Carta aos meus filhos #47

Meus queridos,
A mãe demorou demasiado tempo a aprender a gostar de si. Nomeadamente, da cor do seu cabelo. Quando comecei a gostar de ser magra, depois de tanto ter querido engordar, engordei. Agora não sei como perder o peso. Para dizer a verdade, nem quero dar-me ao trabalho. Quando finalmente decidi deixar de pintar o cabelo de ruivos-desgostos-amorosos e pretos-vou-pôr-me-de-pé-e-não-preciso-dele-para-nada, surgem-me os cabelos brancos. Já são quatro ou cinco, e surgiram todos no último ano. Não vou disfarça-los, para já. Mas gostava de ter tido mais tempo para gozar a glória de um tom de cabelo natural.
Estou feliz porque estou a conseguir escrever um novo livro a todo o gás. Chama-se “Uma Mulher Respeitável”. Está a sair com um carácter mais racional do que emocional, mas talvez seja por isso que é o momento certo para escrevê-lo. Preciso de calculismo e de racionalidade. Nervos à flor da pele não combinam com esta personagem.
De resto, a mamã está vazia.
Uma folha ao vento, sem sequer exibir as impressões digitais das folhas.
A mãe é uma folha de um desenho de criança – não o suporte, mas o objecto da ilustração. Só forma e verde.
Não faz sentido.
Não sabe que é uma folha.
É só um borrão numa folha branca, outrora parte de algo maior.
Outrora árvore.

Agora uma sombra; um desenho.

Neste momento, a melhor forma de descrever o que se passa na cabeça da mãe, no background da cabeça da mãe, é isto:

zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
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