Carta aos meus filhos #94

Meus queridos,
Uma má notícia causou um tremor de terra sem precedentes na vida da mamã. Nunca é bom sinal ser-se chamado ao oitavo piso do Hospital Garcia de Orta, mas é mais difícil ainda quando se vai acompanhar alguém que se ama e a quem se deve tanto.
O médico estava na posse dos inúmeros exames que a minha avó realizou no último mês, e embora não tivéssemos grandes ilusões quanto às notícias que íamos receber, as mesmas poderiam ser más ou péssimas. Como a vida se tem rido de nós nos últimos tempos, o médico pareceu entusiasmado e anunciou que tinha uma notícia boa e uma má para nos dar. A boa era que as várias amostras da biopsia analisadas até agora deram negativo para cancro. A má era que isso significa que a biopsia tem de ser repetida. Há esperança, disse.
Entretanto perguntou-nos porque faltámos ao exame da medicina nuclear no Champalimaud, ao que informámos que comparecemos, segunda-feira passada conforme combinado. O médico descobre então esse novo exame no computador, e pede alguns minutos para o ler.
Ao primeiro suspiro a verdade atingiu-nos. Quando a explicação veio, a mamã sentiu que pela primeira vez em anos perdeu o controlo sobre a expressão, e o que se seguiu foi uma luta interior para manter a avó calma, enquanto eu própria entrava em pânico e o mascarava de boa-disposição.
O médico disse que a senhora que me ofereceu o livro da Branca de Neve, quando eu ainda nem sabia ler, tem esse horror espalhado não só no pulmão direito, como se suspeitava, como pelos ossos da caixa torácica. Isso explica as dores. Quadros oncológicos com dores não é bom sinal, e aí informou-nos que o estado é avançado.
Como a mamã nunca tinha dedicado realmente dois minutos a pensar na doença do século, acabou por fazer algumas perguntas disparatadas. A pior de todas foi “E hipóteses de cura?”. E depois lembrei-me que estávamos a falar de cancro. O inominável. A doença que as pessoas têm vergonha de admitir que têm, como se fosse contagiosa ou um castigo divino por alguma falta que tenhamos cometido. A doença que causa arrepios quando é proferida numa divisão, a mesma que tem tantos eufemismos e que nenhum deles é menos assustador.
O médico prosseguiu com as explicações sobre as terapias à nossa disposição, e como eu devia parecer-lhe um tanto animada e sorridente, olhou-me nos olhos e frisou que estamos a falar de cuidados paliativos. A terra voltou a tremer, e a avó apertou-me a mão com força. Ela não entende muito do que se estava a dizer, mas entendeu que a morte está a bater-lhe à porta como um temporal, e que tudo o que podemos fazer é usar os braços para impedir que entre de rompante, mas as forças acabarão por faltar e ela há-de entrar. Tudo o que se faça agora é para adiar esse momento o mais possível, e para que a avó viva descansada, feliz, se possível, e cumpra a sua missão aqui na Terra, pela qual tem dado tudo de si.
Quando eu era pequena, tinha ataques de pânico ao imaginar que a avó desaparecia. Talvez seja o que as crianças sentem em relação à mãe numa certa idade, quando as coisas nos começam a ser preciosas e a mãe é-o mais do que tudo (sem querer diminuir os pais). Eu sentia que se a avó morresse eu ficaria desamparada. O eixo da minha vida girava em função dela e das rotinas dela. Desde o ir às compras de manhã (a avó chama “lugar” à mercearia), até ao recostar-se nas almofadas a ver a novela da noite e a comentar a história, como se houvesse uma chispa de realismo naquelas ficções. Vinte anos depois sinto o mesmo. Não tenho sido boa o suficiente para ela. Não sou paciente o suficiente com ela. E que egoísta sou ainda, que queria que ela me desse mais, quando agora é a minha vez de dar a ela. Queria que me desse colo e que um dia vos desse colo. Agora já não consigo sentar-me no colo da avó, ela está demasiado magra para suportar o meu peso, mas tempos houve em que o seu colo era o mundo, e agora imagino-a como a um Deus no tímpano de uma catedral, e eu redonda, enrolada em mim mesma, sobre os seus joelhos.
Quem sabe a avó pudesse ficar com vocês às vezes, uma manhã ou uma tarde, e fazer-vos água de arroz ou xarope de cenoura, conforme a maleita que vos atingisse. Queria ouvi-la a dizer-me para não vos deixar andar descalços, ou usar as expressões só dela, como “as crianças andam todas desgargaladas”, o que significa que não vos protegi o pescoço em dias de frio. E chamar-vos-ia de “o menino” ou “a menina”, porque ela é assim, e eu não sou. Hei de chamar-vos “o miúdo” ou “a miúda”, mas vocês haviam de precisar dessa outra voz na vossa vida. Ou a avó diria para irmos “pedir ao Brotas da farmácia”, o que significa que não há meio de poder satisfazer um pedido, ou tantas outras que agora não me lembro, porque não absorvi tudo o que podia enquanto podia. 
Quem me dera poder ouvir as suas observações sobre os vossos traços, sejam eles quais forem. Se ela não vos conhecer, só os céus sabem a espécie de coisas espirituosas que ficam por dizer. Segundo a avó, eu era “rabina”, “cachondinha da barreira” e “enxertada em corno de cabra”.
Avó, espero mesmo que venhas a ser a primeira pessoa a pegar nos meus filhos ao colo, e a ensinar-me o que fazer com os dentes deles quando começarem a romper, e como vesti-los, como alimentá-los, como aliviá-los da febre. Se um dia for abençoada com a graça de ter um filho, saia ele do meu corpo ou da minha vontade de ser mãe, gostava tanto de saber o que vais dizer!… Se sair do meu corpo, és tu a mulher com quem gostaria de comentar as diferenças nele, e são as tuas histórias sobre o mesmo momento que quero escutar. Gostava de saber a tua opinião sobre o nome deles, os tais que há tantos anos tenho em mente e que talvez nunca venhas a proferir, e ver o amor atravessar gerações de ti para eles… Lembro-me do modo como sorrias para a Ana quando ela era bebé, e de como ela, como eu, se apaixonou por ti acima de qualquer outra pessoa até chegar à idade em que se começa a distribuir os afectos por estranhos. Se um dia tiver a sorte de ser mãe, gostaria que o meu filho saísse do meu seio para o teu peito, antes de visitar o abraço de qualquer outra pessoa. Os teus braços, agora tão frágeis, foram em tempos os mais robustos que conheci. Se não fores tu, quem vai falar das pessoas que ficaram para trás, e que enterraste, e que ainda vivem nos nossos que estão por vir? Que outra pessoa poderá fazer isso por mim?
Tudo isto significa que nos tempos vindouros terei de estar a teu lado, dar-te todos os beijos que te recusei durante anos, porque nunca soube amar com doçura e sempre houve um quê de bicho em mim que te feria. Tenho de deixar-te ver as novelas portuguesas sem repetir que não se aprende nada com aquilo, porque o que importa é que vão distrair-te do que se está a passar.
Perdoa se continuo à espera que me valhas; como disse, é hora de eu te valer a ti. E, respondendo à tua pergunta de quando tudo isto começou, quando o teu instinto te disse que as pessoas só partem quando já não são necessárias e me olhaste angustiada: “Eu já não faço falta, Célia?”.
Fazes, avó. Fazes muita falta – por isso vamos acreditar.

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