Carta aos meus filhos #98

A mamã estava em paz e agora está confusa…
Entendi que cheguei à faixa dos vinte e seis, quase vinte e sete anos, e ainda há muita mentira por aí. Não percebo como é possível que se minta e se distorça a realidade. Não entendo qual o objectivo, além de aquele de se amassar os sentimentos dos outros. Não percebo qual a gratificação que pode advir de se contar uma mentira e ver a vida do outro desabar por causa de nada. Ou de vê-lo repeti-la e ridicularizar-se. A mamã sente que se afastou, mas afastei-me pouco. Tudo encontra um caminho até mim, e é difícil isolar-me do núcleo e tapar os ouvidos. Mas a verdade é: eu não quero saber. Bastam as inseguranças de cada um, as desconfianças íntimas, para distorcermos a realidade dentro de nós. Quando isso acontece, costumo dirigir-me a quem me causar dúvida e tentar mitigá-la. Ao final de dez anos a colocar dúvidas, as pessoas aborrecem-se e tens de te calar e aprender a viver com elas ou simplesmente tapas os ouvidos e vais morar para debaixo de uma pedra. Tens de viver com a possibilidade de que sejam verdade. E as mentiras que contam não são coisas simples, não é sobre quanto se pagou por um corte de cabelo. São coisas que interpõem pontes entre as pessoas, que estalam o verniz da confiança e que acabam com amizades num estalar de dedos. Mas o que a mamã entendeu, além de tudo, é que o meu próprio desgaste me torna vulnerável. Se não estivesse sempre à espera que uma tragédia se abatesse sobre a minha cabeça (se não saísse sempre da sala antes que os outros saiam e me abandonem), a última mentira não se teria afundado tanto no meu coração. A mamã não entende o que se passa. Não se pode acreditar em nada nem em ninguém, porque as fontes que chegam aos outros também vêm contaminadas. A mamã só queria poder estar longe e não ouvir nem ver nada. Estar com os outros tornou-se penoso; termino os encontros a conhecê-los menos do que antes, porque as versões nunca se concertam e tu não podes, simplesmente, interromper a pessoa a meio do relato do seu jantar e perguntar “ouve lá, disseste mesmo que sou uma cabra mimada?”
Pior, além dos rumores falaciosos, há as mentiras piedosas, as mentiras destrutoras e as mentiras só porque sim. O esforço para se estar no pódio e se ser aceite é quase ridículo de tão empenhado… Porque é tão importante que se tenha alguém ao lado? Que se esteja a viver a vida dos outros (travestida de viver a própria vida)? A mamã está a ver as pessoas que sempre considerou puras a pôr a touca de banho para mergulhar na pocilga. E ainda dizem que não cheira tão mal como pensavam. Temos de aceitar as pessoas como elas são. Certo; mas daí até permitirmos que joguem com a nossa realidade, com a nossa verdade, vai um mundo de princípios. E há o ser chato, o ferver em pouca água, o beber demais, o não dizer uma palavra de conforto quando se sabe que estás na merda, mas depois há o inventar que o teu marido estava fechado no carro com a secretária. Como pode isto ser aceitável? Não se pode confiar num suspiro, num boa noite, num “estás boa?”. A mãe vê pessoas a descobrir mentira atrás de mentira e, ainda assim, a deixarem-se ficar. Porquê? Estaremos tão sozinhos assim que nos submetemos a tudo? Quando foi que os laços tão fortes que nos uniam se enredaram de tal modo que tivémos de cortar tudo à tesourada? É impensável sairmos da selva de cinzento para respirarmos um pouco e repensarmos tudo à luz da distância?
A mamã fumou mais cigarros esta semana do que no ano todo… E a avó está doente, é um atentado contra ela que me refugie na janela a tentar que a nicotina e o alcatrão organizem as ideias que não encontram prateleira nos meus miolos. 
É bom que o amor venha e se derrame sobre a cabeça de todos até nos deixar encharcados, se não as ervas daninhas vão arrancar-nos de vez uns aos outros.

~sometimes you gotta burn some bridges just to create some distance. 
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