Il Viaggio in Rosa – Parte VIII

Firenze
O quarto é tão mau (claustrofóbico, frio, sem internet) que assim que lá entro me vem o sono e a vontade de me aninhar debaixo dos cobertores. Tive de planear a hora do banho, não é que fosse uma questão de preguiça. Estavam aí 10 graus dentro daquele quarto, pelo que pensei que por volta da uma da tarde estariam reunidas as melhores condições para empreender a dura tarefa. Só a essa hora tive coragem de me despir e de ir a estremecer de frio para dentro daquela casa-de-banho pejada de janelas, por onde correntes de ar invadem o quarto com facilidade. Além de que estou numa espécie de anfiteatro e vejo todas as janelas dos vizinhos abertas sobre ela. Mas o ilustre director desta espelunca nem sequer se deu ao trabalho de garantir a privacidade dos seus hóspedes: não há persianas. Ou seja: este hotel falha em tudo o que um hotel deveria ser. Nada de conforto, privacidade. Só se salva a limpeza.
De manhã desci ao primeiro andar, à única sala onde há internet, para tomar o pequeno-almoço incluído na tarifa. O mesmo consistia de dois pães duros de pacote de supermercado, e um pacotinho de duas tostas. Duas manteigas, uma máquina de sumos e uma de cafés. De modo que pus na cabeça que ia descer e encher a barriga na pastelaria da esquina, que é também restaurante e chocolataria. Mas depois pensei: olha para ti, para a voz dentro da tua cabeça. A queixares-te do quarto, do frio, da comida. Ao menos há quarto, umas poucas paredes e comida. Se é gourmet, não é. Mas se há quem esteja pior? Com certeza. Esqueçamos a gula até à hora de almoço.
Fui à Galeria dell’Accademia, ver o pedaço de mármore com cinco metros de altura que o Michelangelo esculpiu no início do séc. XVI para a Piazza della Signoria, aqui em Florença. Parece que, quando a obra ficou terminada, os florentinos ficaram tão orgulhosos que de imediato os arredores se agitaram em tom de peregrinação, para vir vê-la. Não se sabe bem se a escultura representa um David pré ou pós vencer Golias. Apenas se sabe que tem o cenho carregado, pelo que se lhe atribui uma intelectualidade que, em última instância, foi a causa do seu sucesso. Li numa das placas em redor que, quando o trabalho foi terminado e veio à luz, os comissionadores de arte e público em geral entendido na arte clássica e neo-clássica, como estava em voga na época, escreveu que não valia a pena perderem tempo a ver outros trabalhos de escultura. Aquele suplantava-os todos. E assim continua a ser. Havia uma exposição temporária sobre pintura medieval na galeria, além da exposição permanente. Muita escultura e retábulos, muitas Madonnas e muitos meninos Jesus. Paguei 16,50€ para ver as veias da mão e do braço direito de David. E valeu a pena.
Depois corri a cidade à procura de um amaciador de cabelo. Tenho andado com tanta electricidade estática agarrada a mim que em tudo o que toco há intercâmbio de energias. Apanho choques no telemóvel, quando carrega, nos puxadores metálicos, nas portas dos táxis, nos interruptores dos candeeiros. E sem amaciador tenho de pentear o cabelo 350 vezes, em vez de 175, para que possa sair com ele à rua sem ofender ninguém, o que me põe mais cheia de electricidade ainda. Então entrei num indiano e li os preços dos amaciadores de supermercado – Fructis, Ultra Dolce (Suave em PT) e Pantene. O mais barato, de 200ml, era 6,00€. Ri-me para a prateleira e vim-me embora. Duas ruas adiante encontro o supermercado que me indicou a recepcionista do meu hotel. Fui pagar 94 cêntimos a mais pelo mesmo produto, mas desta vez sem rir – bastante séria até. Compro sempre amaciador em promoção, porque nunca o deixo acabar. Há pelo menos dois anos que não pagava mais de 1,65€ por um amaciador. Fiz questão de dize-lo ao tipo da caixa. No decorrer do dia encontrei outro supermercado, mais perto do hotel ainda, onde o amaciador custava 4,90. Ainda caro, mas fiquei com vontade de avisar a moça para não dar mais indicações parvas a ninguém. Minha rica Spar – em 2013 tinha até o cartão da Spar italiana. Ficou em casa, juntamente com o cartão de saúde europeu e o cartão da maior rede de livrarias deles, que também fiz no ano do Senhor de 2013.
