Carta aos meus filhos #23

Alguns dias custam mesmo a passar. Conjugam-se vários factores; inverno, proximidade do Natal, período, dia chuvoso, segunda-feira. Tudo somado traz-nos à beira das lágrimas.
Mas a mãe não se sente apenas sensível, hoje. Não se sente às portas de outro Natal disfuncional, descolorido. A mãe sente que perdeu um filho. Lembram-se do tal gatinho sobre o qual vos falo volta e meia? A mãe sente falta dele. Uma falta de protector para com o protegido. De mãe para com os filhos. Ainda não vos tenho, quem sabe esta comparação seja totalmente absurda. O certo é que ele desapareceu há dois meses e meio e eu continuo a ver-lhe os vultos cá por casa. Qualquer sombra de viés me parece ganhar-lhe as formas, ser ele, naturalmente sentado sobre o baú dos lençóis da bisavó Norvinda. Continuo à espera de um milagre. Mas é assim mesmo que vivi a vida até aos 24. A ler os sinais, a procurar milagres e a espreitar possíveis futuros nas cartas. As cartas ora trazem conforto ora me deitam por terra. Falam do Ermita, da Torre, da Morte, do Louco. Tudo junto é um panorama um pouco assustador. Mas a mãe também tem promessas de felicidade com dia marcado. É a impaciência que faz de mim meio louca.
A mãe esteve a ler, por alto, alguns poemas da Florbela Espanca. Em seguida deparou-se no facebook com uma partilha a respeito das cartas de amor trocadas entre dois amantes, Anäis Nin e o um tanto ou quanto perverso Henry Miller, que parece um menino a viver um amor prenhe de obscuridades. Partilhar a mulher amada não pode ser fácil. Interpor um oceano entre ambos também não pode ser fácil. Principalmente numa altura em que uma mensagem não podia ser respondida em trinta segundos. Em que, se algo se afigurasse importante proferir, atingiria as mãos do leitor tanto tempo depois que poderia já nem fazer sentido. Mas os amores duravam, não duravam? Pesquisando por imagens dos dois amantes atormentados, descobri fotografias de ambos velhos a sorrir um ao outro. Como se o outro fosse o prémio da lotaria tão cobiçado. Como se lhe fosse a recompensa da vida por todas as agruras, por todos os momentos em que apetece largar tudo, abrir as asas e desaparecer. E a Wallis Simpson e o Rei Edward VIII? Ele largou tudo por ela; abdicou do trono, do país, da proximidade à sua família e do poder por uma americana divorciada por duas vezes. É amor e fé que, a falhar, teriam sido apelidados de loucura. Qual a linha que separa a loucura do amor? Qual a linha a partir da qual a insanidade amorosa é uma coisa boa? Qual é o momento certo para se começar a fazer sacrifícios por quem se imiscua em todos os nossos pensamentos e, aos poucos, se vai tornando fonte de consolo e de carinho?
A distância fere, mas há uma falta de crença, de capacidade de sacrifício hoje em dia, bem como uma noção de que devemos recolher do mundo tudo o que ele nos possa dar, e o quanto antes, antes de nos sentarmos a ser felizes. Adiamos o melhor da vida para mais tarde, arriscando-nos a uma má gestão do tempo real de que dispomos – e que é quanto, afinal? Passamos os melhores anos a desconfiar, a pisar, a saquear, a construir em alicerces de areia, a beber até cair, a fumar, a perder noites de sono com divagações sem nexo, a lamentar a perda da infância, o atraso da riqueza que almejamos, a tirar curso atrás de curso porque é o esperado de nós, para um dia mais tarde… Mais tarde, quando os anos de ouro já passaram, é que vem aquilo que deveria ter sido o mais importante desde sempre. Porque não um caminho comum? Um assumir de objectivos e de responsabilidades (e de loucuras) comum? Porquê a necessidade de “fazermos primeiro por nós”, primeiro para nós?
A mãe está a pensar nos grandes amores, nos trágicos e nos que envelheceram. O que é que no mundo poderia ser mais admirável do que uma Anäis velha a contemplar um Henry Miller caquéctico? Aqueles dois corpos arderam um dia pelo outro. Aquilo que foi fogo unificador, morreu. Mas as almas permanecem entrelaçadas e a ternura está lá, presente no olhar, presente no bem-estar que só a proximidade com o outro corpo velho consegue transmitir. E tantos outros amores como estes envelhecem.
