Carta aos meus filhos #90

Quando o amor depende do número de gatos
Ontem à noite, a minha avó de 83 anos que está de visita a Portugal disse-me:
– Tens gatos??? Livra-te dos gatos. Dão-te cabo da casa, destroem-te o sofá e os cortinados. Mete-os mas é na rua *força de expressão*.
Ao que outro alguém, que também me é muito próximo, reforçou:
– Tens noção que com gatos em casa nenhum homem te quer?
E foi ao ouvir ecoar o velho cliché de que os homens temem a presença dos gatos (não encontro outro modo de colocá-lo), que comecei a remoer neste ponto.
Com que então, um homem que me conheça (uma mulher de 26 anos sem um nariz demasiado grande, licenciada, com trabalho efectivo, casa própria, três livros publicados e a falar, além da sua língua nativa, inglês, italiano e francês) vai pôr travões ao amor porque tenho dois gatos?
A sério que existe a possibilidade de um dia alguém me dizer “eu ou os gatos?”. 
De que modo incomodam, afinal, os gatos? Porque andam por cima de tudo? Sinceramente acho mais nocivo um homem com consola em casa. Porque os gatos ainda se sentam no nosso colo e nos fazem companhia, estejamos com quem estivermos, agora a consola só serve para o chamado “sai da frente!”.
Porque é que as mulheres que traem, enganam, mandam os homens à merda e faltam aos funerais das suas mães podem vir a ser felizes e eu não, porque tenho gatos? Porque é que as que amarram os cães no poste do quintal (mas ao menos têm cães, não gatos) acabarão por encontrar “o amor” e eu não?
E que “amor” é esse que impõe condições? “Olha, se não te livrares dos gatos não esperes que viva contigo”. “Olha, se não trancares os gatos, não esperes que vá à tua casa”. Ou elas para eles: “Olha, se não limpares os pêlos do lavatório, é melhor ires morar sozinho”, “Olha, se não puseres qualquer coisa que disfarce o teu cheiro a chulé nos sapatos, é melhor ires embora”. “Olha, se não aprenderes a mudar lâmpadas, não me serves para nada”. “Olha, se já só vais lá com Viagra, podes pôr-te a andar”.
Eu sei que o nosso século é mesquinho e cheio de manhas e modas, mas porque é que é aceitável que se tenha um bull dog francês (e atenção que gosto de cães), com mau hálito, força bruta e poder destruidor, que rói, mija e ladra, e os gatos, por causa das unhas e dos pêlos, já não o são? Os cães não largam pêlos? Os cães são melhores amigos do que os gatos? Depende da noção de amizade. Acredito que uma pessoa reservada possa ser tão boa amiga quanto uma que atravessa o bar de dentes arreganhados para nos abraçar.
Tenham tino. Há um limite para a sanidade que talvez se contabilize pelo número de gatos; como em tudo na vida é preciso conta e medida. Mas não me venham dizer que sou solteira porque tenho gatos. Estou solteira, sim, porque não aceito um amor poucochinho. Nem um amor que imponha condições. Ou é tudo, ou sou muito feliz no “nada”.

E qualquer homem que pudesse abrir a boca para me meter no lugar-comum da mulher solteira com gatos, pode muito bem ir dar uma volta ao bilhar grande. É evidente que sofre de uma miopia grave.

Parece que só me sobram os homens medíocres. Um Julio Cortázar, um Salvador Dalí, um Picasso ou um Matisse. Estou feita…

 
 

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6 thoughts on “Carta aos meus filhos #90

  1. Juro que não conhecia essa ideia de que os homens temem uma mulher com gatos. Mas a mim também não me interessa o homem-tipo, por isso estou safa. Vacilei ali na parte de “sem um nariz demasiado grande”, é um requisito que definitivamente não cumpro e que me chateia MUITO. Oh well, cada um com as suas cruzes.

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  2. Adorei o teu comentário… só queria dizer que tenho defeitos e virtudes como todos, e que a ideia de me “ostracizarem” por ter gatos é absurda 🙂 Para o homem certo o nariz ou os gatos é o último dos pormenores importantes.

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  3. Como vim parar aqui não custa comentar.

    Post engraçado. E “…lugar-comum da mulher solteira com gatos…” realmente é muito hilário! O que mais se vê na internet são mulheres numa certa idade dizendo que são solteiras, bem resolvidas e felizes sozinhas, mas inexplicavelmente agem no sentido contrário. Gatos são legais.

    Já investiguei este tema, com alguns homens acontece o mesmo, geralmente estes homens são muito sonhadores e colecionam amores mal resolvidos, quase aconteceu comigo. Particularmente no meu caso conheci uma garota assim, fiquei fascinado com ela, mas percebi algo nela de estranho, uma carência que achei incompatível com o perfil de beleza e cultura dela, também percebi que haveria uma competição de egos entre nós, percebi também que o homem que eu era e que num primeiro momento ela gostou teria que mudar, normal, as mulheres tendem a agir assim, o que gerou conflito é que eu percebi que iria querer que algo nela mudasse, o que não seria normal pois, o homem quer que a mulher não mude. Poderia ter apostado, mas minha personalidade poderia sofrer um revés, refletindo conclui que minha personalidade é grande parte do meu sucesso com as mulheres que conheci e se perdesse seria mudado para sempre, melhor não! Ainda hoje não entendo de onde veio a força para me fazer parti; vejo vários homens que desistem de mulheres com estas características, geralmente os caras bacanas que agem por instinto, como tenho mania de filósofo quis investigar este instinto que também agiu sobre mim. Em parte estas mulheres estão certas sobre o homem ter “medo” de mulher independente, porém os cafajestes não tem este medo… é aqui que a coisa começa a ficar muito, mas muito interessante, o cafajeste é como um artista falsário que pinta quadros iguais aos originais… então depois de anos refletindo eu entendi o porque deste fenômeno, por determinados homens inexplicavelmente fogem de mulheres “independentes” se estes homens são legais, a coisa não é tão simplista quando o “medo”… daria para montar uma tese antropológica que deixaria Darwin interessado.

    Você escreve bem, sucesso!

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