Il Viaggio in Rosa – Parte V

Verona – Venezia

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Hoje fiz anos. Vinte e sete. Sinto-me velha, mas obrigo-me a pensar que a vida pode começar num dia qualquer, e que juventude não é sinónimo de mais vida, bem como velhice não tem de ser significado de menos vida. Continuo a sentir que a minha vida ainda não começou, embora tenha cada vez mais episódios para narrar. 
Tinha um bilhete para as 09:26 Verona-Veneza, mas se há coisa que já entendi é que o que se diz é verdade: não se pode pedir direcções em Itália. Mandam-te para a esquerda, depois para a direita, depois de novo para a esquerda. E entretanto ficas a ver o autocarro ir-se embora. Também não é fácil meteres um plano em marcha, porque a decisão mais simples é interrompida pela miríade de distracções que estão sempre a atirar-se para o teu caminho. Decidi que merecia um pequeno almoço a preceito, mas dois passos em direcção à pasticceria e um mendigo atravessa-se à minha frente. Traz um terço de plástico branco entrelaçado nos dedos, um boné verde e a barba tem alguns dias, mas não está completamente desgovernada. Pede-me cinquenta cêntimos, para comprar um pão. Não tenho trocos nem tenho companhia para o pequeno-almoço, pelo que acabo por convidá-lo até ao estabelecimento que está logo ali, num dos ângulos da Piazza Vittorio Veneto. Senta-se cá fora, na esplanada, apesar de soltarmos baforadas de fumo branco a cada palavra. Não se deve sentir bem-vindo no meio de tanta gente a beber cafés e a comer ciambelle no interior. Peço dois cappuccinos, a sandes que ele escolhe e um brioche, que é um croissant, mas vá-se lá entender…
Engole o cappuccino enquanto escalda, e não preciso de dizer nada para que me conte a sua vida toda. É “químico orgânico”, trabalhava na Alemanha mas teve de voltar por causa da doença da mãe. Não arranjou trabalho em Itália e faltavam-lhe uns meses de serviço na Alemanha para ter direito a reforma desse país. Ficou sem nada. Acrescenta que é obrigado a gastar dinheiro em lâminas porque já lhe têm batido na rua quando tem a barba grande. Culpa a polícia: diz que se o vêm com a barba grande julgam logo que é um terrorista. Dá-me um papel rasgado ao meio com o número de telefone e diz que, se lhe escrever com a minha morada, me manda um cartão com uma foto de São Miguel Arcanjo. Não tive coragem de lhe dizer que não acredito nesse tipo de arcanjos.
Perco o autocarro – é domingo, o pé dói-me tanto que não posso pousá-lo no chão e ando a jogar às escondidas com os autocarros. As instruções nas paragens não são claras, as pessoas apontam em direcções diferentes e discutem quem tem razão. Por parvoíce, comprei o bilhete a partir de Porta Vescovo, mas estou melhor servida de transportes a partir da Porta Nuova, pelo que decido seguir para lá, mesmo porque o outro autocarro não passa. Na estação noto que o meu comboio já partiu há meia hora, pelo que me meto na fila para os balcões da Trenitalia e tento resolver. Dizem-me que posso usar o mesmo bilhete, desde que vá até à Ponte Vescovo para apanhar um qualquer regional que vá para Veneza. Largo 1,75€ e sigo viagem para a linha 6, onde me sento meia hora num banco metálico e gelado, a ler Sylvia Plath e a perguntar-me como saberei que comboio para na Porta Vescovo, quando todos são anunciados pelo seu destino final. Reflicto sobre as informações que o senhor simpático do B&B me tem dado. “Menina, um táxi aeroporto de Verona-centro é 20€”. O taxista pediu 35€ e disse que eu estava maluca (não entrei, claro). “Menina, o autocarro urbano é 1,10€”. Foi 2,00€. Menina, de Porta Nuova a Porta Vescovo são 0,30€. Foram 1,75€. Acordei, portanto, chateada com os italianos.
A dado momento, farta de esperar, abordo um maquinista. Diz que daí a dez minutos há um regional para Veneza a partir de onde estou, que raio vou fazer até Porta Vescovo? Então rasgo o bilhete e 1,75€ ao meio e fico ainda mais chateada. Durante o percurso termino “A Campânula de Vidro” e nunca vem o revisor pedir o bilhete. Penso que trouxe três livros, comprei um quarto no aeroporto e no terceiro dia já despachei dois…Que raio vou ler nos outros dias?
