Carta aos meus filhos #97

Meus queridos,
Não se vivem tempos fáceis, mas a mamã está tranquila. Entre outras coisas, tranquiliza-me o facto de poder olhar-me no rosto com a consciência de que nunca, em dia algum da minha vida, me desviei do meu caminho para desvirtuar o de outro, ou para lhe causar dissabor. Casualidades acontecem, mas a intenção forja a alma, e a da mamã está lavada. Experimento uma paz e uma libertação por que há muito ansiava, e chegou-me pelos caminhos tortuosos que a vida toma para nos conduzir para aquilo que temos de ser.
Não entendia ao certo a sensação que se apoderou de mim nas últimas semanas, durante as quais trabalhei tanto, enquanto o mundo se divertia. Mas não advém mal ao mundo que o mesmo se divirta, porém a mãe vê as pessoas arrancarem os braços a outros e usarem-nos para coçar as costas, e isso, tempos houve, corroía-me as entranhas.
Esta mulher que não acredita em deus nem na canonização de super stars tem vivido um estado de lucidez que espero que não tenha fim. Sinto-me quase religiosa, e a religião é a minha, pelo que não cometo atentados contra os meus sermões. Estendi-me sob o Dark Sky e analisei os movimentos ao meu redor. A paz inundou-me e criei um espaço dentro de mim que servirá de refúgio a todos os desafios que se avizinhem. Quando vejo uma estrela cadente, a minha ideia é uma apenas; que ela não sofra.
Todo o resto é um circo para o qual a mamã não quis comprar bilhete. O circo está na cidade e sou obrigada a ouvir o riso das crianças. À noite, as luzes do circo cruzam o céu e a mamã tem de se lembrar que os palhaços e os figurantes são representados por pessoas que não costumavam usar máscara. Mas há pessoas que cedem às oportunidades, e por isso trouxeram a máscara para a cabeceira da cama, e durante anos convenceram-se de que era um acto irreflectido, sem consequências, jamais a usariam. Mas ela estava lá, e, quando o instante se dá, é só cobrir o rosto e saltar para o palco. A mamã nunca chegou a comprar nenhuma máscara, por isso é pouco provável que venha a usar uma. 
Se a mamã pensar bem, o que a invade é uma espécie de ternura, quase compaixão. A mamã sabe que uma pessoa toma muitas formas sob o efeito da dor – e a dor pode ser muita coisa, pode ser até a incapacidade de darmos um passo e dirigirmo-nos ao sítio no qual sabemos que podemos ir buscar ajuda – mas nem todos os desconfortos justificam todas as condutas, e o que define uma pessoa é a capacidade de recusar morfina quando se propôs a aguentar. Mas a mamã não quis uma vida de faz de conta, nunca mentiu a si nem a ninguém a respeito das coisas do coração, nem quis as coisas por querer, nem enfrentou dilemas morais. 

