Carta aos meus filhos #66

A mamã fez vinte e cinco anos.

Tem terror do tempo. Costumava ler livros sobre heroínas sempre mais velhas do que ela própria e agora dá-se conta de que se referem à minha faixa etária como a das solteironas. Não à luz do século XXI, mas à luz dos romances históricos que tanto estimo. A mamã viajou sozinha para Évora, agradecida por algum tempo a sós consigo mesma. Sabem o que a mamã fez? Dormiu. Escreveu três páginas de um romance e dormiu. Deu umas braçadas na piscina e dormiu. Viu a novela com um olho aberto e outro fechado. Depois dormiu.
A mamã começou a experienciar tristeza na dose em que as pessoas normais a sentem. Não desesperante, não angustiante, mas ainda assim tristeza.
A mamã agora dobra a toalha depois do banho. Faz a cama de manhã. Vai às compras e sabe o sítio do azeite nos supermercados.
A biologia, essa velhaca que não se adapta aos tempos modernos, grita-me que seja mãe. Sentada no restaurante “a Baiúca”, em Évora, oiço-a gritar.
Mando-a calar-se. Ainda agora me emancipei, ainda nem sei quem é o homem da minha vida… nem quem amo, nem quem deixei de amar…
A mamã sente-se com o peso de mil anos nos ombros.
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