Chego a Veneza e, dois minutos depois, maravilhada pelas vielas, perco-me. Se não me doesse tanto o pé, era até engraçado. Havia setas a apontar em ambas as direcções com o mesmo destino. Fiquei confusa. Perdi a conta ao número de vezes que a ruela estreita, onde as varandas de ambos os lados quase se tocavam, culminava numa vista privilegiada para o Gran Canale
[Quando tinha 7 anos, andava a dar uma novela chamada Por Amor. Nos primeiros episódios, mãe e filha (na ficção e na vida real), estavam juntas em Veneza. Fiquei com aquela imagem em mente, mas também com a sensação de que isso não seria para mim. Que não teria direito a essa espécie de prazeres, como viajar. Mas cá estou, vinte anos depois, sentada em São Marcos a admirar os leões alados. Os olhos são sabem bem onde pousar. Estou feliz por estar aqui, a beleza traz sanidade à alma. Não sinto que Veneza (ou sequer Verona) seja a cidade do amor. Só vejo turistas com selfie sticks. Então pus-me a ouvir a Zizi Possi a cantar essa música, que ficou sempre associada ao sonho que tinha de Veneza. Toda a Itália é um sonho, mas esta cidade é realmente algo de transcendente. É um labirinto que oferece um sorriso a cada esquina. Roupa estendida e malas de pele absurdamente caras. Uma mistura de grandeza e decadência estranha. Uma pomposidade em cada gondoleiro, mas a crise económica no país. Menos pessoas nos restaurantes e mais a comerem foccaggie pela rua. Menos pessoas a passear de gôndola e o olhar enfadado dos condutores, de camisola riscada branca e preta, mais pessoas no barco motorizado turístico. Menos cristais de Murano e máscaras venezianas à venda, mais lojas com artigos chineses que vejo à venda em toda a parte. O turismo democratizou-se. As pessoas que compram selfie sticks e que apalpam os seios da Giulietta não têm uma única pista do porquê das coisas. É cansativo descobrir. Hoje aqui amanhã noutro sítio. Mas eu tenho as aspirações de infância a animar-se os passos. E por isso, mesmo que cá regresse, esta vez será sempre especial. Lembrou-me que as coisas acontecem uma de cada vez e que, se cultivarmos o desejo e formos pacientes, um dia podemos dar por nós na Praça de São Marcos sem saber como açambarcar tanta beleza e tanto detalhe com o olhar.]
Regresso a Verona no comboio certo, depois de fazer o passeio de 45 minutos pelo Gran Canale e de admirar a ponte Rialto como deve ser (metem a linha do comboio no ecrã cinco minutos antes e ele partir, o que é óptimo numa estação como Santa Lucia, com 23 linhas, sobretudo quando cada passo nos arranca um esgar de dor). Fui sempre a ouvir a mesma música e a reflectir em como ter crescido tão atenta aos ideais dos anos noventa me moldou para o futuro. Na altura, as pessoas das novelas eram minimamente decentes e andavam vestidas. Viajar era coisa de ricos e o casamento era para a vida. Fiquei uma romântica incorrigível por causa dessa imposição de “obstáculos = final feliz”. Ainda assim, não senti que Veneza seja a cidade do amor. Senti, sim, que deve ser especial perdermo-nos por aquelas vielas com o amor da nossa vida. Mas até a selva africana deve ser interessante com o amor da nossa vida ao lado. E ser picados pelo mosquito da malária ou perseguidos por crocodilos no Nilo também me parece bem mais suportável nessas circunstâncias. Pelo caminho apetece-me escrever, mas não tenho papel. Há muito que a vontade de escrever não me espicaçava deste modo. Vou tratar disso nos dias que tiver de férias.
Ao chegar a Verona dou-me conta de que o pé me dói mais do que nunca. Amanhã vou ao médico, não faço nenhuma ideia do que possa ser. Não parti nada, não sei nem como aconteceu. Há anos que tenho o cartão de saúde europeu, mas desta vez ficou em casa. A dado momento do percurso olho para o lado, para a pessoa que segue em pé a meu lado, e entendo que é o mendigo do pequeno-almoço. Desfaz-se de novo em agradecimentos e volta a pedir-me que lhe escreva a fim de poder enviar-me o postal do São Miguel Arcanjo. Olha-me por detrás dos óculos de míope e decido que lhe vou escrever, parece-me que gostaria de receber uma carta. A quem pertence a morada, não sei.
Amanhã a aventura continua com várias paragens, se tudo correr bem durmo em Rimini depois de um dia com as malas a reboque e o pé que mal posso pousar no chão. Mas já não sei de nada… Neste momento, se fosse parar de comboio à Áustria já não me espantava muito. Itália tem esse efeito nas pessoas, parece-me. Uma pessoa perde a direcção e acaba por encontrar-se a si mesma. Onde irei dar amanhã?
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