Vantagens de o hotel ser tão mau: estou sempre na rua. Almocei no restaurante da esquina (o que também é chocolataria) e provei pappardelle al cinghiale, isto é, massa com um refogado de javali e tomate. Sempre acompanhado de vinho tinto, pelo qual se paga no mínimo 5,00€  o copo. E o moço, que era bem parecido, loiro, barbudo e com uma certa ternura no olhar e nos gestos, a perguntar-me se queria Chianti. Por um instante, as palavras não ganho para beber Chianti quase me escaparam dos lábios. Depois pensei que o pior do meu dia já tinha passado – isto é, tinha acabado de tomar banho no túmulo que é a casa de banho do meu quarto, e devo ter-me demorado pelo menos quarenta minutos debaixo de água. Ao menos saía quente do cano, o que foi uma surpresa num sítio pelo qual não dou nada.
O amor (quase, porque não é amor) espreita a cada esquina. Os homens arriscam sempre que vêem uma mulher sozinha. Insinuam-se, tal e qual pavões. Ontem à noite, num café, um passarinhou ao meu redor. Veio trazer-me primeiro a pizza. Depois o guardanapo. Depois a coca-cola. Depois a palhinha. Depois um papelinho com a password do wifi. No papelinho demorou-se, só o largando quando levantei os olhos para ele. Por fim veio perguntar se faltava algo. Mexia-se de um modo tão teatral, sacudindo o cabelo e balançando as mãos, que pensei, sem sombra de dúvida, que este homem é homossexual mas ainda não o sabe. Quiçá saiba, mas talvez não seja tão fácil ser-se gay num país em que até a terceira idade te pisca o olho. Encenou o quebra-nozes no espaço entre a cristaleira e o balcão, e tanto dançou que quando o café esvaziou o patrão o mandou para o primeiro andar, arrumar as mesas para amanhã.
Os homens para os quais eu olho são sempre aqueles que, ou são tímidos, ou nem se detém. Geralmente têm uma aura de controlo ao redor, movem-se no seu espaço com confiança, sem trejeitos que denunciem insegurança ou desiquilíbrio. Não se atiram a mulheres – acho isso asqueroso. Nada de bom pode advir disso; talvez tenha de me sentir única. E esses homens fazem-te sentir mais uma ainda antes de te sorrirem pela primeira vez, porque já te seguiram os passos desde que bateste com a porta e o vento entrou contigo.
No restaurante onde almocei, por serem três da tarde, estava sozinha com outra italiana. A outra era mais velha e não entendia nada do telemóvel, pelo que ele, vestido de preto inclusive no avental, se inclinou para a conectar à internet. A mesa dela era mesmo em frente à minha, e de repente começa bossa nova. Oh, porque tudo é tão triste… E eu paro um momento, contenho um sorriso mas os meus olhos já tinham reconhecido as notas. Já me sentia um bocado em casa, porque não estava à espera de ouvir português ali. Mas nesses instantes em que ergo a sobrancelha e com os olhos prenhes de surpresa, ele olha para mim e eu para ele. E dura um instante mais do que o necessário, pelo que coro. Já não tenho idade para corar. Além disso ele é mais novo – e eu ando especialmente consciente da idade. Não lhe consigo olhar mais para a cara. Sempre que me pergunta se está tudo bem refugio-me no javali e na massa e no copo de vinho. Se não fosse o incidente do olhar indiscreto e poderia ficar ali mais um bocado, o restaurante é bonito e a italiana come massa com uma elegância nunca vista, enquanto eu calculava sempre mal a quantidade de massa que me cabe na boa e ia sentindo o molho pingar para o colo.
Mas tenho de ir, pelo que peço para pagar com cartão. Os dedos dele e os meus demoram-se na máquina, ambos quentes, e quase me desmancho numa gargalhada, porque me parece tão fácil. Não digo chegar ao âmago da pessoa, mas conhecer uma pessoa. Não digo despir a pessoa do que a torna consumível para a sociedade, mas dar um primeiro passo, um primeiro passeio, uma primeira troca de gostos pessoais. E quem sabe onde isso leva. Mas eu não deixo, nunca deixo. E nesse momento entendo que, quando as circunstâncias forem mais favoráveis, vou deixar. Está na hora de deixar, e com o tempo não brinco.
