Carta aos meus filhos #99

A mamã sente que este capítulo da minha vida está a chegar ao fim de tantas formas…
Está tudo a encaminhar-se para o fim, umas coisas de modo mais literal que outras…
O orgulho tem sido o grande protagonista desta fase. O orgulho e a teimosia, e uma necessidade sobrehumana de me elevar acima de mim mesma e de me encontrar lá em cima. Sabem, não foi intencional mas a mamã perdeu demasiado tempo com becos sem saída. A mamã quis, durante longos anos, ver luzes ao fundo de túneis intermináveis. Neste momento, sentei-me dentro do túnel, arrastei os pés por sobre os carris e acariciei o ferro, cheirei a ferrugem. Chegou a hora de colocar a possibilidade de que talvez o túnel só me leve mais fundo, mais para o escuro, mais para o frio, mais para baixo. E tenho de decidir se volto para trás, para a realidade distante e estéril em que vivia antes da promessa de todo o resto. Estive tanto tempo no escuro que julgava ser capaz de distinguir sombras na penumbra. A mamã conhece os ângulos da ferrovia e a humidade das paredes do túnel, conhece-lhe o ruído do saibro conforme caminho, convencida de que a passgem seria longa mas valeria a pena. A mamã cansou-se. A mamã sabe que ainda não é tarde demais. A mamã é jovem, independente – sou independente, quantas pessoas podem dizer isso? – e, se tiver mesmo de ser, amanho-me sozinha (amanhar = remover escamas e espinhas até tornar o peixe comestível). A mamã hoje abriu uma garrafa de um azeite bem caro que me foi oferecido e banquetei-me dele. Depois, no caminho da cozinha para a despensa, fi-lo dançar no ar e escaquear-se no chão. Porquê? Porque haveria de criar todo um ritual em torno do azeite, prová-lo molhando o indicador no gargalo, chamar as minhas irmãs e incitá-las a fazer o mesmo, fazer pasta à italiana q.b. e celebrá-lo com mangericão, porque tive de aquecer pão no forno e molhá-lo no azeite e nos orégãos e lamber os dedos do azeite e dos orégãos, se depois o azeite acabou por entre cacos, no chão, a escorrer numa lentidão agonizante por entre as lajes que foram escrupulosamente limpas poucas horas antes? Porquê? Porque é um azeite bom demais. Porque valeu a pena. Porque fiquei sem o azeite mas tinha de ser. É tudo tão absurdo quanto o grito que lancei quando o vi no chão, a ensopar tudo, e me soube impotente.
A mãe está farta de estar no escuro a sonhar com a luz. A mamã quer fazer amor a ouvir a I Put a Spell on You da Nina Simone. A mamã quer saber que não mais terei de virar as costas àqueles que amo – àqueles que amei tanto e de modo tão tosco, tão ingénuo, tão crente, e depois tão amargurado, tão desencantado, tão contrariado. A mamã precisa de se convencer de que dando meia volta e saindo por onde entrei volto à luz. E tenho de aprender a viver com o facto de que perdi tempo no túnel. Mas, enquanto lá estive, banhei-me no azeite, amansei os medos com ele, ainda lhe sinto o perfume, ainda me recordo da qualidade inegável no rótulo, do brilho dourado, do modo como valeu a pena acender o fogão por ele.
A mamã está a dizer disparates, mas estão a fazer tanto sentido quanto fez lamber o braço quando o azeite deslizou da ponta dos dedos por ele abaixo. Não desperdicei uma gota do azeite que o universo me havia destinado. O resto não era meu, e quando já era derrame no chão, não podia rebolar-me nele sem perder a dignidade e manchar a dele.
A mamã anda a trabalhar demais, mas felizmente os sentimentos são um bom Norte. A mamã é, a todas as horas, ciente de que o nosso corpo, a nossa cabeça e o nosso coração querem coisas muito diferentes, e em mim parece que os três discordam mais no que em muitas outras pessoas. A mamã desceu a barragem do Carrapatelo, são trinta metros de água a descer e vinte minutos em que a tua vida dependente de engenheiros, da obediência de um rio e das condições do cruzeiro. E, olhando para o cimo, para a força com que a parede de pedra maciça e o portão de ferro continham a água, que ainda assim se derramava sobre as nossas cabeças, entendi que racionalismo algum contém o rio. Ele há-de infiltrar-se sempre em todas as brechas, em todas as fraquezas da solidez do material. Se lhe derem tempo, umas décadas talvez, ele desfaz o mérito da pedra e do ferro e reencontra o caminho para o seu leito. Assim que possa, aquele rio há-de esvair-se de volta ao outro, que é o mesmo, e que repousa trinta metros abaixo. Não tem como o rio não querer fazer parte do mesmo rio, ainda que o que o dilacera interponha altitudes e depressões entre os dois. Chamem-lhe gravidade; ou amor.
A mamã tem noção das coisas inevitáveis da vida, até hoje só me cruzei com duas, ambas trágicas, a seu modo necessárias, e também sublimes pela sua importância incontornável: o amor e a morte. A mamã é impotente perante ambas. 
Deixo que a Nina Simone me convença de que talvez a perfeição exista, talvez exista um motivo para tudo e talvez o azeite volte a escorrer pelo meu braço, se eu não tiver tanto medo que tudo acabe no chão.
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