Julio Cortazar foi casado durante cerca de 14 anos com Aurora Bernárdez. Eram ambos tradutores de Inglês-Espanhol e ele teve alguns relacionamento com outras mulheres depois de se separarem. Quando a sua última mulher faleceu, o meu querido argentino entrou numa depressão que pode ter conduzido à leucemia que se seguiu. Morreu dois anos depois da mulher, com a sua esposa da juventude, Aurora, a seu lado. A mesma Aurora que assistiu ao sepultar no seu corpo num repouso eterno ao lado da última mulher. A mãe tem dificuldade em ver grande beleza ou honra no gesto da Aurora. Não seria ela mais louca do que apaixonada? Desperdiçar assim uma vida por um homem que, ainda que lhe fosse amigo, se encantou sucessivamente por outras mulheres? O amor altruísta da Aurora é louvado pela sua essência ou desdenhado pelo seu factor “desperdício”?
Quando passo o olhar pelas fotografias de ambos, e o vejo tão jovem a seu lado, e depois tão velho e fragilizado, e lhe reconheço o mesmo olhar de menino curioso, meio desorientado… Sim, ela foi sua protectora. Quem sabe fosse um amor maior e apenas o quisesse ver feliz. Talvez lhe tenha perdoado tudo em nome de sabê-lo feliz, e ninguém pode ser feliz se contraria a própria natureza. Ele morreu e ela já viveu quase trinta anos depois da sua morte. Terão sido esses trinta anos um total eco dos tempos idos? Uma caixa de recordações a respeito de alguém que lhe foi tão querido e que se perdeu antes do previsto? É este o destino último das mulheres? Manterem-se, quais cães fiéis – as que o são -, ao lado do mesmo homem e serem-lhe mãe, amante, transportadoras da sua semente, porta de saída do seu fruto, da sua continuidade, para o mundo, e também amigas, confidentes, amas-secas? Perdoarem-lhes tudo e ainda lhes desejarem felicidade nas incursões extra-maritais? Ainda lhes prometer que, se nos rasgarem o peito, voltaremos a abraçá-los e a reconfortá-los quando estiverem em baixo? Agora dou-me conta do perfil que tive para Aurora Bernárdez.
A mãe está a aprender. A aprender a ficar longe, a respeitar, a confiar. Encaminha-se para um amor maior, está preparada para recuar ao primeiro sinal de fumo, nas não consegue evitar dar-se. A mãe tem agora algumas horas que viveu eleitas entre os momentos mais belos da sua vida. Momentos em que não havia espaço para tristeza alguma. Instantes em que tive um vislumbre do que é olhar-se juntos na mesma direcção. Cruzando os dedos, a mãe pede a Deus – sim, ao gestor do universo, ao Universo em si – que a ajude a abrir as portas que conduzem à felicidade. A mãe consegue vislumbrá-la com alguma nitidez. Está longe – como tudo o que é bom, impõe uma espera. Está duplamente longe – demasiados quilómetros interpostos entre a mãe e a porta final dessa felicidade.
A mãe aprende, dia a dia, a valorizar a cimentação de algo que demora a ser erigido. É um exercício de pôr os medos de lado, de enfrentar as circunstâncias, de acreditar. Sobretudo, é um exercício sobre dar espaço, esperar, gostar sem sufocar, nem perseguir, nem bajular, nem se perder no tempo e no espaço impostos.
A mãe quer ser uma Anäis Nin a contemplar o velho Henry Miller. Não somos tão famosos assim, mas temos uma história tão bonita…
Se é verdade que cada mulher vive a história de amor que quer, é esta que escolho para os meus trilhos.
Só não quero ser a Mariana Alcoforado, fechada num convento, visitada pelo amor, levada a amar e, depois, abandonada por esse amor para sempre. Tudo o que desse amor sobrou foram as Cartas de uma religiosa portuguesa e uma janela de onde, tão jovem, contemplou toda uma vida de ausências e vazio por viver.
A mãe quer é ser feliz.

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