Carta aos meus Filhos #89


A mamã sentiu um peso hoje no peito. Uma espécie de ansiedade mascarada de angústia, ou vice-versa, não estou certa. Tudo porque, de repente, me chamam “senhora Célia”? Quem sou eu para considerar que uma pessoa é mais digna de amor do que outra, e de que espécie de altruísmo sou feito se me considero tão digna do mesmo? O que observo é que as pessoas ao meu redor parecem enamoradas de pouco e de fácil.  Mas um fácil que lhes sai caro, como se o que realmente os atrai fossem os defeitos e não as virtudes de cada um. Poderá isto ser o amor sacrificial de que há tanto oiço falar? Será que nos sentirmos melhor se pensarmos “está crivado de imperfeições, mas amo-o?”. Será falta de autoestima? É que vejo pessoas a pisar e a repisar outras, a baterem-lhes com a porta na cara, a torcerem-lhes o nariz, a dizerem as maiores atrocidades, e no fim o amor da vítima emerge intacto. Será o “quanto mais me bates mais eu gosto de ti?”. Será a humanidade no seu estado mais puro – um reconhecimento mútuo das falhas?

Quando vai chegar a vez de a senhora Célia ser feliz? A mamã fez vinte e seis anos. Hoje foi a uma papelaria e a dona pediu a um dos funcionários: “Atende aí essa senhora, por favor”. Foi como se pusessem um espelho de corpo inteiro diante de mim. Será do cabelo? Da estatura? Do peso? Da roupa? Da falta de maquilhagem? Estou habituada a que me chamem de menina, o meu coração divaga despreparado para estes golpes…

Sentada nos correios à espera da minha vez de despachar os livros, foi como se o peso do mundo se abatesse sobre os meus ombros. Tenho de me ir embora. Antes de pensar que tudo acabará assim, tenho de fazer as malas e partir. Preciso de alguém de fora, alguém que nunca me conhecerá tão bem quanto alguns me conhecem, mas que veja algo de exótico em mim. Alguém com quem partilhar os benefícios da cozinha mediterrânica e com quem discutir religião e ciência. Alguém que veja os prós e os contras de viver no meu país, e que reaja bem aos que eu aponte acerca do seu.

A senhora Célia sentiu que um sono malévolo se apoderava dela. Quis fechar os olhos, depois entendi que me custava respirar e que ganhei aversão à tristeza. O facto de ter padecido de uma doença que se traduz em tristeza e desespero (ou apatia, em estados mais graves) profunda, faz com que entre em pânico a qualquer aproximação de melancolia. Rejeito-a com todas as células do meu sentir, mas custa-me a fingir que não vejo o fantasma.

Não sei se aguento ver-me de peito despedaçado outra vez, por isso espero que a respiração se regularize o quanto antes e que o pior aconteça também o mais cedo possível.

Quero começar já a terapia inerente ao luto.
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