Il Viaggio in Rosa – Parte VI

Rimini – Bologna Centrale – Siena
Siena
“Bologna Centrale” vem como etapa porque é uma estação de comboio que mais parece um aeroporto com pelo menos cinco andares subterrâneos. Havia uma série de pessoas de aspecto suspeito a oferecerem-se para me ajudar com as malas, ou a repetirem números de linhas como se fossem papagaios. “É para o 16-19? É? Para o 16-19? Quer uma mão com as malas?”, e suspeito que ganham gorjetas com isso. No comboio Rimini-Bologna conheci uma estudante de literatura. Fomos o caminho todo a falar de Pessoa e de Saramago e de Calvino e de Tabucchi. A dado momento comentei que a achava muito jovem, porque as italianas usam imensa maquilhagem. Acho que as espanholas ainda se esmeram mais, mas as italianas fica pouco atrás. Nos comboios cruzo-me com toda a gente, e muitas delas mal se lhes vê a íris por detrás da cortina de pestanas ensopadas em rímel. Afinal tem vinte e quatro anos, não é assim tão mais nova que eu. Tem a cara limpa e foi a casa (em Pádua) para votar. Há um referendo para se aplicar algumas alterações na constituição italiana e ela foi responsável o suficiente para se deslocar até casa e votar. Estava de regresso a Bolonha.
Em todos os comboios vejo imensos jovens juntos, a estudar e a sublinhar frases nos seus apontamentos. Os rapazes vestem-se como aquilo que consigo apenas classificar de pintores (de paredes, com as manchas e tudo, mas sem a dignidade da profissão). Calças de algodão, largas. Se passearmos o olhar inadvertidamente pela carruagem, vê-se-lhes os bóxers com facilidade. Todos usam penteados a preceito, rapado aqui, modelado a cera ou a gel ali. As parkas são quase todas da mesma marca. North Wind qualquer coisa, acho. Os ténis também têm o seu esplendor, mas é nos telemóveis que menos se vê o sinal da crise. Ainda só vi de iPhone 6 para cima nas mãos deles. Não consigo acompanhar, acabei de comprar um iPhone 5. Sou a única pessoa que trabalha em muitas daquelas carruagens, e curioso que seja a única que não tenha meios para ter esses apetrechos tecnológicos. Nem um iPad, que gostaria de ter para poder ler – quem me dera ter e-books aqui! Ao invés entro em todas as livrarias à procura do “Non ti muovere” da Margaret Mazzantini e não o encontro. Foi a estudante de literatura que mo aconselhou, e lembro-me de o ter na lista de “a ler”.
Dizia eu que a conheci na fila da estação para o balcão da Trenitalia. Encetámos conversa com facilidade. Uma queixou-se de a fila não andar. A outra contrapôs algo, a outra sobrepôs outra coisa,  e quando demos por nós caminhávamos lado a lado em direcção à mesma linha para apanhar o mesmo comboio, e ela dava-me inclusive uma mão com as malas. A percorrer as carruagens, foi óbvio que nos sentaríamos lado a lado, ficou subentendido. Achei engraçado que seja tão fácil para nós – europeus do sul, portugueses e italianos – dar-nos. Ali fomos, durante hora e meia, a tagarelar sobre tudo. Viagens, livros, bacalhau, estudos, propinas, literatura, política, a minha língua e a língua dela, em que comunicámos sempre. Falar italiano permite-me isto, e permite também que entenda de que falam os italianos. Sobretudo comida, engraçado. Sentam-se no restaurante a falar de comida. Do que comeram, do que vão comer e do que mais gostaram de comer na vida, e como o prepara a avó. À entrada de uma carruagem, ouvi um italiano para duas raparigas:
“São de onde?”, e uma delas responde, rápido: “estou noiva”. E ele debanda dali, à procura de uma que esteja menos comprometida.
Tudo isto me faz rir. Outra coisa interessante é o conteúdo das livrarias. Há os clássicos, as narrativas do momento (A Rapariga do Comboio, Toda a Luz que não Podemos Ver, Harry Potter, o último volume da trilogia do Carlos Ruiz Zafrón, um cuja autora não me lembro mas que se chama, traduzindo literalmente, “A neve há-de proteger-nos”). Encontro Pessoa sem dificuldade, mas não se encontra quase nada em inglês – o que há são os clássicos da Penguin, o Eat, Pray, Love, os livros do Dan Brown e do Stephen King. Quase tudo são livros cor-de-rosa e ligeiros – o amor isto, o amor aquilo. Traçará isto todo o perfil de uma cultura?
