Il Viaggio in Rosa – Parte X

Firenze – Roma

IMG_9979.JPG O hotel de Firenze é tão mau que fiquei feliz por sair da cidade. Com uma mala cheia de roupa lavada e outra com os apetrechos tecnológicos e a biblioteca que trouxe comigo, despedi-me com um último pequeno-almoço no Robiglio. Está cheio de panettoni e de bombons, mas não é por ser inverno que se vendem menos gelados na rua. Bebo um cappuccino e como um croissant. A espreitar-me das montras há bolos e mais bolos com creme. Quero um pão com manteiga, mas nesta pastelaria só se vê pães a envolver fiambre, queijo e prosciutto. A senhora traz-me manteiga, arranja-a não sei onde, porque os cafés daqui simplesmente não espalham manteiga em pães de manhã. Salumeria. Pasticceria. Osteria. Trattoria. Pizzeria. Gelateria. Panetteria. Estou a aprender.
A paisagem invernal seria quase depressiva, para lá da janela do Frecciarossa, e Ludovico Einaudi corrobora com isso. Mas estou demasiado feliz para isso. Demasiado tranquila. Estive uma hora à espera do comboio de alta velocidade, após a qual me sentei na carroça errada, mas no lugar certo. Tomei o lugar de uma jovem com o bebé. Depois tive que mudar, como é evidente. Se fizesse uma lista que odeio nas pessoas (é demasiado tentador), figuraria este item:
– Odeio pessoas que se sentam no lugar dos outros nos transportes, quando já há um lugar marcado.
E lá estava eu, num comboio de corredor apertado e atafulhadíssimo de malas e de casacos, a abrir caminho no meio do pêlo, do couro e das fivelas, para a carruagem a seguir. Detestei-me a mim própria por me ter posto nessa situação. Na carroça certa (o erro foi da 9 para a 10, mas poderia ter sido da 2 para a 10), descubro uma roqueira no meu lugar. Cabelo avermelhado, camisa de uma banda qualquer de metal, olhos ensonados. Teve de sair, e fiquei ainda mais irritada comigo mesma. Estava a dormir porque o comboio já ia em andamento. Estava confiante que até Roma iria no lugar escolhido.
Estou a pensar na passagem do tempo. Não agora, mas constantemente. Perante o azul leitoso da distância, das árvores despidas e do céu plácido, consagrada às Four Dimensons de Einaudi (comprei outros phones – mais uma sandes para o almoço) vejo o meu reflexo. Incomodam-me as formas do queixo quando o franzo. Incomoda-me o facto de estar magra e de isso resultar num peito plano e em covas no rosto e sob os olhos. No verão de 2013 já tinha engordado 7kg por esta altura.
Ontem vi o Venuto al Mondo, com a Penelope Cruz a fingir que é italiana e a falar inglês. Em ambas as línguas era traída pelo espanhol, e quanto mais passeava em Roma mais evidente me era que é espanhola. Até os penteados eram espanhóis, na minha opinião. Mas o filme é mais premente que isso: é sobre a guerra em Sarajevo, e sobre a maternidade no seu sentido mais amplo. Porque quererão as mulheres filhos? E porque, de repente, tenho tanto medo deles? Será que estou a tentar parar um comboio se alta velocidade antes que descarrile? Será que antevejo, adiante, a impossibilidade de ter uma família e comecei desde já a cultivar indiferença ou até irritação perante as crianças?
Sempre me imaginei rodeada de filhos. Sempre me imaginei a observá-los do canto, enquanto o irmão mais velho passa aos outros os ensinamentos dos pais quando não estamos a olhar. Sempre me imaginei a dizer-lhes que dividam o lanche e a falar-lhes do avô Américo e da avó Norvinda, porque não há outros de quem falar. Sempre me imaginei a dançar com o meu bebé lá por casa, descalça e desgrenhada, e era quase palpável o modo como a sua gargalhada me haveria de estimular a alma à alegria e à acção.
Agora não sei de nada. Há momentos em que, seja eu ou o cão preto a uivar de longe, me vem uma voz suspirada à têmpora: quem te dera.
E a certeza de que não.
Ao final da tarde, a partir da rua onde vou ficar nas próximas três noites, a cinco minutos a pé do Coliseu, tomei conhecimento de outra história desesperada de maternidade. Uma mulher jovem, bela, que admiro e cujo percurso de vida tenho acompanhado – ainda que à distância -, contou-me a respeito das dificuldades que teve. Primeiro em engravidar, depois em manter os bebés seguros no útero. O rol de noites mal dormidas, de pesadelos, de desconforto, até chegar ao ponto de não poder lavar o cabelo nem sequer tocar na barriga, e de ter de estar deitada sempre, excepto para ir à casa de banho, e de um duche ser para si um luxo. Conta os dias e as horas para que os bebés estejam fortes o suficiente para sair cá para fora, e entendi esse mundo de terror que ela está a viver. A maternidade é tanto luz quanto sombras, embora acredite que no final tudo valha a pena. É um sacrifício tremendo e difícil de imaginar se não tens os dedos certos entrelaçados nos teus.
Da última vez que estive em Roma, em 2013, tinha acabado de me apaixonar. Ainda não sabia que estava apaixonada. Talvez essa coisa volátil que é o encanto súbito dependa de um estímulo ou de um retorno. E eu tinha uns quantos olhares para acarinhar, mas também tinha 2000 km entre nós.
