Carta aos meus filhos #101

De vez em quando vêm ondas de dor. De ansiedade. A mamã tem tido sonhos maus. Tenho sonhado que tem AVCs. É um sonho assustador. Sinto o sangue a fluir de um lado para o outro do meu cérebro, como ondas a rebentar dentro da minha cabeça. A mamã sonhou que acordava depois de uma dor atroz e me diziam que tinha ficado um dia sem sentidos. Os tempos são estranhos. Talvez não seja o mundo que está pior (a eleição do Trump deixa-me indisposta), talvez sejam os sonhos e a esperança e as ilusões que ficam para trás. Vou chegar aos trinta sem me reconhecer. As minhas prioridades ficaram de cabeça para baixo. O amor é a última delas. A mamã agora passa o dia com as mãos enterradas no alguidar da roupa lavada, a cheirar o detergente na ponta dos dedos. Estende e apanha roupa. Até cozinhei nestes dois dias.
O trabalho não pára: deixa-me doente e impotente. Ontem tive de tomar uma coisa para me acalmar. Não posso fazê-lo todos os dias: não quero ser uma aleijada, uma dependente. Tenho muito que fazer – ainda não tirei um Mestrado nem fiz voluntariado em África. Ainda não vi a Turandot nem outra ópera na Arena de Verona. Por falar em arena de Verona… A mãe está quase a fazer vinte e sete. Vou festejá-los sozinha, com livros e arte. A mamã precisa de descobrir o refúgio dentro de si própria. Nunca como este ano a vida me afastou tanto das pessoas que amo. Parece que estamos todos fadados a ficar longe uns dos outros. Talvez seja verdade, e se for a mãe deixará de lutar. Não vou gastar mais energia com pessoas que já manifestaram que lhes sou indesejável.
O momento: estamos a viver para o momento. A entregar-nos ou a lutar por pessoas que não têm qualquer valor para nós, e às quais nos confiamos com os impulsos de uma qualquer paixão porque sabemos que nunca nos serão nada. Que não têm como nos magoar. Que podemos dar só um bocadinho de nós, mostrar-lhes só o lado que queremos e ocultar o resto. A parte que aqueles que nos amaram por completo mais acarinharam: os nossos medos, defeitos, imperfeições. As coisas sagradas estão debaixo do tapete. Estamos todos a despir-nos de tudo para podermos nadar para longe. Sem âncoras, sem pesos, sem olhar sobre o ombro.
Hoje, enquanto dobrava roupa, a mamã entendeu uma coisa:
O dia chegaria em que estaria sentada, frente a frente, e não iria sentir nada. Nada. Em que iria vê-lo pelo que é. Um outro corpo. Uma outra vítima da evolução. A mamã esperou tanto que esse dia chegasse, e quando chegou nem um enterro digno lhe fiz. Mas chegou. Doía tanto que a mamã acabou por deixá-lo ir. O que matou tudo foi o total e completo desapego por mim. Pelo que me é sagrado. Como daquela vez em que o meu pai se viu livre de um livro meu. Não mediu as consequências: não podemos pisar naquilo que é mais precioso para o outro e esperar que fique tudo igual. Foi um momento de viragem. A mamã andou zangada umas semanas, a culpar-se pelo tempo perdido. A perguntar-se porque o perdi. O que vi nessa aura, afinal? E agora perdoei-me. Perdoei-me e perdoei-o. E sinto-me suficientemente bem para, enquanto dobro a roupa, lhe desejar boa sorte com os assuntos do coração. Sorri e pensei “boa sorte, meu amor”. “When love and trust are gone, I guess this is moving on”. Mas não significa que a pessoa não tenha sido o maior, o mais trágico, o mais sangrento amor que jamais terás. O mais negro e o mais luminoso em simultâneo. Com isto faço-lhe o funeral: tempos houve em que trazia luz para a minha vida; em que éramos luz um para o outro. A mamã está convencida de que ele gostava de mim, sabem? Não uma sombra do que eu gostava dele. Mas houve amor nos olhos dele, em algumas ocasiões. Talvez duas pessoas com bom coração não tenham porque não ter afeição uma pela outra. E depois eu puxei-nos para o teste final – nem sequer houve reflexão por trás. Foi pura imprevisibilidade. E acabou tudo, como nesse momento quis que acabasse. Ansiei por dar um último capítulo à estória, e o mesmo veio sem que eu pudesse antecipá-lo. Ainda bem: tudo acontece porque tem de ser. Amores maiores acabam quando o fogo se extingue, e o fogo extingue-se por falta de oxigénio. Por isso esta cidade fechada deu-nos a liberdade que precisávamos. O alívio que ele queria. Fui-me embora do quintal dele. No more love letters, no more love.
O meu coração já estava feito em cacos há muito tempo. Há muito que merecia melhor do que esta história. Era bonita uniteralmente. Seria bonita se eu dissesse que este homem esperou por mim dezanove anos, como o marido de uma aluna minha. Mas não: eu seria o marido que esperou.
A mamã quer ser a primeira escolha de alguém, acha que merece isso. E pensar que a felicidade já esteve ao alcance dos meus dedos e que não fui uma actriz suficientemente boa e que, mesmo feliz:
– Se ele entrasse por essa porta, deixavas a comida a meio e ias-te embora com ele, se to pedisse.
Se a felicidade voltar a sentar-se comigo num restaurante em Sintra, vou garantir-lhe que não. Não vou a lado nenhum. Porque o amor não é tudo e tantas vezes até atrapalha. E porque este morreu e eu nem sequer fui ao funeral. Estava ocupada a estender roupa.
Por isso, e em nome dos momentos plenos de luz que vivemos, que sentia que nada abalaria o meu amor por ele e em que dentro dele havia um carinho que não nos deixaria velejar para demasiado longe um do outro, digo, com sinceridade:
Vai e sê feliz.
(E já não consigo conceber terminar com “, meu amor”).
Agora só desejo sair depressa daquela fase de que fala uma canção tradicional irlandesa:
– I wish, I wish
I wish in vain.
I wish I had my heart again.
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