Muitas pessoas das minhas andanças livrescas morreriam de ressaca nestas livrarias. Não há nada ou quase nada dos romances históricos cor-de-rosa ou dos eróticos que em Portugal tanto sucesso fazem. Vê-se o Fifty Shades of Grey, claro, mas na edição inglesa. Parece que a edição italiana não teve grande impacto. Será porque a sensualidade é outra coisa para os italianos? Depois vê-se Marina Fiorato e Sylvia Day, mas mesmo os destas que estão pelas prateleiras são poucos e não me parece que gozem de grande saída ou destaque. Não reconheço nenhum título.
Da minha parte, leio as sinopses dos livros do Calvino, folheio o Afirma Pereira, do Tabucchi, que li enquanto estudava italiano, e encontro o Venuto al Mondo da Mazzantini, mas não o Não te Mexas. Entendo que vou ter de o comprar em italiano, quando o encontrar, e tentar ler. Vamos ver no que dá.
Eu e a estudante de literatura – é mais engraçado chamá-la assim -, despedimo-nos em Bolonha e arranco para o meu “binário”, onde me espera o comboio para Florença, e daí tenho um regional para Siena. No Frecciarossa para Florença vou meio a dormitar, apenas ganhando algum alento quando leio, no ecrã exposto aos viajantes “estamos a viajar a 285km/hora”. Não admira que sejam nem trinta minutos de Bologna Centrale a Santa Maria Novella.
Com dificuldade arrasto as malas pela estação de Florença até ao sítio de onde parte o meu regional, com paragem em todas as estações. Preparo-me para uma hora e meia de babanço contra a janela, posto que acabei de ler Viagem ao Coração dos Pássaros e que, apesar de ter aberto os dois malões na estação em Bolonha, não encontrei A Um Deus Desconhecido, do Steinbeck, que é o último livro que trouxe para ler, porque os outros três foram despachados em cinco dias. Mas aqui nada acontece por acaso, por isso a meu lado vem sentar-se um casal que fala um inglês aberto e límpido. Começo a roer-me de curiosidade. Não são britânicos, não são irlandeses nem escoceses. Então não resisto e meto conversa. São de Sydney. E assim começa outra conversa de uma hora. Tratam-se de Lucy e Richard, ela professora de Japonês aposentada e ele … nem cheguei a perguntar o que fazia. Ela fascinou-me. Morou no Japão, fala e ensina Japonês e conhece praticamente o globo terrestre todo. Ele ia acenando com a cabeça, também ele culto mas ligeiramente à sombra do discurso dela. Posto que fomos os primeiros europeus a chegar ao Japão, por via das missões jesuítas, ela está familiarizada com algumas particularidades da nossa cultura, embora sem nunca ter visitado Portugal. Em comparativo, é a décima quinta vez que vai a Itália. Rumam a San Gimigniano, nomenclatura que ela, com todo o seu conhecimento em Japonês, não consegue obrigar a língua a articular. Diz que acha que a palavra “pão” em Japonês veio do português, porque parece que introduzimos lá a base para a famosa “sande”. E eu falo-lhe de Obrigado – Arigato, talvez mo soubesse explicar. Não sabia dessa associação, não pode ajudar-me. O Richard olha para mim – quem terá mais sardas? Eu ou ele? -, e diz que se os portugueses tivessem insistido no território umas milhas a sul de Timor, agora estaríamos todos a falar português. É a primeira vez que um australiano (conheci alguns de Melbourne) me diz com todas as letras “´Fomos quase colonizados por vocês”. Também sabe do documento com a ilustração do canguru do século XVI que foi encontrado há uns anos num arquivo qualquer norte americano.
