Carta aos meus filhos #84

24/07/2015

A mamã odeia o McDonald’s, mas o que é verdade é que acaba sempre por lá ir. Talvez tenha perdido a capacidade de me reinventar, pois deixo sempre que o mesmo me surpreenda:
Os velhinhos que falam alto, porque estão ambos surdos, perante um tabuleiro com batatas fritas e um refrigerante, que dividem. O marido que se oferece para despejar o tabuleiro no final, este é do tempo dos cavalheiros, e a mulher que, a custo, o segue em passos incertos para garantir que não lhe cai nada.
A quantidade de crianças trazidas pelos pais e pelos avós, a engolir estas batatas rançosas e estes hambúrgueres cujo pão está ensopado em açúcar. E o meu resmungo, entredentes, devia ser proibido deixar entrar crianças aqui… Se fossem meus filhos! E as mães para o filho, lambuzado de ketchup, se não acabares o hambúrguer não há gelado! E eu, ácida, melhor para ele.
Levo à boca mais uma colher do gelado que derrete, enquanto recordo também o Pingo Doce, as filas intermináveis do Pingo Doce. À minha frente, um rapaz de oito ou nove anos sorve o conteúdo de uma lata enorme de “Monster” nas costas da mãe. Depois pula, trepa o separador metálico das duas filas e a mãe sibila, num português incorrecto um desce daí pá, estás incomodar pessoas, só para fingir que tem mão nele. E o miúdo crava em mim os olhões dilatados de um verde surreal, por entre as sardas e sob a pala do boné. De rosto corado, dedica-me um sorriso certeiro, como se me ouvisse os pensamentos: esta mãe deixa-o beber um energético enquanto reclama da sua inabilidade para ficar quieto.
E, na caixa ao lado, duas velhas a passar à frente de todos, de batom e permanente de sábado passado: obrigadinha, é só mesmo o pão. E eu, mal-humorada, com tanta padaria…
E a senhora da caixa para a velha: Não se vá embora, então não tenho que lhe dar cinco euros de troco? E a velha dá um golpe seco na própria testa (a franja não mexe) e tartamudeia um ah pois é! E eu a pensar estas velhas, são um perigo para elas próprias. E a velha pega nos cinco euros e já vai junto ao segurança quando a mulher da caixa, exasperada, exausta, porque é isto todos os dias: Olhe! Não fuja, então não deixou aqui esta nota de dez euros? E a velha olha para trás: Eu? E bate na testa (a franja não mexe) – Ah! (revira o porta-moedas) É minha, é!
E eu a pensar estas velhas, são um perigo para elas próprias.

A mamã escreve isto enquanto come um gelado no McDonald’s, sabendo que envelhece a cada instante.
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