Carta aos meus filhos #30

A mãe está feliz. A mãe gosta de ter um plano, de ir a lojas de ferragens, a lojas de alguidares, a lojas de tinta. A mãe gosta de trazer catálogos de cores para casa e de percorrer lojas de tecidos e de sentir a textura de cada um deles nas pontas dos dedos. Amanhã a mãe vai comprar um bloco de desenho e lápis de cor, para fazer experiências de cores, ver os contrastes, decidir o que quer para si. A mãe não consegue passar um dia sem comprar uma vassoura (uma varinha mágica), um armário de casa de banho.
A mãe soube hoje que mais duas pessoas vão morar juntas, vão sair de casa. Somos novos, diria eu. Mas está na hora.
A mãe percorreu as ruas de Almada. Querem saber como era a Capitão Leitão em dois mil e catorze? Há uma loja de bombons, frutos secos avulso, rebuçados e outros produtos enfrascados, com um cheiro muito característico, com um balcão onde está uma senhora amorosa. Uma senhora tão doce que só poderia estar a vender bombons. Há uma loja de sapatos que faliu e cuja montra está coberta de poeira. Há uma loja de self-service que, noite afora, vende garrafas de água, chocolates e preservativos. Há uma antiga drogaria poeirenta com vernizes na montra, soda cáustica e tintas para cabelo. Há uma loja daquelas que tresandam a velas de alfazema, com iemanjás e budas na montra, leitura de auras e tarotanunciados na porta. Há uma papelaria outrora muito frequentada, agora outro recanto caído desta rua envelhecida. Há a velha loja de livros em segunda mão onde ia comprar os livros da Harlequinque partilhava com a minha avó, no tempo em que ela ainda lia; o senhor morreu e a loja está vazia e de grades enferrujadas. Há o cão amarelo de um senhor que está sempre a cuidar da horta, um nível acima da estrada, debruçado para a rua e de cauda a sacudir. Há a antiga oculista, onde fui uma vez comprar um parafuso para uns óculos, e tive desconto porque reconheci, no pescoço envelhecido da lojista, o aroma do Coco Mademoiselle que também eu uso. Há uma loja de móveis em segunda mão que ajuda toxicodependentes, e onde a mãe entrou à procura de alguma antiguidade que valesse a pena mas, tendo sido recebida por um sorriso de boca desdentada, voltou a sair de imediato. Há uma loja de electrodomésticos em segunda mão. Uma loja de electrónica em segunda mão. Uma churrascaria e uma igreja recentemente renovada.
A mãe percorreu a rua inteira, de sorriso no rosto, satisfeita por viver na cidade onde vive. Há uma pequena preocupação, um pequenino sussurro que tenta insinuar-se sem grande resultado… Será que sou merecedora de uma coisa maior? De uma coisa bonita? De alguém que apanhe aviões por mim? Para ver-me? Para registar uma das minhas observações menos inspiradas? De alguém que me ligue e nunca se esqueça de me perguntar se estou bem? De alguém que me entenda nos altos e nos baixos e goste de mim em todas essas circunstâncias? De alguém que repare na minha dupla barriga, que se ria disso e me faça rir também sem me pôr a chorar? Sem me diminuir? Sem me desprezar? Serei merecedora de um homem que venha e que fique… Pela vida toda? Serei um bom investimento?
A mãe não tem um nome para atribuir ao que sente, mas a mãe sente-se apaixonada. Dançam-me borboletas no estômago, sorrisos involuntários nos lábios, uma certa paz interior de quem está onde deveria estar. A mãe está apaixonada e só pode ser pela vida…
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