Parte VIII

Siena – Firenze

Sentada na Piazza del Campo, pouso pela primeira vez os olhos em “A Um Deus Desconhecido”, de Steinbeck. Sinto-me tão bem, tão em paz… Por um instante abraço tudo o que tenho junto ao peito, destacando-lhe a juventude e uma saúde quase (quase) em equilíbrio. Itália está a devolver-me a luz, a felicidade, um pouco da barriga e uma paz imensa. O sol de inverno sustém-se em mim e dou-me conta de ser o que já me disseram que sou tantas vezes: uma alma velha a valer-se da energia de alguém jovem. Pergunto-me se, nesta praça, não haverá quem se tenha cruzado comigo noutra existência. Recordo-me de como apreciei o sol de setembro na escadaria de Santiago de Compostela, sentindo-me como me sinto agora, e que veio aquele senhor ter comigo. Ou fomos um ter com o outro. E ele tirou a pulseira com a concha do caminho do apóstolo e deu-ma.  Não tive qualquer dúvida de que já nos conhecíamos de outras épocas. Então, de imediato, sem me dar sequer hipótese de voltar a concentrar-me no livro, ao menos para disfarçar, um cachorrinho capta a minha atenção. Atravessa a praça suspenso da trela, impaciente, de nariz colado ao chão. Traz a dona a reboque. Passa mesmo ao meu lado, só tenho que dizer “ciao” e atira-se para os meus braços. Lambe-me a face toda, roça a cabeça na minha mão. Tudo num ápice, que a sua juventude não lhe permite que se detenha. Pergunto como se chama a cadelinha, que me diz ter três meses. Quando ma apresenta, fico a rir a vê-la ir-se embora. Lembrou-me que nem só por humanos viajam os espíritos. Arriverderci, Hillary.
Decido comer alguma coisa antes de ir para a estação, pelo que quando dou por mim tenho a boca cheia de queijo. O queijo cremoso de Bergamo, cujo nome nunca descortinei, com bolor azulado nas extremidades. Mozzarella, parmesão, brie, riccotta. A cada novo prato um novo queijo, e penso nisso enquanto saboreio a massa de um ciaccino, e entendo que, apesar de o tomate ser fresquíssimo, bem como a rúcula e o brie, estou outra vez a deixar cair no colo pedaços de queijo. Comi mais queijo em sete dias do que na minha vida toda. Sou mais a miúda da massa do que do recheio, e isso herdei da avó, que come o rebordo da pizza e diz que os molhos lhe fazem mal. Talvez façam, ela queixou-se várias vezes e nunca a ouvimos.
O último perfume que me acaricia, em Siena, é o de pêras. Pêras firmes e farinhentas. Tão intenso e exigente que por instantes fico desalentada, ciente de que não faço ideia de como deitar mão a uma pêra nesse momento. Penso que, se tivesse uma filha e a pudesse chamar Siena, não hesitaria. Mas a mais velha, como manda a tradição que me impus desde os dezasseis anos, chamar-se-á Eva. Tutto questo averrà, me lo prometto. Espero não sair tão defraudada da vida quanto a Cio-Cio-san.
No comboio prossigo a leitura. Foi-me oferecido pelo meu patrão, e pela data que lhe imprimi a 07/12/15, demorou-me um ano a abri-lo. Pergunto o que leva alguém a escolher certeiramente um livro para oferecer a outrem. A verdade é que há religiosidade em mim, embora não nenhuma das óbvias, e ao fim de duas páginas estou rendida. E este livro está prenhe de diferentes religiosidades.
Chego a Florença e com isso despacho as primeiras cento e vinte páginas do livro. Pelo caminho admiro também a paisagem da Toscana, e os ciprestes (cipressi), os campanários, os campos cultivados. Oiço Noemi a cantar “Sono solo parole”, e entendo que cada canção italiana que conheço está a ter um efeito curativo e vem no momento certo. Deixo-a dizer-me que a passagem do tempo acaba por clarificar tudo. Recosto-me e chego tranquila a Santa Maria Novella. Esqueci-me, uma vez mais ao longo do dia, que é feriado. Como o hotel é a 600m da estação e a dois passos do (único, gigantesco, visceral, magnifico – no sentido florentino) Duomo, não faz sentido chamar um taxi. Faço os dois malões galgar as pedras acidentadas do piso, atropelo umas quantas pernas e finto os turistas que param para fotografar, e o coração dá uma pirueta quando revê os veios