Carta aos meus filhos #28

Meus queridos,
A mãe passou por várias dificuldades e teve vergonha de muitas situações ao longo da sua juventude. Mas a coisa que a envergonhava mais era não ter possibilidade de viajar. Por isso, a cada vez que a mãe larga amarras e vai conhecer um novo cantinho do mundo (da Europa, para ser precisa), é como se me saísse a lotaria. Nunca voltei igual de uma viagem, nem das mais pequenas, nem das repetidas. Já vos disse que um dos momentos em que me senti mais capaz e mais orgulhosa de mim mesma foi quando me vi sozinha na Alemanha a apanhar um comboio de Hamburgo para Bremen, não já? E em Hamburgo conheci emigrantes sicilianos e ficámos amigos. E em Bremen ia sendo atropelada por um ciclista brasileiro e ficámos amigos. E ainda em Bremen comi uma berlinerao lado de um cidadão da Algéria que me explicou os princípios do seu islamismo de modo que compreendi o seu lado humano e admirei o seu profundo respeito à sua religião (ou, digamos, filosofia de vida). As pessoas encontram-se a si mesmas nessas viagens. As almas, ansiosas por se conectar, por partilhar, por se elevar, por aprender e ensinar, entrelaçam-se por momentos. Estudam-se mutuamente, e dão-se ligações preciosas quando saímos de casa. Ligações fortalecidas pelo desconforto de não se ir dormir a casa nessa noite. É uma escolha; confiar. E, quando se confia, coisas maravilhosas sucedem. (Mais tarde alguém vos dirá que desconfiem, mas o meu papel é o de vos dizer que, sendo espertos mas crentes, a vida tende a sorrir-nos).
A mãe regressou a Dublin, a Roma e agora prepara-se para regressar a Paris. Contudo, nunca poderá regressar à Tenência.
Faz este ano dez anos – uma década -, quem sabe se não hoje mesmo, a catorze de Abril, que me sentei sob a alfarrobeira junto à eira a ouvir o Feels Like Home da Norah Jones. O CD tinha acabado de sair e a mãe punha-o a girar no seu discman da Sony. Estava-se em Abril, eu tinha recebido um casaco de lã grossa azul no Natal e usava-o para todo o lado. Tinha uma máquina analógica e tirei-me fotos – já haviam selfies naquela altura, pois sim – com campos de papoilas ao fundo. Tinha catorze anos e começava a perguntar-me tanta coisa…
Vocês não saberão o que é estar-se cingido às doze músicas de um CD. Não saberão o que é ter de se conhecer todas as faixas e o ter-se orgulho de saber o número da faixa tal. Com o tempo, o “Thinking about you” é do Feels Like Home deixará de fazer sentido. Agora um artista lança uma música que fica no ouvido, conhecemos essa e nenhuma outra. Não importa a carreira nem o talento, porque tudo é efémero e se resume a um sopro momentâneo de sorte.
A mãe dedicou este CD ao morcego caído aos meus pés, às seis da manhã, à saca de amêndoas que a amiga da tia me deu à porta de casa, por entre lajes vermelhas, cortinas de retalhos e vasos de barro. A mãe dedicou este CD aos exércitos de formigas que me subiam pelas pernas, como se eu fosse parte do tronco da árvore que habitavam. Dediquei este CD ao meu amor inocente, nunca concretizado, que combinava tão bem com aquela paisagem. Nunca fui tão feliz como fui ali, com tão pouco.

Bastava-me o sol da manhã, seguido das infusões de vinagre que me esfregavam nas costas à tarde, porque os dias solarengos me punham mole e eu dormia de manhã à noite. Bastava-me apanhar amêndoas metidas em casulos de resina. Bastava-me sentar-me sob as figueiras, estender as mãos e comer os figos maduros, em Setembro, sabendo que odiava figos e que jamais comeria outros que não aqueles, enquanto estava ainda molhada da ribeira. Bastava-me despir-me de tudo – despir-me, sim – e nadar, só eu, humana, e só a ribeira, estendida sobre a nascente fria que os meus pés afloravam. Bastava-me esconder-me sempre que ouvia um carro a descer a colina, mergulhar mais a fundo. Bastava-me estar por ali, desafiar-me a chegar à embarcação, devolver a achegã pescada ao rio, polvilhar um tomate com sal e acompanhá-lo de chouriças em pão alentejano, como se manjar algum igualasse aqueles lanches fluviais. Bastava-me estender-me no chão, tantas vezes o fiz, sentir-me parte da folhagem ressequida do final do verão, e depois acordar a meio da noite com formigas a dançar-me junto ao tímpano. Ou acordar, mal o sol despertara, pegar num caderno velho e percorrer alguns metros por entre as casinhas caiadas da aldeia até ao pontão de onde observava o nada. Um muro de suaves colinas e céu azul, dourado e azul, pois, como se para lá desse quadro nada mais houvesse. Nem maldade, nem guerras, nem poluição, nem telejornais histéricos, nem política, nem a Lady Gaga, nem a Nicki Minaj, nem pessoas que encarceram as filhas e as tornam suas amantes, nem pais que atiram as filhas de seis anos pela janela, nem mulheres que retalham os maridos e se livram do corpo deles em três trolleys.

Soa-vos aborrecido, não é? Que fariam vocês numa aldeia sem internet, sem rede telefónica, sem um café que funcionasse em horários habituais, pelo menos? Se a mãe pudesse pedir um desejo para vocês… sabem o que seria? Para além de saúde, desejo-vos senso de pertença. Ó, por favor. Sintam que pertencem ao mundo, que são parte dele, que quando o vento vos fustiga o rosto vos magoa, e que quando vocês cortam uma árvore a terra sangra. Por favor, sintam que são feitos de pó e que um dia ajudarão a adubar um jardim. Não se achem acima de coisa alguma, porque isso só vos trata insatisfação a vida inteira.

A mãe gostaria tanto de voltar a esses tempos… mas tudo o que encontraria seriam casas fechadas, telhados desabados, as fachadas outrora primorosamente caiadas estarão pejadas de lascas e os idosos foram recambiados para lares ou já estão no chamado jardim das tabuletas. Em breve a Tenência será um cemitério. Parece algo tão pequeno, uma ruína, um castro, uma povoação romana, uma Chernobyl privada de animação, de vida, de juventude… Alguém algum dia sonhará que lhe dediquei o Feels like Home? Because it really felt like home.
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