Carta aos meus filhos #93

A mamã está a aprender a viver sem amor.

Hoje Portugal foi classificado para a final do Euro 2016. Passaram doze anos desde que nos vimos em tal posição. Folheei o meu último livro publicado e encontrei um bilhete do Santiago Bernabeu, fevereiro de 2014. Foi aí que testemunhei o meu último relance de amor. Mas mais puro ainda, em Novembro do ano anterior.
A mamã, de camisa de dormir de algodão, estendida ao lado dele. Tinha-lhe oferecido o meu segundo livro, mesmo sabendo que ele não teria como o ler. Como ele era um homem solene, especial, demorou muito sentado na beira da cama, com ele entre os dedos, a estudar-lhe o peso, a capa, e a tentar deslindar o significado de algumas das palavras na sinopse. Afinal, os nossos antepassados falavam Latim.
Depois, respirando fundo, agradeceu. Estendemo-nos sobre a colcha, eu a escrever-lhe a dedicatória interminável que me pediu – quem me dera poder ler agora essas palavras, só para me dar conta de que também os afectos vêm e passam, e de que o que brotou de mim tão forte e se pôs sem resistência poderá voltar a acontecer quanto a outros homens solenes.
Mas falava-vos de amor. Se a mamã pudesse descrever o amor num momento – e mesmo sendo este um amor de momento, de circunstância, que serviu de bálsamo a um outro maior – a mamã pegaria nesse serão, porque outros semelhantes não os houve.
Deitada de barriga, acedi a ler-lhe um excerto do livro na língua em que foi escrito. Deitado de costas, ele ouvia o português a ecoar nas paredes de um quarto em silêncio, numa cidade em silêncio, e ostentava um sorriso na suavidade dos lábios. Ouvia, não entendia, mas ainda assim sorria. E a mamã leu um parágrafo, dois, uma página, duas, e ele não tirava os olhos dessas palavras desconhecidas, assim como não tirava o sorriso de condescendência do semblante, e a mamã daria tudo para ser assim feliz de novo.
Há quanto tempo um beijo não significa alguma coisa? Um beijo pode ser outro modo de fazer ecoar-se a alma nos outros.
E hoje falou-se de beijos.
E de tudo o que me dói, isso é o que me dói mais.
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