Carta aos meus filhos #62

11 de Agosto 2014
Meus caros,
No rescaldo do sucedido com o inspirador actor Robbin Williams, que possivelmente foi levado pela depressão, ganhei coragem para me confessar.
Desde meados do ano anterior que ando a debater-me com esse mesmo fantasma. Não soube de imediato que melancolia era aquela. Sabem quando se está deitado ou sentado, à procura de uma posição mais confortável, sem que nos sintamos bem de modo algum? Foi mais ou menos isso.
Primeiro um certo grau de insatisfação, um pouco de desencanto a juntar-se à receita, uma certa perda de identidade. Mudei-me para a Alemanha em busca de mim própria e de “uma vida melhor”. Depois entendi que lá estaria pior do que cá. Durante a semana que estive na Alemanha, jamais dormi. Todas as noites tinha a estranha percepção de que alguém entraria em casa a qualquer momento para me fazer mal. Dormia com um olho aberto e outro fechado, julgava ouvir passos nas escadas e até respirações arrastadas no andar debaixo.
Quando regressei a Portugal, passei a dormir durante o dia, além da noite. Estava sempre cansada e sem energia. Se estivesse fora de casa, sentia um terror irracional a respeito da possibilidade de virem para me fazer mal. Eu, que sempre disse à boca cheia não ter medo de coisa alguma.
De repente a minha força estava quebrada. E eu chorava. Chorava por não me reconhecer. Chorava porque não via saídas em direcção àquilo que eu queria ser.
Depois apaixonei-me e vivi uma história de amor bonita. Enquanto esse homem me beijava os dedos ressequidos do frio do inverno passado, não chorei. Mas a distância e as dificuldades deitaram-me novamente abaixo. Mesmo estando com ele não conseguia ser feliz. Não conseguia evitar cobri-lo de medos e de inseguranças, nem conseguia impedir-me de ir sentar-me no chão da casa de banho de porta trancada a chorar à noite. Quando ele me chamava, me perguntava se estava bem, limpava as lágrimas, envergonhada, e voltava para o lado dele. “Nada, nada”.
Quando tudo acabou, em parte porque entendi que estava a matar-nos, já estava num buraco negro de difícil saída. Foi aí que entraram os amigos.
Aos amigos; obrigada. O-B-R-I-G-A-D-A. Nem toda a gente passou neste difícil teste. Quem me achava metediça, nariz no ar, a precisar de umas chapadas para “ver se cresço”, disse-mo na altura de um modo ou doutro. Nunca  ninguém me tinha visto tão em baixo, por isso foi fácil abandonarem-me. Foi fácil desistirem de mim. Não para os amigos, contudo. E, por isso, um agradecimento infinito por terem estado ao meu lado quando nem eu era capaz de valer-me.
Disse-lhes, aos amigos, que não conseguia ser feliz de maneira alguma. Que não tinha projectos de futuro. Que nada me fazia feliz nem me trazia prazer. Eles, na medida do que se entende de alguém desanimado, tentaram dar-me motivação. Aconselhar-me a ter pensamentos mais positivos. De repente tudo aquilo pelo qual eu deveria estar grata era diariamente enumerado. Os livros, a casa, os irmãos, os gatos, a avó prestável, o país em paz, a barriga cheia.
“A depressão é a doença do pensamento”, li, e é mesmo. É como se a voz dentro da nossa cabeça tivesse vontade própria. Fala, fala, fala. Diz que isto é difícil, aquilo é difícil, o ontem foi complicado mas o amanhã vai ser pior. Pergunta-me se estou certa de querer estar por cá, se não valeria mais a pena ir-me já embora. Bater a porta e sair pela porta dos fundos.
Fui diagnosticada nas urgências de um hospital público, num dia em que a ansiedade e as tremuras na ponta dos dedos me impediam de ir trabalhar. Foi mais ou menos assim:
Um casal de médicos sentados perante mim. Um homem de telemóvel em punho, que nem sequer ergueu os olhos do aparelho para me ver entrar. Uma mulher jovem e bonita, que me fez uma série de perguntas às quais respondi o melhor que pude:
– Tem-se sentido cansada? Check.
–  Tem uma má relação com os seus pais? Check.
– Costuma chorar muito? Check.
– Sente-se desesperada? Check.
– Quer tirar férias? Check.
– Já pensou em morrer? Check.
– Mas queria só apagar-se ou faria algo nesse sentido? Double check.
Mandaram-me para casa com receitas de antidepressivos para seis meses. Disseram que o único efeito secundário seriam enjoos matinais. Nunca enjoei. Ao invés, sentia o cérebro toldado o dia inteiro. Mal consegui articular uma frase durante três ou quatro dias. No emprego, não conseguia sobreposicionar as tarefas. Abria um e-mail e sabia que tinha de ir ao Excel. Quando chegava ao Excel já me esquecera do conteúdo do e-mail.
