Carta aos meus filhos #24


Como vou encontrar o caminho de volta a mim mesma? Não sei quando saí, nem há quanto tempo tenho estado fora. Não sei ao certo onde estou nem que estrada me trouxe aqui. Não tenho qualquer ideia do que fazer para recuperar o trilho que tinha, tão firme, sob os meus pés.
Meus queridos, a mãe supõe que seja habitual sentirmo-nos perdidos. Contudo, foram raras as vezes que não soube quem era nem o que estava a fazer. Uma conjugação de factores soprou-me para a berma do carreiro e agora, por entre os musgos e as silvas, sinto que rastejo.
Só sei que sou uma casa vazia, e os pensamentos ecoam nas minhas paredes e reviram-se nos meus tectos. Como um ciclo que me adoça os lábios e me tinge as noites. Por muito vazio que o espaço esteja, há uma espécie de humidade que se prende às paredes; medo. A mãe tem medo. Primeiro tinha medo de perder o elo de fragilidade por quem era responsável. Depois esse pesadelo tornou-se real e o gato desapareceu, levando grande parte do misticismo e do conforto do meu quotidiano. Em seguida tinha medo da distância. E a distância interpôs-se. Quando comecei a viver, a distância duplicou, até atingir a dimensão de oceanos. Duas pessoas como dois lagos de água tépida, de pés no cimo de duas montanhas.
A mãe passa os dias de olhos postos no horizonte. Os mesmos ardem e o futuro não se deixa vislumbrar. A mãe encolhe-se um pouco mais no escuro. Foi desprovida de quase tudo. Tudo aquilo que parece oferenda, milagre, tem para a vida o mero propósito de poder voltar a despojar-me de algo que me aqueça.
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