Carta aos meus filho #21

Meus queridos,


Hoje quero falar-vos de uma coisa importante.

Durante muito tempo – demasiado tempo -, julguei que, para fazer sentido, tinha de doer. Para provares a ti mesmo e a todos que amavas realmente, teria de doer até fazer ferida. Terias de ver essa ferida fechar e, adiante, permitir que reabrisse. Só aí, temperado com muitas lágrimas, muita espera, muito sofrimento, poderia um amor ser considerado grande e verdadeiro. 

Nos últimos tempos, a mãe descobriu algumas coisas curiosas a esse respeito. Primeiro, temos que considerar que somos mais do que um mero instrumento de afeição a outrem. O plano do mundo para vocês não foi, decerto, tornar-vos objectos de adoração, de louvor a uma imagem que não vos pode retribuir esse ardor. Neste ponto é importante que acreditem no vosso valor. É, sobretudo, essencial que tenham coragem de vos colocar as perguntas certas. Cá dentro, bem fundo em nós, temos à nossa disposição todas as respostas. Valerá a pena? Terá pernas com que andar? Que espero do término desta estrada?

A mãe foi teimosa durante muito tempo. Quis guardar nela um amor maior do que a vida, e guardou-o. E esse amor ia-me destruindo tantas vezes… E eu, incapaz de desaloja-lo de mim, porque achava que era a única coisa de minha, a única que me engrandecia e que um dia me poderia trazer felicidade, deixei-o ficar. Abraçava-o, adormecia-o com canções de embalar e depois, quando me sentia com forças ou quando me perdia noutro acesso de desespero, acordava-o aos solavancos e gritava-lhe. Exigia que me dissesse para onde íamos – eu e essa coisa solitária -, que seria de mim se não funcionasse? E tudo o que adivinhava no meu futuro era solidão e tristeza. 


A mãe vive de histórias, e essa história estava tão feia… A mãe mal se reconhecia nela. Mal se reconhecia na mulher que vagueava pelas ruas de lágrimas a pender no queixo, na mulher para a qual, durante longas fases, tudo parecia cinzas e negrume. A mãe mal se reconhecia, em certas alturas, na criatura que se ajoelhava para beijar o chão de igrejas, que atirava moedas em fontes, afagava patas de leões e pedia desejos às estrelas cadentes. Durante tantos anos, não quis mais nada. Depositei todo o meu futuro – toda a luz que pudesse lá haver – na aceitação de outra pessoa. No amor de outra pessoa. Se isso nunca viesse, a mãe teria aceitado, de bom grado, uma vida de insatisfação. Teria vivido abraçada à esperança e aos momentos bonitos e, quando chegasse àquela altura da vida em que as pessoas já não vivem de expectativas para o futuro, mas sim das lembranças do passado, provavelmente desistiria de andar para a frente.

A mãe quer dizer-vos que, se doer demasiado, se for difícil, se for evidente que não há nada para vocês no átrio da casa que é a outra pessoa, por favor retirem-se. Acreditem que é possível ser-se feliz doutro modo, sozinhos ou com outro alguém. Essa luz toda, essa felicidade suprema, seria perfeita mas não é o único caminho. E, vivendo a mãe de histórias, perguntem-se se essa versão carente de vós próprios, essa versão que escrevia cartas de amor para as quais nunca obteve respostas, é mesmo quem querem ser. Pensem nos maus momentos. Não na bela cegueira que vos tomou, não no vosso sonho bonito, mas naquilo que tem sido a vossa realidade. Perguntem-se se essa pessoa que vos torturou com a ausência imposta de quem ainda tem de viver, de alguém que tem de continuar e de quem o faz sem que o ar lhe falte ainda que longe de vós, é merecedora do melhor de vocês. Se somarem tudo, quanto deram de vós até ao momento em que viraram, por fim e em definitivo, as costas? Poderia o outro pagar-vos essa devoção em tempo de vida útil?
Se for difícil – um difícil crónico e sufocante que vos prende num ciclo vicioso -, por favor, dêem-se valor. Li há alguns minutos que a “alma gémea” é a pessoa mais importante da nossa vida. É um excerto de um livro ao qual não atribuo muita credibilidade, mas ao menos isso me parece ser agora verdade. A alma gémea é alguém que segura um espelho e o aponta a ti. Alguém que te obriga a veres quem és e a reflectir sobre quem queres ser. Alguém que te causa tamanha comoção, dor e desespero, que te vês obrigado a correr, a esconderes-te, a ganhar coragem e a regressar, a lutar, a melhorares, a elevares-te, a mudares a tua vida. Seria uma dor constante viver com esse espelho apontado a ti. Quando estarias satisfeito contigo mesmo? Quando estaria ele satisfeito contigo? Nunca poderias ser, sem que de ti exigissem mais. 
E, digo-o por experiência, às vezes estariam mesmo cansados, mesmo em baixo, mesmo a precisar de dez minutos de retiro do mundo e das armas, e esse espelho estaria apontado a vocês. E, por muito que a voz por detrás dele gritasse: põe-te de pé, tu consegues! Tudo o que contaria seria a imagem no espelho. Tu, estendido no chão, exausto de tantas batalhas e a precisar de te desligares. Tu, um mero corpo inerte, de rosto na laje do chão, de uma escada talvez, e sem forças para subir os últimos degraus.
A verdade é que a mãe se orgulha de saber que é capaz de amar assim. Mas orgulha-se ainda mais de se ter tornado objecto da afeição de alguém. E o que a faz realmente feliz é que tenha sido tudo tão instantâneo, tão fácil, tão simples. Como só as coisas certas são. 
Por isso, se algum dia virem a imagem errada de vocês no espelho, se algum dia acordarem e se derem conta de que desperdiçaram o vosso tempo e a vossa juventude por algo que nunca poderá compensar-vos, façam-se amar. Entendam o vosso corpo como um templo e o vosso espírito como o vosso factor único. Saiam, por cinco minutos, desse ciclo vicioso onde se deixaram aprisionar, respirem fundo, olhem ao redor e…
Tudo de bom pode acontecer.

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