E, depois, a conversa estende-se para o ADN. Para o facto de a Lucy ser meio britânica e meio irlandesa, mas ter ido viver para a Nova Zelândia quando tinha só dois anos, e depois na idade adulta foi para o Japão. Diz que não sabe onde foi buscar o cabelo e os olhos escuros. O Richard interpõe que provavelmente os celtas que povoaram a Irlanda eram provenientes da Península Ibérica, coisa que descobri há pouco tempo numa das minhas aulas de inglês – em que ensino e aprendo na mesma medida com os meus séniores. Talvez a família irlandesa dela tenha algo de peninsular no passado longínquo. Quem sabe…
Começamos a olhar-nos como parentes, e ambas adoraríamos fazer um estudo do nosso ADN. Infelizmente, além de caro é pouco preciso. Dizer-me que sou da Península Ibérica não basta… Espanha não é Portugal. Separa-os a história e as espadas e a cultura. E depois há o meu avô angolano e a tetra-avó ruiva. Misturando tudo isto, imagino que o meu ADN venha dos quatro cantos do globo. E deu nisto… Umas quantas doenças típicas de lugares onde os raios solares chegam à terra com diferentes obliquidades. Não podíamos ter ido pela via das imunidades?
Quando descem, a fim de seguir para a aldeola medieval e muralhada que defende o “melhor gelado do mundo” – é mesmo, provei-os em 2013 –, fico sozinha na carruagem com um italiano de cabelo à Roberto Carlos nos anos 90 que não se coibiu de nos olhar durante todo o tempo. Não gosto que me olhem fixamente, por isso quando mete conversa comigo – já os dois sozinhos na carruagem – finjo que não entendo. Ensaio algumas respostas tortas, tipo “O que que acha que ia acontecer se lhe desse conversa?” ou “Acha que qualquer estrangeira vos cai aos pés? Por favor, já estou vacinada. Já agora, vá cortar essa guedelha!”. Depois lembro-me que as pessoas se esfaqueiam por coisas menores, e decido que vou optar por me fingir de surda ou de parva ou, para jogar pelo seguro, de ambas.
Por cima do ruído dos carris, em vez de desistir começa a fazer gestos com os dedos. Entendo que quer um lenço e estendo-lhe um. Depois, quando vem a pergunta “de onde és”, cruzo os braços por cima da mala e viro-me para a paisagem toscana, de súbito silenciada e emburrecida pelos ciprestes.
Chego a Siena e o motorista do táxi é de Pisa. Tagarelamos durante os dois minutos que demora a subir ao centro, e deixa-me na Via Banchi di Sopra, que é a dois passos (literais) da Piazza del Campo, onde em Julho e a 16 de Setembro se dá o famoso Palio, uma corrida desenfreada de cavalos. Estou também a meia dúzia de passos da Catedral. O recepcionista que me recebe tem uns sonhadores olhos azuis por entre pestanas loiras e compridas, e tem um travo a abandono nos gestos. Leva a mala até ao meu quarto, e lembro-me da quantidade de vezes que subi e desci escadas nesse dia (Rimi-Bologna, Bologna Florença, Florença-Siena) nas inúmeras estações de comboio por onde andei. Os rapazes de vinte anos, pálidos e de bochechas rosadas pelo frio, andam ali num engate silencioso nos telemóveis, encostados às ombreiras das portas e com as suas calças de pintor (inclusive meio roçadas e rasgadas) e não mexiam um dedo para me ajudar com as malas. Foram sempre, sempre, mulheres a parar a meio dos degraus e a perguntar se precisava de uma mão. Uma vez disse a uma, perante uma série de matulões a teclar, que são sempre as mulheres a oferecer-se, mas que recusava a ajuda dela, porque tinha dez minutos antes do comboio chegar para subir dez degraus com 30kg, preferia fazê-lo por mim mesma. Ela diz-me, na simpatia que lhes é nata, que se oferecem porque se identificam. Brave! Infelizmente, dentro das carruagens, tentei por várias vezes elevar os tais 30kg acima da minha cabeça. O problema não é a força nem o peso, mas sim o quão altos são os compartimentos para as malas. Com um metro e cinquenta as malas ficam suspensas da minha mão (também ela eternamente de criança) e acaba por vir um senhor de meia idade ajudar-me com resignação. Sinto-me um bocado aborrecida por não poder elevar as minhas malas por mim mesma, mas hey… pensava que estaria a rasgar cascalho pela Toscana adentro, e ao invés estava a viajar a quase 300km/h num comboio feito para pessoas de dois metros. Se tivesse sabido, imagino tanta coisa teria ficado em casa… Uma mala teria bastado.
