Carta aos meus filhos #16

Um dia…

Um dia, vocês vão pedir-me se podem ter um cãozinho ou um gatinho. Perdoem-me, queridos, mas a mãe é capaz de vos vir a negar isso. Na altura vocês não vão entender. A mãe dirá que já perdeu alguns animais e que se sofre muito, e vocês dirão que as alegrias que esse animal trouxer vão atenuar as dores causadas pela perda dos anteriores.

Ainda assim; não.
Espero muito estar enganada, mas ontem, quando a mãe foi à porta chamar o Napoleão e ele não veio, caiu qualquer coisa cá dentro. A mãe é uma mulher de sextos sentidos. Por vezes erra, mas alguma coisa me impediu de dormir esta noite em paz. Hoje o Napoleão desapareceu (sem que o soubesse, porque estive o dia todo fora ontem, já não era visto desde a manhã anterior).

Chamei-o e ele não veio. Os “amigos” dele, aqui da zona, procuram-no. Chegaram ao ponto de me entrar em casa, de se aproximarem da minha cama. De me assustar. Não, ele não está por casa. Se estivesse pela área, quando abri a porta do quintal há pouco e o chamei, não haveria um gato sentado no nosso pombal.

Um gato preto, de costas para mim. Vejo-lhe as orelhas recortadas na noite. Pelo sim pelo não, chamo-o. Não se volta. É tão tarde, e a mãe sofreu tanto hoje, que volta a chamar; és tu, Napoleão? O outro gato está imóvel, de costas para mim. Faço toda a espécie de ruídos e nada. Então começo a pensar que estou a imaginar coisas, empurro a porta e saio para as escadas. Finalmente se digna a olhar-me: não é o Plião.

Reparo nas estrelas, tão luminosas, e distingo a forma de um papagaio. A mãe sente os olhos encherem-se-lhe de lágrimas e diz-lhes que só quem tem animais sabe o sufoco que é, a maldade que há por aí para com os gatos, sobretudo. Pede-lhes que mo tragam de volta, um pedacinho do meu coração escaqueado tem-lhe amor. É-me vital experienciar um bocadinho de amor. E então, enquanto admiro as estrelas de coração nas mãos, uma ave enorme – só podia ser uma coruja ou uma espécie de falcão, abre as asas e sobrevoa o espaço entre o prédio em frente e o meu telhado. É tão grande – e prenuncia algo de tão mau -, que sei que o universo está a mandar-me mensagens de consolo.

O que aconteceu? Onde está o meu gatinho?
A mãe tem muitas dúvidas nesta vida que gostaria de ver respondidas. Mas a verdade é que, se apenas pudesse colocar uma questão ao universo, perguntaria precisamente:
Onde está o meu Napoleão?

Corri todas as ruas da zona, a pé, de carro. Perguntei a todos os vizinhos com que me cruzei, ouvi histórias horríveis sobre cães e gatos que assassinam gatos, sobre pessoas más e sobre animais que regressaram a casa ao final de meses, outros que caíram em recantos e nunca regressam. Calcorreei o seminário e esgotei a voz com o nome dele. Não o encontrei, não consegui dormir. Era eu encolhida num canto e a tia Cláudia encolhida noutro.

A mamã só consegue dizer à vida que já entendeu, a existência é sofrimento, bláblá, tem de estar preparado, sofre-se muito, perde-se quem se ama, nada é garantido. Sim, a mãe sabe que o mundo é um sítio perigoso. Pare de me dar lições, eu já sei – já senti – isso tudo. Agora poderia, por favor, mostrar-me o lado que não conheço? Felicidade? Paz? Conforto? Amor, talvez? Ou então deixe estar isso tudo e traga-me só o meu gato, para que eu possa chorar as infelicidades todas no lombinho dele.

Por isso, à vossa pergunta se podem ter um animal, a mãe responde, a partir deste outono em que está a sofrer horrores pelo desaparecimento do Napoleão:
– Não, poupem-se. Poupem-me.

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