Carta aos meus filhos #27

A mãe mudou muito nos últimos dois meses.
Em primeiro lugar, tem uma gatinha nova. Chama-se Joséphine, faz hoje uma semana e um dia que está connosco e já começou a dar retorno. Trouxe felicidade, preocupação colectiva, risos, piadas, pescoços esticados para a ver, costas curvadas para que possamos espreitá-la por debaixo da mesa. Um gato traz sorte e é algo de místico. A vossa bisavó Norvinda pega nela ao colo, acaricia-a, dá-lhe biscoitos para gato e lamuria-se com um riso num canto dos lábios. Diz que até o gato tem dinheiro a guloseimas e ela não. Então, a mãe comprou-lhe um chocolate de leite da Nestlé; primeiro porque a placa da avó não lhe permite comer chocolates com frutos secos, segundo porque o bisavô Américo trabalhou na fábrica da Nestlé durante muitos anos e levou muitos destes para casa.
Tudo isto por causa da Joséphine. A mãe pensava que a sua relação com a bisavó estava desgastada, a verdade é que a bisavó me julgava de ferro e achou-me incapaz de vergar. Mas a mãe vergou de tal modo que chegou a valer-se dos cotovelos para manter a cara longe do chão. Assim sendo, a bisavó cuidou de mim, abraçou-me, protegeu-me, desejou-me o melhor. E é sincero, e por isso aceitou a Joséphine e deixa-a dormir-lhe no colo enquanto assiste televisão na cama. Por isso, desta vez, não houve discussões e o dia 24 de Março, quando a Josie chegou, foi um dia feliz. Se temos medo de amar? Oh, temos todos, sim. Estamos todos feridos pelo desaparecimento do Napoleão. Mas, enquanto nos prostássemos a um canto, uma belezinha como a Jo ficaria sem família, sem tecto numa noite de temporal como ontem. E assim descança as orelhinhas numa almofada de veludo e dorme numa mantinha de bebé dentro da alcofa que lhe comprei. Praticar um luto eterno para quê? A mãe tem mais medo de amar do que de ser odiada. Dói tanto ver-se o objecto do nosso amor estilhaçado pelas circunstâncias…
O avô Jorge, de quem a mãe tem tão poucas boas coisas a dizer, merece aqui uma menção pela positiva. Fez uma caminha para a Joséphine, recortando-lhe um rectângulo num cesto muito antigo que a mãe trouxe da Tenência. Filhos, em 2002 a mãe sentou-se nas ruas de uma pequena aldeia algarvia, rodeada de senhores que não sabiam ler e que teciam poemas de memória, e admirou a agilidade das suas mãos que entrelaçavam cestos. Esse cesto foi agora tornado num pequeno palácio para a minha princesa. Chama-lhe “porta-chaves”, o que é a coisa mais carinhosa que o ouvi chamar a um animal. Às vezes finge que tem alguma coisa para fazer no meu quarto só para vir vê-la, incapaz de resistir ao impulso de estender a mão e acariciá-la.
A mãe passou por uma fase muito má e viu com quem pode contar. De repente, nem tudo era negro. Há muita gente que se preocupa comigo e devo retribuí-lo sendo o mais feliz possível.
A mãe voltou a acreditar que vocês venham um dia cair nos meus braços, e … surpreendam-se! A mãe sempre se achou uma durona, mas perante os olhos dilatados do Napoleão e a barriguinha em alvoroço da Josie, a mamã mal consegue dormir de preocupação. Pega neles e telefona para os veterinários de Almada, corre para lá. Torna-se a crazy cat lady que, no fundo, é só uma mulher protectora a lutar pelo bem-estar dos seus protegidos. Mal consigo ignorar-lhes os gemidos por atenção, por colo, por carinho. E se a mãe se tiver tornado assim com vocês também? Se for a galinha superprotectora que sempre esperei não ser?
A Joséphine escala para o meu colo e estende-se de costas sobre o meu braço enquanto almoço, expondo a barriguinha colorida. Tem-na gordinha e saudável e a mãe sente-se satisfeita por saber que lhe comprou a comida e os biscoitos que a fazem tão roliça e feliz. A mãe está tranquila por saber que ao primeiro sinal de alarme tem meios de a proteger de tanta coisa… Embora nunca de tudo. Ao vê-la estendida, exposta às minhas mãos, sendo que apenas uma, se mal intencionada, poderia causar-lhe tanto mal… significa o mundo para mim (it means the world to me faz mais sentido). A mãe quer animar outras existências, saber-se capaz de salvar alguém.

Sinto que posso, finalmente, voltar a escrever. Voltar a concentrar-me no meu trabalho, nos meus amigos e naquilo que me dá prazer. 

A chuva já não me traz melancolias, empurra-me adiante. A mãe, por fim, está em paz e aprendeu a esperar.
A mãe tem um lindo plano de futuro e até já comprou uma varinha mágica.
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