Dormia o dia inteiro. Acordava às 10:00, voltava a dormir ao meio dia, incapacitada sequer de esperar pelo almoço. Depois acordava às seis da tarde, sem sono mas também sem qualquer motivação para fazer fosse o que fosse. Ler? O meu hobby de sempre? Nop. Escrever? Demasiado difícil para quem está reduzido a uma alface. Cheguei a estar na casa de banho, sentada, sem qualquer certeza de estar ali porque acabara de fazer chichi ou porque ainda ia fazer chichi. Desejo sexual? Nenhum. Uma alface anémona. Era o que me chamava, na altura, numa tentativa patética de trazer algum humor sobre a situação.
Felizmente o meu patrão foi excepcional, compreensivo e despreconceituoso. Mesmo quando eu me encolhia ante o estigma de ser agora uma doente do foro psiquiátrico, o meu patrão nunca me recriminou nem pressionou. Mandou-me para casa nesses dias em que mal conseguia abrir os olhos.
Com as semanas, aprendi a controlar o sono e todos os outros efeitos se atenuaram. Já fazia a minha vida com normalidade há dois meses quando tudo regressou, pior ainda.
Quando comecei a tomar esses comprimidos, esse Escitalopram, não conseguia sequer soltar uma lágrima. Imaginem a situação; alguém vos diz “a tua mãe morreu”, e eu tinha uma vaga noção de que isso é grave e que, não fossem os comprimidos, cairia de joelhos em lágrimas. Ao invés acenava e perguntava o que deve ser feito agora. Estava seca de lágrimas e de emoções.
O escritor norte-americano, de origem mexicana, Francisco X. Stork (Marcelo no Mundo Real), está a escrever um livro sobre uma jovem a combater a depressão. Perguntou-me se seria capaz de me apaixonar por alguém estando doente desse modo. Sim, é possível apaixonarmo-nos por alguém tendo depressão. Mas é impossível apaixonarmo-nos tomando antidepressivos. Os nossos sentimentos ficam reduzidos à básica noção de certo e errado. Sabemos quem esteve sempre ao nosso lado e quem nos causou mal. Mas a complexidade de um amor? Não. Ou talvez seja só eu, que seria incapaz de submeter um homem aos altos e baixos deste meu naufrágio.
Tendo voltado a chorar, a querer desaparecer, e tendo os meus amigos a assistirem-me de perto e a revezarem-se para olhar por mim, foi óbvio que os antidepressivos que me passaram não estavam a funcionar mais.
Por esse motivo, voltei ao Psiquiatra.
“Tenho vinte e quatro anos e vou ao Psiquiatra”. Na sala de espera havia sobretudo homens de meia-idade. Apesar de o médico ser privado, eles entravam e saiam com rapidez da sala, munidos de receitas. O psiquiatra tem, decerto, mais de setenta anos. Não acredita em psicoterapia. Não me perguntou absolutamente nada da minha vida. “É feliz?”, “Morreu-lhe alguém?”, “Foi despedida?”, “Sofreu uma separação recente e difícil?”. Nop, nop.
“Dorme bem?”, “Sente-se nervosa?”, “Tem a certeza que não quer baixa?”. Depois perguntou-me, por curiosidade, o que faço. Ao ouvir “turismo”, dispara a sua opinião sobre os eventos da faixa de Gaza. Estávamos em Julho.
Lá fui aviar-me do novo kit. Antidepressivos em dose dupla, anti-ataques de pânico e comprimidos SOS, para cada vez que a vida ameace não fazer sentido eu atire de imediato um para debaixo da língua. Depois adormeço, encerro a fealdade e acordo com passarinhos a cantar e sol no céu.
E o choro? A cabeça quase explode, na nuca. E os pensamentos? Não controlo ainda nenhum deles. Seguem vias demasiado obscuras para a pessoa que eu costumava ser.
A minha maior preocupação é esconder todo este desespero, toda esta sensação de final de linha, da minha pobre avozinha. Ela não entenderia nem aguentaria ver-se obrigada a estar ao meu lado agora. E as minhas irmãs. Não quero que me vejam assim. Não quero que saibam aos oito e aos catorze anos, como eu também não soube até aos vinte e quatro, o que acontece com uma pessoa que perde a força de vontade e o desejo de viver.
21 Outubro 2014
Agora estou bem. Reduzindo a dose absurda que o médico me passou, sorrio. Foi a andar na rua que, primeiramente, senti um rasgo de amor. Pensei “voltei a amar”. Depois, dias mais tarde, a minha mãe disse-me, a meio da semana ao telefone, que estava a pescar. Ri-me sozinha. Era algo muito meu, rir-me sozinha, e pensei algo do género “Bem-vinda de volta, Célia”. Voltei do submundo, não hajam dúvidas.