Lembrava-me de como, ao despedir-se de mim, me chamou a um canto da feira, guiando-me pelo braço. E eu tinha o meu vestido azul às bolinhas e a gabardina verde. Como italiano, tinha que reparar nesses pormenores. Depois disse-me, em tom de confidência, que era uma pena não termos tido tempo para falar melhor. Se tivesse insinuado qualquer coisa que fosse, qualquer cintilação rapace no olhar que não afecto e respeito, nunca mais lhe teria dedicado um pensamento. Se tivesse retorcido os lábios num esgar tipo “ainda temos quinze minutos e o hotel é aqui ao lado”, ter-se-iam varrido todos os preciosos momentos do nosso entendimento. Sou exigente, e ao mesmo tempo arrumada, e, para mim, amor é amor, encantamento é encantamento e sexo é sexo. Não convém travestir umas coisas doutras; nenhuma destas águas se pode misturar com azeites, e para cada estádio há uma série de requisitos. Ele preenchia os do encantamento, quase a roçar os do amor, mas sabíamos que não o era e nunca fingimos.
Não sabia, quando pedi a um português que me tirasse uma foto na Fontana di Trevi, que muito em breve estaria mergulhada até ao pescoço em areia movediça. Não sabia, quando olhei o Anjo da Paz na Basilica di Santa Maria degli Angeli e dei Martiri, que o anjo haveria de me amparar aí para me ir largar mais adiante, em queda livre.
E pensar que, enquanto dobrávamos a roupa nas malas, me disse: “Não, tu não gostavas de mim nessa altura. Quando entraste no táxi olhei para ti e nem sequer olhaste para trás”. E eu “Olhei sim, e quando olhei tu não estavas a olhar”. E não disse mais nada, apenas negou com a cabeça, como se desse desencontro de olhares se profetizasse o nosso futuro.
Olhando agora para trás, e tudo é mais claro com o tempo, talvez tenha de facto gostado de mim. E eu dei-lhe o que podia dar, e foi bonito. Foi bonito ter-lhe negado tantos beijos soprados no Skype, por achar o gesto ridículo, que, quando adormecemos lado a lado, lhos dei todos de seguida – “Não te mexas” (non ti muovere), uma dívida é uma dívida, ainda que o seja de beijos. E não te mexeste enquanto a paguei, contando-os um a um em italiano. E as tuas mãos em redor das minhas.
E agora pensar nas nossas idades? Eu tinha vinte e três e ele vinte e sete. E eu achava-o tão homem, tão digno, tão seguro de si – perante as inseguranças que me eram óbvias. Sabia sempre tudo, sobre tudo. Em todas as situações me depositei nos seus braços, porque sabia bem onde tínhamos começado e onde íamos acabar. Estava segura, ainda que debruçada sobre o abismo. Mas agora tenho eu e as pessoas ao meu redor esses mesmos vinte e sete anos. E não sabemos nada. Ou sinto como se nada soubéssemos.
Tudo isso serviu para que eu saiba que é possível. Que a magia acontece. Que um dia, sem nada esperares, um homem admirável pode vir sentar-se diante de mim, enquanto fumo um cigarro, e dizer, com a mesma seriedade com que o disseste:
“Que acontece se o amor da tua vida abominar fumadores?”
Roma continua tão bonita como sempre. Mais ainda. Sinto-me meio tosca a passear por estas ruas. Quando dou por mim, estou a pensar que esta é a cidade mais linda que já vi. Mas também pensei isso de Veneza, e depois de Siena, e, de modo mais contido, de Florença. É a luz. Em Roma, é o modo como a luz dourada dança por entre moderno e antigo, monumental e ruína. A cidade é uma recordação presente e incontornável de como tudo acaba. Nada é eterno – nem o poder dos homens mais poderosos do globo os salvou da traição, da doença, da morte. Engraçado que a chamem de eterna, quando Roma é a mais primordial prova de que tudo termina. O terrorismo parece aqui uma ameaça mais real do que nas outras cidades por onde passei. O senhor que me faz o check-in pede-me o bilhete de identidade e explica que as autoridades andam em cima dos turistas, por medo dos terroristas. A Via dei Fori Imperiali virou pedonal, não circula um único carro entre o Coliseu e a Piazza di Venezia, pelo que as pessoas circulam no meio da estrada, a tirar fotos a todos os ângulos da paisagem. Porém há vários soldados de arma à anca, como que barricados em redor de carros militares. Não me lembro de Roma assim.
O quarto é confortável, o wifi funciona mas o computador obriga a quarenta e cinco minutos por acção. Entre abrir o word e conseguir que o blogger funcione, demora-me isso ou mais. Desde a 21:30 que estou a tentar que o word funcione, e são 23:00. O word bloqueia, o browser bloqueia, o actualizador bloqueia, o youtube não me dá o linkpara incorporar videos, etc. E limpei esta carcaça de virus há dois dias – estava pejado deles, apesar de ser novo, ter a memória 99% vazia e só ter sido utilizado pelas minhas irmãs em jogos e tretas tais. Se tivesse um machado, já o teria reduzido em cacos.

Amanhã em dia de trabalho em Roma. Não me ocorre uma melhor cidade para trabalhar à segunda-feira, por si só giornata non grata.

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