Carta aos meus filhos #55

Uma vez a mãe apaixonou-se por um homem que leu As Aventuras do Robinson Crusoé, as Viagens de Gulliver e A Ilha do Tesouro. A mãe amou-o mais um bocadinho quando ele lhe falou do modo como esses livros lhe influenciaram a visão das coisas; o sabor adocicado da aventura em páginas tão estimadas de literatura.
A mãe quis muito que esse homem de olhar bondoso, esse homem que entrava em chocolatarias comigo e me perguntava “o que queres?” fosse o vosso pai.
Depois dei-me conta de que, vinte e cinco anos desperdiçados com um homem e cinco filhos depois é que a minha mãe, a avó Vanda, é finalmente feliz. Finalmente encontrou, passados cinquenta anos de vida, um homem com quem comunicar lhe é fácil, dar as mãos é fácil, ser uma equipa é fácil. E este homem esperou por ela a vida inteira. Viu-a ter um, três, cinco filhos com outro. Acabar e recomeçar com o outro. Chorar e prejudicar-se pelo outro. E continuou a acarinhar a esperança de a ter. Entre filhos, entre desgostos, lá estava ele, paciente.
E agora a avó Vanda é feliz. Só fala dele, e já estão juntos há um ano. Parecem dois pombinhos ciumentos e muito apaixonados.
Quanto tempo terei de esperar para reencontrar um homem que espere que eu adormeça para soprar, contra o meu ombro, “ti voglio bene”?
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