Carta aos meus filhos #95

Meus queridos,

Hoje a tia Ana contou-me que teve de ajudar a avó a tomar banho. Há alguns dias, eu própria me havia oferecido, porque ela disse que tem dificuldades a entrar e a sair da banheira, e a chegar às costas também. A avó recusou a minha ajuda, porque ainda se lembra de quando eu era pequena e tão curiosa e apegada a ela que não queria separar-me durante os quinze minutos que lhe durassem o banho. Plantava-me do outro lado da porta e tentava espreitar, mas ela cedo se apercebeu dos meus intentos e tapava a fechadura. Sob o vestido da avó, nota-se a deformação da omoplata, que parece projectar-se para fora. Como poderíamos saber? A tia Ana diz que acha que quando a avó for “velhinha” vai ter uma corcunda, mas só do lado direito. Querida Ana, não podemos dizer-lhe que nos escaparam todos os sinais. A magreza, as dores, a perda de energia nos últimos tempos. Há dois anos, quando comprei a casa, a avó ajudou-me a lavar todas as janelas. Há um ano, quando demorava três horas contadas a limpá-la ao sábado, a avó insistia em ajudar-me e tratava do meu quarto com celeridade. Há seis meses a avó dizia que não conseguia ajudar, pedia um perdão indevido e dizia que ao menos levava o saco da roupa para lavar na sua máquina, posto que não comprei ainda uma. Agora a avó, que vinha todos os dias à minha casa, só vem duas vezes por semana. O agora escapa-se por entre os dedos, porque esta demana a avó só veio uma, por lhe custar a caminhar, e pede à tia Ana que leve o saco com os meus lençóis, porque tem dores se tiver de suportar o peso.

O tempo está a passar depressa demais, mas é verão e isso cria a ilusão de que está tudo bem. As pessoas estão de férias, vão para a praia, sorriem e combinam jantares. Uma pessoa que me vê todos os dias, e que já me viu pior, fez questão de me dizer, há dias, que agora se nota mesmo que ando feliz e sem preocupações. Agarram-se às pequenas desgraças do quotidiano para intervir, para sentir que fazem algo pelos outros e que não vivem só de si e para si. Mas a verdade é que é difícil imaginar uma reviravolta destas, e por isso a mamã tem sido deixada mais ou menos de lado nas preocupações de quem me rodeia. Haverá quem diga que o faz por feitio, outros porque imaginaram que eu preferiria ficar sozinha com a dor e a dimensão do que se aproxima. Outros, talvez quem realmente importe, simplesmente não sabe como lidar com isso, como assistir ao sofrimento ao meu lado, e receie evocá-lo. Acreditem: eu não quero assistir à desolação que se aproxima para quem me é mais querido, e não haverá escolha. De qualquer modo, o que importa é que é nas impiedades da vida que fazemos as contas ao que temos, e quem sabe a mamã andasse a calcular tudo mal há demasiado tempo. Serve para que saibamos quem está ao nosso lado, quem sua e chora por nós, e quem só o faz pelas aparências, porque de certo modo é esperado que se importe. Por isso, meus queridos, preparem-se que a crueldade de algumas verdades vem nos momentos em que estamos de joelhos, e sabermos assimilá-las aí é de valor. Em boa verdade, prefiro não pensar no assunto que magoa, mas suponho que haja outros meios de estarmos lá quando somos precisos.

A mamã tem um plano, e esse plano é uma tábua de sanidade. Tomei as decisões certas na vida, e isso garante-me que estou onde deveria estar. Em breve tudo mudará e a mamã sabe o que fazer. O único obstáculo será o de ver a avó a sofrer, porque para a dor dos que amo não estou preparada. Não tinha pensado que o fim se aproximasse com as botas das sete léguas, nem que acarretasse tanta agonia.

Hoje vi uma fotografia de uma criança na internet. É a página pessoal de uma mãe italiana e trata-se de uma menina com aspecto de adulta e ares de traquina. Uma combinação que mexeu com o meu coração e que me lembrou que muitas coisas boas estão por vir. A mamã acredita, mas o instinto e a intuição apertam-me as entranhas neste momento, e de certo modo assistir ao dia-a-dia despreocupado dos outros é-me demasiado penoso.

A mamã nasceu para chegar onde quiser, porque até hoje nem as pernas nem as mãos e nem a cabeça me falharam quando empreendi uma viagem. Os recursos sempre foram escassos, mas a vontade sempre me deu uma maior envergadura de asas, e o universo sabe que não me acobardo perante desafios. E a mamã quer cruzar na vida o caminho que a levará a uma praia de seixos escuros, com relevos de um verde-musgo ao longe, e haverá uma casinha com telhado de duas águas, uma horta, alguns gatos em suprema liberdade e segurança e um cão. E, algures dentro dessas paredes, os vossos risos e os risos do vosso pai. E o vosso pai é um homem grande, um homem que me merece e que eu mereço, e virá quando eu souber o meu valor e aquilo a que preciso de abdicar para chegar lá.

A vida e a morte caminham lado a lado e às vezes entrelaçam as mãos, e a mamã tem de seguir a estrada sem fraquejar. Não desespero, não vacilo. Tudo passa.

Até já,
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