Carta aos meus filhos #50

A mãe acordou às seis da tarde de Sábado, após uma sesta de quatro horas, e foi ver o vosso bisavô. Por esta altura – e para sempre – ele precisa de estar na cama ligado ao oxigénio. Sempre e para sempre. As ninharias de que depende a vida… quase tantas quanto as de que depende a felicidade. O bisavô estava a ver um filme com a família toda ao redor. A avó estendida ao lado, a tia Cláudia enrolada entre ambos, a tia Ana ao fundo da cama. E, no centro, estendidas, a Valentina sob as mãos da Cláudia e a Josefina cá em baixo, que ela não gosta de grandes atenções ao seu redor.
É um bonito quadro de família. Mas a mãe está a perecer. A mãe mudou e ainda não retomou as rédeas da sua vida. Nem as rédeas de si própria, para dizer a verdade. A prometida energia que as tais infusões trariam, mantém-me sonolenta o dia inteiro. A mãe continua sem vontade de fazer nada. Ou melhor, a mãe tem vontade mas é incapaz de se concentrar em algo durante muito tempo. Dá-lhe sono a meio dos filmes, não posso escrever muito de cada vez, nem tão-pouco ler. Não há dia em que não boceje a todas as horas, e é raro chegar a casa do trabalho e não me deitar a dormir.
Quanto ao trabalho é outra história… A mãe sente-se puxada para ele de tal maneira que até lhe custa passar os fins-de-semana sem ir adiantar coisas. Por gosto, porque são tarefas que começo e acabo e que termino. Ao contrário de todo o resto, onde me falta motivação.
A mãe sente falta do vosso pai. Dormi pela primeira vez na minha cama sueca 200 x 140. Parece uma nave espacial. Cabiam quatro pessoas com a estrutura da mãe ou três de estrutura comum. O vosso pai poderia dormir à vontade no cantinho dele, partilhar comigo essa viagem nocturna na nave espacial.
Quero que saibam que nem tudo são rosas. Para a mãe, ter uma casa e uma dívida de tantas décadas ao banco é um bocadinho sufocante. Por vezes é até assustador. E a mãe sabe que a casa estará sempre paga, mas o resto assusta-a. As contas empilham-se. Temos que ser os grão-mestres da gestão para que tudo funcione sem sobressaltos. E os sobressaltos sucedem-se… A mãe não tem muito dinheiro mas também não está desgraçada financeiramente. Contudo as preocupações acumulam-se e a mãe tenta estar presente em todas as frentes. Para o mês que vem tem de esterilizar a sua gatinha. Tem de ser… o custo é o equivalente a metade do sofá, 1/3 do esquentador ou três cadeiras para a mesa da sala. Mas o amor é assim. E a mãe ama-as.
Já está na hora de o vosso pai aparecer. Era bom que me mantivesse acordada o dia inteiro, que eu quisesse viver por ele também e me recusasse a cair na inanimação. Escolhi as cores das paredes a pensar nele. Já está na hora de ele vir para nos sentarmos um bocadinho no sofá à noite. A mãe precisa de pousar a cabeça no ombro dele. Precisa de cheirá-lo, de sentir-se amparada. Já está na hora de irmos jantar fora, descobrir restaurantes juntos – a mãe gosta tanto de comer! – e de tirar fins-de-semana algures. Já está na hora de explorarmos o mundo juntos, de nos irmos conhecendo, adaptando, sintonizando. Por enquanto eu ainda tenho avós para lhe apresentar, e sei que o bisavô choraria se eu alguma vez me casasse. E que seria louco de paixão pelos meus filhos. Talvez esteja a ser demasiado ambiciosa… não chegarei a isso. A vida é cruel, ingrata e irónica.

Anda para casa, amor. Está na hora de eu aprender a cozinhar os teus pratos preferidos.

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