Carta aos meus filhos #17

Meninos,
O gato ainda não voltou a casa. Ontem, à luz do aeroporto de Fiumicino, na fila para embarcar para Bari, a mãe sentiu que a sua pele era translúcida. Se súbito, teve vergonha da rede de veias e articulações que lhe cruzam a pele. Sentiu-se embaraçada por causa das olheiras, da brancura excessiva da pele, que em certas luminosidades foge para verde, azul, roxo. A mãe sentiu que, se olhassem para mim, se alguém se voltasse ou olhasse sobre o ombro, ver-me-ia como eu sou.
O guia turístico que nos tem levado a calcorrear as ruas de Lucera tem uma luz especial. É a pessoa diferente; a mãe encanta-se sempre pela pessoa mais normal do mundo, mas no contexto errado. Os italianos falam alto e usam muito as mãos, riem e dizem piadas de olhos cintilantes. Este italiano fala um inglês cuidado e usa vocabulário específico que a mãe reconhece mas não está certa de que conseguiria reproduzir com tanta fluência. Por sabê-lo tão metódico, por o ver tão direito de pasta na mão enquanto, a seu lado, a guia local explica tudo em italiano risonho e gesticulado, e por lhe registar o timbre pacífico e as piadas que profere sem que se lhe altere a expressão do rosto, a mãe tem dificuldade em desviar os olhos dele.
Quando ele repete as explicações da italiana, que a mãe entendeu, acrescenta sempre qualquer pormenor interessante. Quando está perto de mim a explicar, não consigo impedir os cantos da boca de se curvarem num sorriso. Oiço na sua voz que também lhe nasce um sorriso nos lábios, que é rapidamente controlado.
Quando a mãe chegou, apresentou-se-lhe como um furacão: chegara há uma hora e já conseguira perder a mala com o computador, o telemóvel e o BI. Ele fez tudo para os recuperar.
Se isto fosse Portugal, a mãe diria que poderia ter encontrado o vosso pai. Não é que tenha o coração completamente desocupado, mas acabou de encontrar lá um espaço. Não foi o italiano que abriu esse espaço; o espaço estava lá, a mãe não sabia e ele foi lá meter-se. E isto não importa para coisa alguma, porque daqui a cinco dias, quando nos separarmos, a mãe sabe que não voltará a dedicar-lhe um pensamento.

Mas é bom saber que não morri, embora aceder a essas portas me cause uma náusea imediata, um mal-estar semelhante ao que um animal deve sentir quando os grilhões de uma armadilha se lhe espetam na carne. É bom descobrir que, passado o cataclismo, o meu coração começou a regenerar e se eleva, por fim, das cinzas.
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