Carta aos meus filhos #86

A mãe morre de amores pelo vosso pai. Pela barba do vosso pai. Pelas mãos permanentemente suadas. Pela voz meio áspera, pelo modo como fecha os olhos quando canta e lhe nasce uma veia na garganta. A mãe adora a cor do cabelo do vosso pai, e uma vez jura que lhe viu um rasgo de mel nas íris castanhas. E o desenho da boca do vosso pai? Juro que nem eu teria sido capaz de desenhar uma harmonia mais perfeita. É tão grande, o vosso pai. Não cabe no peito da mamã nem no universo ao nosso redor. A mamã pôs-se a ouvir uma música que a recordou dele e dos pelos negros da sua barba. O coração incha, como que mergulhado num melaço impossível de remover. As gavetas abrem-se e eu amo-o. O mundo acaba e eu amo-o. Porque é que a vida nos condenou a menos? Porque é que o vosso pai não pode ser vosso pai? Era este homem que queria que vos carregasse às cavalitas e vos desse castigos, e vos ensinasse boas maneiras, e vos inscrevesse nas actividades extra-curriculares, e vos protegesse da minha fúria com um sorriso e um piscar de olhos nas minhas costas. A mamã ama o vosso pai mais do que à própria vida (não importa que tenha pouco amor à própria vida, eu amo o vosso pai até ao fim da galáxia e de volta). 
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