Estou forte, de pé, feliz, ainda a recuperar, ainda medicada, mas a apreciar cada instante deste renascer. Estive num buraco tão fundo que, meses depois, tudo o que me importa é mesmo agradecer a quem saiu do seu caminho para vir tirar-me do chão, para vir limpar-me as lágrimas, para ter coragem de me chamar de mal-agradecida quando qualquer estilhaço poderia ser-me fatal. Obrigada a quem teve coragem de me gritar que a vida é dura quando eu me julgava incapaz de suportar a sua dureza. Obrigada por não terem mentido e por não me terem pegado ao colo e por não me terem prometido que daqui por diante tudo seria mais fácil. Obrigada por me terem garantido que tudo continuaria tal como está, eu é que ganharia nova fibra.
Para quem tiver depressão… preparem-se. As pessoas vão chamar-vos de loucos. Vão dar estalidos com a língua, acenar negativamente, suster um risinho cínico no canto dos lábios. Vão chamar-vos de mimados, de malucos, de imaturos, de mal-agradecidos, de drama queens/kings. Vão descortinar tudo aquilo que vocês têm que é digno de gratidão e vão enumera-lo vezes sem conta. Vocês vão ficar fartos da lenga-lenga, mas quando começarem a sentir-se melhor, essas palavras vão começar a fazer sentido. Quando se agarrarem de novo à vida, quando a nuvem passar, serão vocês a enumerar essas mais-valias. A voz ao fundo a vossa cabeça, a mesma que vos dizia que não iriam a lado nenhum, que ninguém vos compreenderia, que ninguém sobraria para vos dar a mão, dá lugar a esse sibilo. Ao das coisas boas.
Se estiverem com depressão, lembrem-se que a voz que procura levar-vos não é a vossa, não são vocês que estão fartos de viver aos dezasseis, vinte, vinte e quatro, cinquenta, sessenta anos. Vocês querem viver, e têm motivos para viver, e devem extrair essa raiz má que se apodera do vosso jardim. Devem acreditar que melhores dias virão, mas que a viagem é difícil. O que vos dava prazer voltará a ser prazeroso. O prometido remédio custa, é amargo, há muito a ultrapassar – vão conhecer os limites da vossa mente e do vosso corpo – antes de começarem a melhorar.
Sobretudo, aproveitem este teste para saber quem tem a sensibilidade de vos compreender (ou tentar) e de vos amar seja como for. Agarrem-se a quem ficou, porque esses são os que não devem deixar ir a lado algum.
E, por favor, não tenham vergonha de falar. Falem com os vossos amigos, falem com os vossos familiares, façam entender-se. Exteriorizem o que pensam, mesmo o que vos pareça mais absurdo. Trabalhem sobre isso. Quando puderem não pensar, não pensem. Descansem. Contemplem tectos, dêem-se tempo. Se ficar em casa é o vosso descanso, fiquem. Se o vosso local de trabalho é o vosso refúgio, mantenham essa rotina intocada para não se sentirem completamente desligados de tudo. Um pé na sociedade, um pé na rotina de uma pessoa “comum”, podem ser um gancho para a cura.
Procurem o especialista correcto. Nessa altura, tudo o que importa é que alguém consiga compreender-nos, não nos julgue fracos, nem desistentes, porque só nós sabemos tudo aquilo pelo qual lutamos e o nosso rosto não é mais do que a cara da derrota.
Um dia, prometo-vos, podem voltar a exibir os vossos sorrisos de triunfo. Um dia, isto sou capaz de jurar, regressarão das cinzas, passarinhos feridos, desajeitados, mas acabarão por abrir as asas e por voltar a voar por vocês próprios.

É só uma fase. Não tem nada de vergonhoso nem de definitivo. 
A mamã pensou que nunca mais voltasse a sorrir… e é ver-me de dentuça arreganhada.

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One thought on “Carta aos meus filhos #62

  1. Cara Célia, parabéns pelo seu testemunho. É uma voz de esperança para os que padecem uma depressão e um exemplo de coragem para os que bem sabem o que é atravessar as fases deste estado.
    Não é fácil descrever algo tão marcante com a objetividade que a Célia empregou. Também por isso o meu reconhecimento.
    Das suas palavras gostaria ainda de destacar uma qualidade (talvez a melhor arma para combater uma depressão), a gratidão.
    Um bem haja e continue a deleitar os seus leitores (nos quais me incluo) com o seu talento.
    Beijinhos,
    AT

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