Il Viaggio in Rosa – Parte IX

Firenze

Hoje não fiz turismo nenhum. Acordei por volta das 11:00, porque ontem fiquei a ler até às três da manhã. Terminei “A Um Deus Desconhecido” e fiquei pasmada por nunca ter dedicado um pensamento, na minha vida, a John Steinbeck. O Hotel continua a ser mau, pelo que de manhã peguei na roupa que tinha para lavar e fui até uma lavandaria daquelas automáticas. Estive lá sentada uma hora, a dar os primeiros toques no “Não te Mexas” da Mazzantini, em italiano. E depois pensei em como, não há um ano atrás, teria contornado a questão da roupa por lavar… Vestiria outras coisas, seguramente. Agora, apesar de ainda ter outras peças à escolha, não posso conceber andar a passear roupa suja. Talvez porque seja eu, por fim, a responsável das lavagens dos meus trapos.
À hora de almoço fui ao mesmo restaurante, e o loirinho barbudo vestido de preto estava lá. Foi uma colega que me atendeu, pareceu-me muito jovem e tinha um sorriso amoroso. Não quis dar nas vistas, porque a verdade é que fui lá porque a comida era boa e a um preço óptimo, fica por baixo do meu hotel e, como hóspede, tenho desconto de 10%. Tentei ser o mais discreta possível, até deixar cair o garfo. Nessa altura tive de ir ao balcão pedir outro, e a rapariga sorridente ajudou-me a descobrir como se diz (forchetto? Já não me lembro). Como eu não sabia a palavra, ela disse-me que achava que eu era mesmo italiana, e perguntou-me de onde era. Disse-lhe que sou Portuguesa, e ela apontou para o rapaz e disse:
– Olha só, fala melhor italiano do que tu.
E eu aproveitei para perguntar se ele não era italiano.
– Não, é da Albânia.
E ele, que estava debruçado no interior da cozinha, olhou para mim e disse-lhe, com secura:
– Ela não sabe onde é a Albânia, não é?
E eu, ainda a sorrir, admiti que não, mas que sei que é para leste.
Já depois de me sentar, lembrei-me que a Madre Teresa é de lá. Terminei a refeição e fui ao balcão, mal sabendo que apanharia três albaneses a quem fazer a mesma pergunta.
“Como é vista a Madre Teresa no vosso país?”. O loirinho olhou-me nos olhos: estranho que seja tão translúcida a sua pele e tão claros os seus olhos. Não sei porque me espantou. Disse que não entendia o que eu estava a querer saber. Depois veio a rapariginha, que me disse que não sabe se a Madre Teresa é da Albânia, e que como veio de lá aos dois anos, mal ouviu falar dela. Por fim vem outro rapaz, também jovem, de cabelo preto e olhos escuros, que me olha no fundo da alma e vejo uma boa dose de desencanto nesse gesto, e diz:
– Se acredito na Madre Teresa? Acredito no meu pai, na minha mãe e na minha irmã.
E venho-me embora, satisfeita.
[Estou no Auditório da Cassa di Risparmio de Florença, na via Folco Portinari, sentada perante um órgão gigantesco e um piano de cauda reluzente, e oiço o tenor e a soprano a aquecer a voz na sala adjacente, para lá da cortina. Reconheço uma ária do Carmen, trauteada. Uma voz assim é um dom, mas também muito trabalho. E então ele vem – Giorgio Casciarri –, e canta de casaco de veludo vermelho e lenço de seda no bolso, o cabelo espesso e grisalho com risco ao meio a agitar-se a cada trejeito de cabeça. La dona è mobile. Entra a soprano, Elena Cavallo, que nem dez minutos antes estava com um casaco de malha e uns óculos de fundo de garrafa, vestida de cetim vermelho e cheia de jóias.
Acontece um fenómeno do qual já me tinha apercebido quando vi a La Traviata e a Madame Butterfly. É como se já conhecesse as volutas da música. Talvez me sejam tão íntimas porque surgem em anúncios e coisas tais. Ou talvez me lembre delas de outras andanças, porque o certo é que são como estender a mão no escuro para a maçaneta do meu quarto: sei exactamente onde vai estar. Quase entro em taquicardia a cada vez que as vozes se elevam. Receio que lhes falhe uma nota. A dada altura, enquanto soprano e tenor estão a tossicar atrás da cortina e o pianista nos entretém, o velhote da fila da frente começa a falar em tom elogioso da soprano “è una bella ragazza, una bella ragazza“. Aposto que anda com um frasco de Viagra no bolso de dentro do casaco, para estar tão seguro de si perante os amigos.
Dou-me conta de que toda a gente dentro do pequeno auditório tem cabelos brancos. À minha excepção, todos têm mais de cinquenta anos. Na ária mais alegre da La Traviata, as senhoras da minha fila batem palmas silenciosas durante toda a cantoria. Vibram com isto. Na fila da frente está um italiano quase sem cabelo, mas que o tem pintado de preto e fraco na raíz. A seu lado está uma senhora que tropeçou e caiu de cara em manteiga de amendoim. Tem a cara cor de tijolo e os lábios rosa pálido. Ou é base ou fake tan levado ao extremo.
Sofro a cada vez que a soprano contém a voz, e depois quando a solta estremeço. Atinge agudos tão impossíveis que me chega a doer a cabeça. E terminam os dois com a O Sole Mio, para encanto dos espectadores.
Têm uma elegância em cada gesto que não se vê mais, por entre os jovens. Agora, além das calças de pintor, ouvem um reggaetton pesadíssimo no comboio. O som dos auriculares deles extravasa para os meus. Perdi os meus, a propósito. Ainda só perdi isso e um cabo USB: ontem um indiano tentou vender-me o cabo por 15€. Aproximei-me da banca dele na rua e estudei o cabo com interesse. Quando disparou o valor, pus-me a rir. Aquele cabo, novo, custa de 5,99€ a 9,99€, numa Fnac ou equivalente. Quando lhe disse para deixar estar, seguiu-me pela Porta Rossa a perguntar quanto eu queria pagar. Lascia perdere.
Por falar em ser roubada nos preços, além do champô a 6,94€, vi um pires a 306€. Bem discutido talvez me fizessem 300€. Cerâmica de Siena, sim senhor – até engolei em seco e de repente fiquei muito consciente da loiça que me rodeava naquele espaço exíguo, e de como tanto a minha mala como a máquina fotográfica ao ombro poderiam escaquear uma daquelas dispendiosas peças. Ontem paguei 10€ por uma fatia de pizza e uma coca-cola e, o pior, hoje, foi querer algo salgado e, depois de dar a volta ao quarteirão, entendi que só me restava a loja de waffles e gelados abertos àquela hora. Havia uns bolinhos sicilianos com recheio, chamados cannolli – pedi um desses. Larguei 6€ por uma espécie de éclair tão enjoativo que foi metade para o lixo. 
Faltam uns dias de trabalho em Roma, dois dias de lazer em Nápoles e estarei na minha casa. A primeira coisa que vou comer é sushi – nunca pensei, mas o meu corpo torce-se por um salmãozinho em soja. Mas isso será depois de sufocar um bocadinho a minha piccina gattina num abraço, que morro de saudades da minha mimadinha da dona.
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