anglicanas, vimos até uma parada zombie em Galway e feri os olhos no verde intenso desse país. De volta a casa passeei pelo Minho, Gerês e Trás-os-Montes, almocei na Galiza, subi ao Bom Jesus de Braga e caminhei nas ruas antigas da cidade dos bispos. Fui ao Museu Grão Vasco em Viseu, fotografei o Outono em Ferreirós do Dão, fui a Coimbra e admirei a Sé Velha e os bairros estudantis debruçados sobre o Mondego. Sofri um quase primeiro acidente na estrada e fui pagar as promessas de velas a Fátima dez minutos depois – e sentámo-nos nas escadas do santuário a fumar um merecido cigarro perante um recinto quase vazio numa noite de Dezembro. Arranquei com os meus irmãos para três dias no Porto – aí sim, pude inspeccionar bem a Invicta onde nasceu a minha avó materna. Voei até à Madeira, maravilhei-me com as cores do mercado do Funchal e regressei ao continente para voltar a pisar o Covão d’Ametade e quase partir um osso na neve/gelo da Serra da Estrela. Comi cupcakes na Guarda e sentei-me num telhado de chapa a admirar o pôr-do-sol em Belmonte. Rumei à região Oeste sob uma promessa de chocolate e finalmente admirei as Capelas Imperfeitas da Batalha, voltei a emocionar-me com os túmulos góticos de D. Pedro e D. Inês de Castro em Alcobaça e perfiz a muralha de Óbidos a pé. Fui espreitar Monserrate, embrenhado em Sintra, e nesse mesmo ano voei para a Bell’Itália. Foram dias de sonho, esses passados entre spaghetti allo scoglio, os melhores gelados do mundo, as obras de Rafael e a Última Ceia do Da Vinci, a graça bucólica da Toscana e Maria Callas a sussurrar-me ao ouvido sobre a Ponte Vecchio. E então parti de novo para a minha adorada Beja, para um fim-de-semana com as manas. Depois fui para o Centro – as praias fluviais, o xisto, os rostos. Janeiro de Baixo, Fundão (pela segunda vez neste ano), Fraga da Pena, Piódão. Quase tive o segundo acidente do ano e voltei a Almada. Embarquei numa aventura improvável que me levou à cidade mais verde da Europa, e de Hamburgo não resisti a espreitar Bremen e Berlin. Volto a casa uma vez mais, apenas para descobrir que fui suficientemente abençoada para, ainda este mês, ir pisar uma bonita região italiana chamada Puglia (desta feita em trabalho, tal como a Madeira!). Por isso, quando me virem mal disposta, basta atirarem um destes locais para a conversa e arranjarei forma de recuperar a minha humildade e a minha gratidão à vida.
Com isto em mente, lembro-me da dona Florinda, de quem muito gostei, e que faleceu de cancro dos ossos. Ela dizia-me sempre:
– Célia, quando a tua desgraça te parecer grande, lembra-te que há maiores.

E hoje confrontei-me com uma dessas maiores e silenciosas, que toma não só essa minha vizinha da rua de trás, como muitos outros idosos que por aí circulam em silêncio. Por isso filhos, saibam que a mãe não tem muita razão de queixa. Mesmo que vos diga “ai eu sofri muito quando era nova, e vocês agora são uns despreocupados?”, “ai eu lutei muito quando era nova, e vocês agora só querem ficar sentados no sofá?”. Não me levem demasiado a sério. Houve sempre alguém pior.

Clicando nas fotografias, abrem a galeria.
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