de mármore de Santa Maria del Fiore. Até aí estava plenamente feliz, mais ainda que o hotel seja a dois passos da catedral, e tenha uma varanda ímpar para a laboriosa cúpula do Brunelleschi, mas depois chego ao hotel e é um buraco. Não sou muito exigente. O meu quartinho em Siena, que me fez sentir em casa por causa da secretária, do telefone e da colcha da cama, para além daquela vista libertadora, não agradaria à maioria dos turistas a cujo conforto atendo. Mas este hotel é medonho. A vista da minha janela é para um pátio interior, mal me posso mexer, a cama é de criança, não há internet no quarto mas, o que me desolou: não há secretária nem mesinha. Vim aqui para escrever. Onde vou pousar o raio do computador?
Adormeço no quartinho claustrofóbico, depois de me oferecer para pagar um suplemento e mudar para um melhor. Esqueci-me de novo que é feriado; o hotel está cheio e das ruas vem o ruído do respirar colectivo. No can do.
Deitei-me vestida, porque o quarto é gelado e o espaço tão exíguo que não tive coragem de abrir ainda as malas. Acordei estremunhada, a sonhar que era pequena, molhava os lençóis e me ralhavam.
Pelo silêncio lá fora, julguei que fosse madrugada. Mas não, eram 21:30 e eu só pensava em comer.
Vesti o casaco à pressa, vi que estava de cabelo revirado e bochechas coradas do calor dos lençóis, olhos muito abertos por querer forçá-los ao despertar, mas saí mesmo assim, a cambalear.
Aprendi mais da geografia de Florença em uma hora sozinha, do que em dois dias acompanhada. Claro que é bom tirar fotos com os amigos, rir com os amigos, vê-los irem contra a montra da Zara, julgando que é a porta automática, enquanto assistes de fora e explodes em gargalhadas. Mas sozinha e sem qualquer mapa ou orientação, sem tomar atenção a placas ou ao google maps (estou praticamente sem internet até domingo), voltei à Piazza del Duomo. Sozinha, entendi a grandeza de aquela monumentalidade ser revestida em mármore. Contemplei os rendilhados na pedra branca, os nichos em delicado mármore rosa e a solidez do mármore verde a cruzá-lo na horizontal. Está um frio de rachar, pelo que foi a primeira vez que tremi de frio na rua. Preciso de um gorro, não trouxe nenhum.
Desemboquei na Piazza Signoria e vi a réplica do David de Michelangelo à porta do Palazzo. Como estou sozinha tomo atenção à numenclatura e olho para trás, a fim de tirar fotografias mentais ao sítio de onde vim. Está tão pouca gente na rua, comparativamente ao borburinho de há quatro horas, com tambores e cantorias, que sou um dos poucos gatos pingados a passar sob as galerias dos Gli Uffizi. Deito um olhar ao corredor Vasari, que os liga ao Palazzo por onde passei. Decido logo ali que vou lá de novo, ainda que o bilhete seja 16,50€, já tenha ido e esteja em contenção de custos. Lembro-me de como, aos dezasseis anos, acarinhava o sonho de trabalhar como guia neste museu específico, e em nenhum outro. Decidi que amanhã só como um panino, se tiver de ser. O importante é que a alma se alimente de arte.
Vejo Lorenzo o Magnífico e outras tantas personalidades ilustres nos nichos da galeria, com os nomes cinzelados aos pés. Vespucci, Petrarca, etc. Não se pode caminhar nestas ruas sem golpes de cultura a bafejar-nos a nuca.
E chego ao Arno, de onde se vê a Ponte Vecchio. Da última vez que aqui estive, por impossibilidades de internet, não pude ouvir a “O mio babbino caro”, do meu adorado Puccini, enquanto a contemplava, como queria. Desta vez já chego a ouvi-la, na voz da Maria Callas. A ponte agita-se à minha chegada – vira azul, terracota, depois enche-se das cores do arco-íris e depois ainda de estrelas. Sinto que me cumprimenta. A acompanhar as projecções de luz na ponte – celebrações natalícias ou do feriado, talvez – estão as notas de um piano indistinto. Desligo a minha música e deixo que o universo me diga o que devo ouvir. Afinal, nada acontece como imaginámos. É Ludovico Einaudi, e por outra vez sei que estou onde tenho de estar.

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