Carta aos meus filhos #42

O dia hoje foi longo. Começou com a mãe a despertar pela primeira vez na sua casa. Esteve muito calor, tanto que a mamã se refugiou na casa nova o dia inteiro. Antes entre a frescura dessas paredes, a trabalhar, do que estendida e a amolecer, como se derretesse em banho-maria, na casa da bisavó.
Foi um dia sem fim, em que dei por mim a esfregar chãos, pintar janelas, tectos, a dispensa. Sentada no último degrau do escadote, com uma lata de tinta no colo, a mãe sentia os salpicos da tinta branca caírem-lhe nas mãos, nos braços, na cara, no cabelo. O meu rabo-de-cavalo ficou cheio de pintas brancas, que espero que saiam com facilidade. Enquanto pintava o tecto a ouvir as músicas da Smooth Fm I’ve got you, under my skin, e etc., a mãe sentiu-se muito capaz. Já no topo do escadote percebo que não tenho medo de alturas. Não tenho medo de me sujar. Não tenho medo de estragar as unhas. Lido bem com esquemas de tentativa e erro, e apesar do investimento na tinta, a mãe gosta de ir cuidando das coisas por si mesma.
Convenço o avô a furar a parede da cozinha para pendurar uma calha que servirá para os escorredores de loiça. Qual a minha surpresa quando, pouco depois de ouvir a broca a funcionar, oiço o equivalente a um repuxo na minha cozinha. O jacto de água ia de uma ponta à outra da cozinha, atravessando-a em largura. Muito bem, muito bem. Muito bem, furámos um cano. Acontece a todos, certo? O avô ficou chateado. Diz que o cano é de plástico, dos modernos, porque se fosse de ferro, sendo a broca para pedra, teria era queimado a ferramenta. Temos que tirar azulejos – haverão iguais? E temos de reparar o cano. Ele baixou a cabeça e queixou-se do azar que tem. A mãe ouviu os risinhos das tias Ana e Cláudia, para quem tudo tem solução fácil, porque são meras espectadoras e não intervenientes. A mãe sentou-se nos ladrilhos da cozinha a fazer cálculos mentais. É capaz de ter enterrado a cabeça nas mãos por um bocado. O avô pergunta porque estamos para ali prostradas, umas a rir e outras sem reacção, porque não vamos buscar a esfregona e damos conta do problema imediato, que é o chão encharcado?
A mãe não pode permitir que isso a deite abaixo. Pôs-se de pé e foi acabar de pintar a despensa. Não pode permitir que isso a deixe em baixo. Mas preciso que saibam que foi difícil. É difícil ter meia dúzia de tostões na conta a meio do mês quando trabalhamos tanto e nos parece que trabalhamos desde sempre. É difícil precisar de ir ao médico mas pôr a casa à frente. Daqui por diante será assim. 
Quando fechei a porta de casa e vim embora para o forno que é o primeiro andar da bisavó, observei o chão riscado da sala, os pedaços de cimento e areia que arranquei com a espátula ao tecto da marquise, os ladrilhos pintalgados de tinta branca no corredor, o furo de onde jorra água (caso a mesma não tivesse sido fechada), a cozinha prenhe de chaves philips e chaves de fendas, espátulas, latas de tinta, lixas, buchas, parafusos e pregos, lençóis de plástico pintalgados de tinta. Parece tudo mais caótico do que nunca e a mãe prestes a começar uma nova semana, isto é; sem tempo de endireitar as coisas.
Tudo isto são degraus. Cada problema a seu tempo. A mãe resolve – sobe – um a um. Até chegar a vocês.
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