A mãe acredita que algumas coisas são sagradas. Uma delas é o “amigo”. Não é deus, não é santo isto, não é rosário aquilo. Isso é comprar-se indulgências, uma vez mais mascarar-se de benevolente. Para a mamã, a sacro-santidade está apenas sitiada nesse substantivo. E a mamã pode até perdoar as ofensas que lhe façam – e aqui volta a recordar-se que não é católica, mas às vezes apropria-se do palrar da classe -, mas não consegue conceber faltas de carácter. Uma falha de carácter é uma luz muito intensa num rosto. Num qualquer rosto; o defeito surge e a partir daí não dá para fingir que não existe. Quando isso acontece, a mamã faz cálculos de cabeça e entende que o universo é demasiado pequeno para tanta hipocrisia. Constrói um muro e recusa-se a olhar para as trincheiras. Porém tenho de me recordar que criaturas há que caminham sobre a terra sem um único elo sagrado, e apenas me resta lamentar que os valores do espírito nunca as tenham bafejado, e que assim sendo padeçam das fraquezas dos animais.
Vivemos uma época em que, se uma pessoa dedicar uma década a outra, é acusada de ser doente mental e obcecada. Se outra pessoa sofrer um desfile de reveses do coração é considerada sana, livre, desejável, moderna (e ser-se moderno é sinónimo de algo positivo). Uma pessoa tem de valer-se de toda a sanidade que encontre para não enlouquecer, mas o importante é que se saiba que se está dentro de uma caverna, que há um mundo lá fora, e que algumas sombras sabem que são sombras, enquanto outras se julgam luz. Enquanto se observa as sombras a dançar na parede da caverna, reflecte-se sobre o infortúnio que é o não se saber que se é sombra. O importante é sabermos, a todo o instante, que tudo passa e o efémero passa mais veloz ainda.
De repente ocorreu-me como explicar…
Somos todos uma grande árvore de fruta. Pode ser uma pereira; em termos estéticos somos uma pereira. Mais pesados na base que no topo; isto é, mais densos no corpo que no espírito. Crescemos todos nas mesmas circunstâncias e partimos todos do mesmo útero, se bem que uns com mais acesso ao sol do que outros, sendo a água e a seiva as mesmas. Penso que sejam os elementos o que afecta mais a uns do que a outros, e de repente veio uma ventania sem igual. Aqueles a quem o sol estival estonteia, foram os primeiros a ser postos à prova. Caem por terra as promessas e os pequenos sacrifícios da irmandade.
A tempestade sacudiu a pereira e algumas pêras caíram, amassadas, no húmus. Essas não tinham escolha; a natureza delas era débil. Não são essas as culpadas pelo enfraquecimento da pereira. A árvore, na sua consciência geral, sabia que seriam as primeiras a entaramelar-se a respeito da própria existência, e o equilíbrio fora criado a despeito dessa falha. É certo que aquelas pêras seriam derrubadas ao primeiro golpe dos elementos.Como as abelhas, e as abelhas têm ferrões, pelo que o universo não pasma quando o usam. 
Outras continuaram seguras, mas não conseguiam desviar a vista do que se passava junto ao calor da terra, junto à azáfama das folhas ressecadas. Começaram a sentir-se pesadas no seu pender dos ramos. As outras pareciam-lhes mais livres e sem âncora, e quem sabe debaixo se visse melhor o céu e a noite estrelada.

À segunda rabanada caíram mais algumas, porque haviam afrouxado o abraço ao seu sustento, porque um momento de descuido as apanhou e a gravidade não funciona no sentido inverso, por muito que a vontade almeje inverter o curso do movimento.

As que se mantinham nos ramos começaram a sentir-se isoladas, desejaram poder juntar-se de novo às outras, reencontrá-las noutras circunstâncias; então soltaram-se da Mãe, soltaram-se da Terra, soltaram-se do que nelas era divino e sagrado e jogaram-se no nada. Abandonaram aquilo que haviam sido criadas para ser, e tudo o que fora promissor nelas até aí. Aterraram por entre insectos e outras coisas rastejantes, e esse é agora o seu novo habitat

A mamã espera que as pêras que ficaram na pereira se segurem. Espera que não se deixem cair, que não cobicem a leveza da descida. Não se sintam sós. São tão poucas, e tão preciosas… Não se iludam sobre a possibilidade de, ao cair, deixarem de dever algo à árvore. Não pereçam; na queda começa a decomposição. Uma pêra que se soltou da árvore jamais será pereira de novo. 

Não se deixem impressionar pelo facto de a ventania ter levado frutos tão robustos. Basta um dedo a acariciar o volante para a esquerda, quando se fecha os olhos, e o carro desfaz-se contra o rail da auto-estrada. 
É assim que a mamã vê a luxúria travestida de amor, e a leviandade travestida de liberdade. E as pessoas travestidas de seguras e auto-conscientes, quando estão é cegas pelos faróis que se avizinham, em sentido contrário, enquanto deambulam na beira do caminho. E, quando o feixe incide sobre as suas cabeças, e todos os olhos se voltam, chamam à cena aquilo que aos outros soa puro, para com isso expiar a sua fealdade.

O vento aquieta sempre. E quando o vento soprar tranquilo, e o sol voltar a ser ameno, e a folhagem acariciar a fruta no seu resfolegar, a árvore recupera o esplendor e o resto já foi varrido pelas estações. E então tenho de me lembrar que não sou cristã. Sou uma mulher sem deus e sem religião. E a alegoria da árvore torna-se mais perversa ainda.
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