#Carta aos meus filhos #45

Três Histórias de Amor, Parte II
Uma delas acabou, ponto final. O respeito não é algo que se recupere após um enxovalhamento público.
A outra acaba de sofrer a imposição da distância. Os dois apaixonados reúnem a tecnologia, o plafond dos cartões de crédito e a vontade de se reencontrarem para prometer que se voltarão a ver. Que, num mundo tão vasto, os seus rostos voltarão a estar frente a frente.

 E a mãe? Sim, a terceira história de amor é a da mãe.

Se calhar fui injusta. De falta de tempo todos os homens parecem sofrer ultimamente. O que importa é quando ele estava comigo por inteiro. E é disso que a mamã sente falta, hoje. De uma pessoa que queira estar comigo tão insanamente que, quando nos virmos, não tenhamos bem a certeza de quem foi ao encontro do outro e de quem o abraçou primeiro. Era assim comigo e com ele. Ele via-me, ao longe, sorria-me. Depois abria-me os braços e segurava-me contra o peito durante tanto tempo que eu julgava que acabaria por sufocar. Quando me afastava, estava a sorrir. Caminhávamos lado a lado, com ele a abrir-me o caminho, a esticar-me a mão quando eu ficava muito para trás. Aquelas mãos perfeitas cujos gestos aprendi a conhecer.
E os olhos? Não há palavas para descrever a doçura nos olhos dele quando me via. Ou a forma como me provocava para descobrir se o meu mundo fora igualmente arrancado dos eixos e se eu estava estúpida de felicidade por o ver. Por estar ali com ele; ali, num sítio qualquer, mas com ele. A dançar, com ele. A caminhar na rua, com ele. A entrar em dez lojas de sapatos, está bem, odeio, mas com ele. A apanhar um comboio com ele, a adormecermos de mãos dadas e cabeças apoiadas um no outro. A dividir uma cookie com ele e a fingir que não quero mais para vê-lo deleitar-se ao comer. A dividir tudo, na realidade. A acordarmos lado a lado, em simultâneo, e a sorrirmos com cara de zombies um ao outro. É uma pessoa tão completa, meus queridos. Tem um coração tão grande, tão mole, por vezes… As horas que esse homem perdeu a secar-me as lágrimas, e nunca o afugentei, nunca se enojou, nunca me negou uma palavra de carinho e compreensão nem se deixou intimidar pela imensidão do meu desespero.
A mãe sonhou com ele esta noite. Sonhou que estava longe, em trabalho, como está, mas que, em pequenos sinais – uma fotografia aqui, uma citação ali – me dava a entender que pensa em mim e que ainda se preocupa comigo. Sonhei que ele me havia pintado a sala e que eu era uma mal agradecida. Tudo se resume a isso, ele não me pintou a sala, nunca chegou a conhecer-me a sala. Porquê? Porque a mãe é uma besta e o expulsou da sua vida antes que ele pudesse vir e dar-me palpites acerca de tudo. Porque ele se interessava por tudo o que tivesse a ver com a mamã. Iria perscrutar as pilhas dos meus livros e entender quantos deles já lera. Iria dar conselhos sobre a cor das paredes e a incidência do sol nos cómodos. Iria dizer-me onde encomendar lâmpadas LED. Iria dizer, com toda a naturalidade, “quando eu for aí levo-te x”. Porque ele queria vir. Ele queria tanto vir…
O coração da mamã apertou-se. Saiu-me a lotaria e eu deitei fora o bilhete. É o que sinto.
Porque é que dói tanto? Pergunta a segunda voz.
Porque, num mundo de pessoas desencontradas em que nem sempre (os amigos, a família, os amores) nos querem tanto quanto os queremos a eles, é um milagre encontrar uma pessoa cujos braços se abrem assim para nós. E dói libertarmo-nos desses braços, privarmo-nos deles. Principalmente porque sabemos que a outra pessoa também sofre por não nos ter lá.
Mas a mamã, é uma promessa que se faz, não voltará jamais a sofrer por alguém que não abra os braços quando a vê.

Across my heart, and hope to die.
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