Carta aos meus filhos #32

Meus príncipes,

A mãe não anda muito bem ultimamente. Já está a fazer os possíveis para ficar bem, mas há sinais de que melhora com lentidão.
Ando meio fragilizada a nível físico, não há doença – daquelas que moem mas não matam – que não me encontre. Hoje estou com dores de garganta, ouvidos, espirros, tosse, expectoração, moleza. Mas daí que estou mole todos os fins-de-semana. Chego a perder a noção do tempo por passá-lo a dormir. Penso em ler, mas ao final da terceira página já estou desinteressada e sonolenta. Depois tento jogar o meu jogo habitual – não me apetece. Tento escrever – não consigo. Tento reescrever, coisa que não me exige muito da cabeça, mas também para isso falta motivação. A televisão nem tento ligar.
Que faço então? Deixo-me ficar estendida, de pijama, janela aberta até refrescar, depois fechada até aquecer, depois de novo aberta. Que faço, pois? Observo as cortinas a ondular ao vento. Espreito a tonalidade do dia, os azuis, os liláses e os alaranjados do final de tarde. Oiço música. Como, quando não como penso em comer. De vez em quando tapo-me com uma manta e permito-me voltar a adormecer. Mas só porque sim, porque cansada não estou e ter sono é impossível.
Hoje pareceu-me, enquanto fitava o nada, que estou à espera. A mãe não lhe sente uma grande falta, mas também não tem outra fonte de alegrias a não ser as tias Ana e Cláudia e a gata. A mãe deixa-se ficar, sempre à espera
Quando é que o vosso pai vai chegar e salvar-me? Quando é que ele virá resgatar-me de mim mesma? Animar-me os domingos? Levar-me a sair? Beijar-me na praça central de uma qualquer capital europeia? Criticar os meus cozinhados? Insistir em sintonizar o rádio para as músicas dele? Queixar-se dos lenços que deixo por toda a parte? Quando é que vou ouvir-lhe as gargalhadas a ecoar na casa? Quando é que ele virá para julgar que manda, só para eu ir por trás fazer tudo à minha maneira?

Por uma vez, a mãe sente que precisa de ser devolvida à alegria de viver. Ele que chegue depressa, por favor. A mãe nunca precisou tanto dele como agora.

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