Abro a janela e sei que terei uma tarde de trabalho pela frente. Porém, a vista dos telhados sienenses deixa-me boquiaberta. Estive aqui há três anos mas apenas por uma tarde. Parece-me melhor agora, com as ruas quase vazias por ser época baixa. Só se houve falar italiano nas ruas e as pessoas cumprimentam-se, suponho que sejam todos vizinhos e que sejam todos de cá. As decorações de Natal são lindíssimas, há flores, árvores de Natal nas praças e coroas de natal. Os javalis, que são o símbolo da região, têm barretes natalícios, e a cada loja há chocolates e panettoni nas montras.
Sou atendida no “La Costa”, na Piazza del Campo, por um jovem simpático romeno, que me traz penne alla bolognese e um recipiente com parmesão ralado. Já me habituei a cobrir a massa com ele. Fico a ver as poucas pessoas que estão sentadas nos veios do chão, que é uma espécie de concha aberta para um Palácio e para a Torre La Mangia, que vejo da janela do quarto. Como a massa acompanhada por um vinho tinto encorpado, e arranco para me sentar um bocadinho junto à fonte na Praça. Às sete da tarde é noite serrada. Por um impulso estúpido, atravesso a praça e compro um maço de tabaco e um isqueiro, para depois voltar a sentar-me no mesmo lugar. Acendo-o e dou umas baforadas, a pensar que foram os 5,30€ mais mal gastos da minha vida. Apago o cigarro poucos minutos depois de o acender. Soube-me pessimamente mal. É só que precisava de algo para me acompanhar enquanto ouvia a última ária do Acto I da Madame Butterfly, ainda a usufruir do wi-fi do restaurante.
Por falar na dita cuja, chegada ao hotel começo a trabalhar – há-de prolongar-se a tarefa até à meia noite e meia – enquanto dá a “Casa Mika” no Rai 2. É um show que me parece em directo em que Mika (libanês naturalizado britânico, descubro) fala italiano e canta com convidados (incluindo Kylie Minogue e a Chiara, e a minha canção de amor já foi o Dueto Mika-Chiara “Stardust”. Foi ele que nos deu essa música, disse aquelas coisas parvas que as miúdas apaixonadas gostam de ouvir. “Esta música faz-me pensar em ti”. Não me esforcei mais para dar banda sonora à coisa, ao menos poupavam-se as minhas canções de amor favoritas para voos mais altos. Na época oragazzo ficou muito surpreendido por eu saber a parte da letra que é em Italiano…  Ma dai! Quis o destino que quando eles se juntassem para cantar essa música no programa, eu estivesse em video chamada com a minha irmã, a tentar saber da gata, e portanto com a TV em mute, e também isso me deu vontade de rir). O homem é meio estranho, mas ainda assim trabalho enquanto o oiço cantar. Parece que está tudo em câmara lenta, até durante as danças, e chego à conclusão que esse programa dificilmente teria grandes audiências em Portugal. No telejornal falam da Madame Butterfly, que estreia hoje no La Scala, a abrir a estação lírica. Trata-se da primeira versão escrita por Puccini, a mesma que foi um fiasco em 1904. Fantástico que seja notícia aqui, mas afinal até o antigo rei de Espanha vem assistir. Marcelo, não foste convidado?
Por volta das duas da manhã ainda se ouviam risos e cantorias na rua, além de que podia ouvir-se a conversa toda dos amigos em cavaqueira nos inúmeros bares em redor. Perguntei-me se a lei aqui não é aplicada – ou se nem existe, por impossibilidade cultural. Até achei engraçado e deixei que me embalassem, mas depois ouvi umas batidas ritmadas, tipo alguém a pregar um prego na parede, e achei que aquilo já era demais. Uma coisa é não controlares a alegria intrínseca à tua natureza e falares alto e dares risadas na rua, outra é pregares um prego às duas da manhã. Mas depois lembrei-me que isto é Itália, a terra do amor e das emoções à flor da pele, e percebi que que estava a embater no tijolo laranja da região não era um martelo, mas sim uma cabeceira de cama. Não é a primeira, mas foi a mais contida até agora. Em Brescia a ópera – a moça era soprano – durou quarenta e cinco minutos com direito à orquestra de voz, carnes e estrado chiadeiro.

Adormeci em paz, porque parece que tudo está no seu lugar no mundo. No dia seguinte começam as férias. Dormir, ler, comer. A minha versão de “Eat, pray, love”.
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