Il Viaggio in Rosa – Parte I

Parte I – Bergamo
Como sempre, sentar-me num avião dá-me um sono sobrenatural. Adormeci antes da corrida final e nem me lembro de tirar as rodas da pista. Devo ter dormido durante três quartos da viagem. Depois acordei e os percalços começaram.
Para poder ler pedi um café – já sentia a moínha de uma grande dor de cabeça a agigantar-se. Depois entornei o copo de café sobre o meu casaco e o moçoilo que ia ao lado. Tirou um lenço do bolso e estendeu-mo com prontidão, aproveitando para dizer que os portugueses dizem constantemente obrigado. O restante tempo de voo foi passado meio a analisar-lhe as mãos – mãos de homem bonitas são mais raro do que possa parecer, e este precisava de um jeito nas unhas.
Aterrei em Bergamo sob um frio de gelar ossos. As malas, embora juntas não pesem mais de 25kg, são dois monos cheios de coisas frágeis que trago uma em cada mão. Atravessei a alça da mala de senhora ao pescoço. Meio afogada por isso, pelo cachecol, pelo casaco e pelas malas, cheguei ao balcão de rent-a-car. Enquanto assino os papéis dou-me conta de que os dedos me estão a tremer. Estou aterrorizada. Não costumo conduzir – explico ao senhor. Quase queria que ele me tirasse os papéis da frente e dissesse “minha menina, você não pode sair daqui com o nosso carro”. Mas não… mete-me a chave na mão e faz-me assinar uns papéis, o irresponsável.  Depois de muito repensar, concluo que vou precisar de um GPS. O valor é absurdamente caro, mas não vi grande alternativa. O GPS vai ajudar a evitar um desastre potencializado por uma condutora como eu andar perdida na estrada. Saio dali com a chave do carro e indicações para o parking, a tentar mentalizar-me que vai correr tudo bem e que o meu chefe não me vai assassinar por causa do gasto extra do GPS. Não encontro o parking e gelo enquanto dou duas ou três voltas ao perímetro do aeroporto. Já irritada, porque as malas são um pesadelo, dou com o sítio. Olho para um carro, convencida que é aquele, e quando clico na chave para o accionar é o do lado que reluz. Uma miniatura de carro com o aspecto mais frágil que já vi. Foi a primeira vez que aluguei um carro que vinha com uma lista de mossas. Tudo o que tenho a fazer é não acrescentar nenhuma. Ou bater só onde aquelas já estão.
Arranco com o carro depois de preparar tudo. GPS a postos dá 20 minutos de estrada até ao hotel. Tudo bem, vinte minutos é a via rápida. Eu consigo. Ganho coragem e saio dali para a via rápida, depois de circundar o parque duas ou três vezes para me habituar ao carro. Dizer que ia aterrorizada é pouco. Quando me apercebi que o GPS estava apagado pior ainda. Tento seguir as placas para Bergamo, sabendo que teria que parar algures para me orientar. Engano-me na saída e vou para Seriate. Quase causo dois ou três acidentes, mas os italianos são inesperadamente civilizados ao volante. Sou eu que arranco buzinadelas e travagens bruscas. Paro porque me apercebo que vou a chorar e que não vejo nada. Choro um bocado com a testa contra o volante, como se vê nos filmes. Já entendi porquê. Pergunto-me a quem vou pedir ajuda. Quem vai ajudar-me ali? Não deixo que a crise dure muito porque passaram quase três horas que aterrei e estive sempre a vinte minutos do meu destino final. A cabeça explodiu, a enxaqueca instala-se a preceito mas eu decido que vou ligar a net e seguir o GPS do telemóvel. Apesar de me ter perdido logo, parece que cortei meio caminho. Estou a dez minutos do hotel – em pânico – mas quase em segurança. Arrisco. Onde vou pôr o telemóvel de maneira a que o veja? Pouso-o e oiço a voz da senhora em Português a debitar indicações. Acalma-me tanto que me sinto abraçada. Respiro fundo e vou fazendo o que me manda fazer, passando por obras na estrada e por motas viradas e equipas de socorro a levantar motociclistas do chão. Está tudo escuro e calmo. Quando dou por mim cheguei ao estacionamento. Depois de umas voltas largo o carro, respiro fundo e posso gozar a dor de cabeça. As rodas das malas prendem-se em cada pedra do centro histórico da cidade, e demoro três vezes o necessário para chegar ao B&B, que era logo do outro lado da estrada. A estacionar está o rapaz em cima do qual despejei o café. Não me vê mas reconheço-lhe o nariz e os óculos. Ó mundo pequeno! Já no check-in, o Gigi diz-me que a mulher dele faz anos no mesmo dia que eu. Como o B&B se chama “A Torre”, o meu quarto é o último ao cimo. Não há elevador a aliviar os quatro lances de escada estreita. O Gigi, felizmente, dá uma mãozinha com as malas. Consigo sorrir.
Vou ao bistro do lado – cujo jazz me chama de longe – para buscar conforto numa refeição italiana. A cozinha está fechada e dizem que me vão trazer umas fatias de pão e presunto. Quando dou por mim tenho uma tábua com um porco inteiro à frente, feito salami e prosciutto. Só queria uma bucha…
Apesar do bolor, o queijo é bom. Já a polenta (?) é difícil de entender. Parece a textura de migas de pão e só consigo identificar um ingrediente: milho. Nunca tinha ouvido falar em tal coisa. Oiço a senhora levar quase tudo para trás (era presunto para quatro homens) e queixar-se que tinha avisado que era demasiado. Dói-me demasiado a cabeça para rir.
Preciso de me rir. Não consigo – ainda não -, mas para me acalmar prometo que amanhã vou visitar as agências todas a pé. Vou evitar aquele volante até à hora de almoço.
Penso que se conseguir meter um pouco de humor nisto, tudo vai correr bem. Tudo vai acabar bem.
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