Vou à casa de banho ajeitar o gorro que comprei de manhã e olho-me. Não usei maquilhagem um dia que fosse, mas tenho dado um jeito ao cabelo, para evitar ter de lavá-lo diariamente. Está demasiado frio e electricidade estática no ar para isso. Ainda bem – penso, aliviada – ainda bem que ganhei forças para tomar aquele banho naquele quarto gelado antes de almoço, e ainda bem que ajeitei o cabelo, porque enquanto comia e lhe mexia desprendia-se o cheiro da baunilha e da alperce. E nunca se sabe quando podes conhecer o pai dos teus filhos.
Li mais um pouco, depois de almoço. Estou a adorar Steinbeck, impressiona-me a sua solenidade, o toque de feminilidade por entre homens tão robustos. Cito a passagem abaixo, que fala do único tipo de amor a um homem que conheço:
“ – Ignoro se há homens nascidos fora da Humanidade, ou se alguns deles são tão humanos que fazem os outros parecer irreais. Talvez uma divindade venha viver para a Terra, de vez em quando. O Joseph possui força sob uma visão confusa, tem a calma das montanhas e as suas emoções são tão selvagens, ferozes e vivas como os relâmpagos, e tão destituídas de racionalidade quanto eu me possa ter apercebido. Quando estiveres longe dele, tenta pensar nele e verás o que quero dizer com isto. A sua figura crescerá até se tornar enorme, até ser maior que as montanhas, e a sua força parecer-te-á o irresistível impulso do vento. O Benjy morreu. Não se consegue conceber o Joseph a morrer. Ele é eterno (…) Garanto-te que esse homem não é um homem, a não ser que seja todos os homens, e também toda a alegria e sofrimento, anulando-se um ao outro e mantendo-se, contudo, presentes.
(…) Os seus olhos baixaram e não largou a rapariga.
– Tu amas o meu marido – afirmou, em voz baixa e acusadora. – Tens-lhe amor, mas tens medo.”
De tarde saí, decidi que ia ver a exposição do Klimt e, de caminho, encontrei um cartaz a prometer um concerto com as mais belas árias da ópera para amanhã. Se conseguir bilhete, estarei presente. Fui até ao Auditório e disseram que tem de ser adquirido na hora.  É uma sala pequena. Também aí quase conheci outra pessoa, fosse esta a minha cidade. Estava ao cimo das escadas, hesitante em entrar e em fazer as mesmas perguntas que disparei à senhora que nos veio receber. Entramos juntos e ela fala a olhar ora para um, ora para outro. A dado momento o rapaz começa a sorrir para mim. Traz uma mochila no braço e aproveita-se das minhas respostas. Nunca lhe ouvi a voz, mas quando as explicações dela terminam, ele continua parado, como se agora nos virássemos um para o outro e ele dissesse: muito bem, que tal? Amanhã vimos? Rodo nos calcanhares e saio dali, fechando a porta atrás de mim antes que ele tenha tempo de se acercar dela e eu tenha de segurá-la para ele, como ele fez para mim, à entrada. Amanhã quem sabe o veja no concerto, mas é outro rapaz mais novo e eu não sou daqui. Será que estou a entrar num ciclo em que as almas solitárias encontram um caminho até à minha? Tenho de estar atenta.
A “Experiência Klimt” foi uma projecção dos quadros do artista austríaco que fez sucesso no início do século XX, portanto na Art Nouveau, no modernismo, no fechar da porta à Belle Époque. A acompanhar as suas mulheres – pensando nisso, pouco explorou a figura masculina – estalava a banda sonora. Distingui Beethovan, Carmina Murana, Strauss, Bach. Há uma imposição da maternidade e do que esse poder confere à mulher nos retratos do artista. Nunca vi bochechas ou auréolas mamárias com colorações mais enternecedoras.
E agora aqui estou, na sala gelada do pequeno-almoço, às escuras, com a sombra do piano vertical ao canto e todos os sentidos alerta, debruçada sobre a rua, onde os italianos ainda passam, ainda gritam, ainda festejam.
E não tenho dúvidas de onde vou almoçar amanhã.
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