Il Viaggio in Rosa – Parte XI

89ad1-img_6555O facto de não ser possível planear-se coisas em Itália prossegue – e reside aí parte do seu encanto. O dia começou no metro, com a máquina dos bilhetes para 48 horas a engolir uma nota de 20 euros. Depois, silêncio. Dois italianos discutiam a vida com a mama ao telefone, com o logo da empresa do metro na parka. Tive de perguntar, a dada altura, se algum dos dois estava de serviço. Expliquei o que se passou e ambos disseram que não tinham modo de abrir a máquina e de me devolver o dinheiro. Então mandaram-me para um terceiro elemento que, de mochila ao ombro, se preparava para sair da box. Disse para eu ligar para o número de apoio. O meu telefone português discordou. Então disse-me para preencher uma folha que me havia de fazer chegar o dinheiro. Fiz como me pediu, perdendo praticamente uma hora, nisto. Como tinha mesmo que comprar os bilhetes, gastei o resto dos trocos que tinha nos bilhetes e fiquei a zeros na carteira. Encontrar uma caixa multibanco aqui não é tão fácil como em Portugal – os alemães já me tinham elogiado essa comodidade. A senhora da loja de bolos onde fui comprar o pequeno-almoço para levar às pessoas que ia visitar não aceitava cartão. Corri o quarteirão até encontrar um banco. Entro, porque me dizem que há uma caixa no interior. Dirijo-me à mesma e, de trás do balcão, uma senhora grita que a máquina está sem dinheiro. Continuou a dar voltas no quarteirão até que compro os bolos. Uma caixinha de bolos e uma garrafa de vinho, e aí vou eu no meu caminho.

Passamos um bom bocado e somos três a comer por cinco ao almoço. Depois avisam-me que o metro é perigoso. É a segunda vez nesse dia que a White Flag, da Dido, toca em local público. Primeiro no restaurante e, quando desço as escadas para o metro, ressoa pelos túneis e labirintos. É daquelas canções “eh”, mas que de vez em quando volta a vir ter comigo. Quando troco de linha em Termini, vejo uma cena estranha: uma senhora grita “attenzione, attenzione!”, de dentro do metro, e do lado de fora, duas miúdas com aspecto de latinas (treze ou catorze anos, cabelo repuxado com gel e rabo de cavalo, lápis de lábios mais escuro que o batom em si), fazem-lhe o gesto com o dedo do meio. Vejo a senhora a bater na porta do metro, para ir atrás delas, mas o mesmo fecha-se.

Sento-me à espera do meu metro, e oiço uma voz ecoar por todo o espaço: Atenção, há carteiristas nesta estação. Cuidado com os vossos pertences. Primeiro em italiano, depois em inglês. Voltam a repetir tudo, até que dizem “Senhora Catherine X, por favor dirija-se à bilheteria”. O metro está cheio de carabinieri e de militares, e suponho que tenham apanhado logo os culpados e recuperado a mala com os documentos da senhora. Sentada, comentei o facto com uma italiana de gorro e um jovem de casaco de malha, que depois entraram comigo no metro e fomos a tagarelar por um bocado. A dado momento, ao estender a mão para se apoiar, vejo as unhas do homem. Ainda na lista de coisas que odeio nas pessoas:

Unhas; odeio unhas compridas, é nojento seja em que género for, mas num homem é mais ewwww ainda.

E recordo-me de ter visto um senhor de etnia asiática há dois dias, no comboio, com outro conjunto de unhas enormes e amareladas, e de como queria tirar dali a vista mas não conseguia, e me perguntava se seria moda ou desleixo.

Estava de ressaca por batatas fritas. A comida italiana é boa e internacionalmente famosa – isto é, quem não gosta de pasta al pomodoro?, mas estou a morrer por sushi, soja e batatas fritas. Batatas fritas nem sequer costumo comer na minha casa, mas apetece-me mesmo um bife com batatinhas. Isso em Portugal custa 6€, um bitoque. Aqui seria uns 25€, com uma bebida. Então bebi a minha segunda coca-cola do dia, empurrada para baixo com um hamburguer de frango e batatas fritas rançosas. Fico até enjoada de imaginar que comi aquilo, mas já não aguento mais pomodoro.

Uma segunda pessoa que visitei, de cachecol ao pescoço atrás da secretária, e com um modo muito vagaroso de falar, disse-me algo engraçado: diz que os italianos têm uma “deficiência” no que diz respeito a comida no estrangeiro. Que chegam a ser rudes e de mentalidade pouco aberta, e que às vezes ao fim de uma semana já choram por pasta. Pela minha experiência como guia, é bem assim. Fiquei surpreendida por ver um italiano de gema apresentar assim o seu povo quanto a patuscadas no exterior.

O governo italiano caiu, pelo que no telejornal só se falava de Quirinale e dos constituintes do novo governo. Também falei de emigração e imigração, hoje. É uma pena que a corrupção e a cunha (nepotismo) em vez do mérito comandem os estados sul-europeus. Quanto aos muitos estrangeiros que se vê na rua, é mais complexo ainda. Em todas as ruas há três ou quatro restaurantes de indianos (ou paquistaneses) e mais cinco ou seis lojas de conveniência dos mesmos. Há nepaleses (creio) e chineses e pessoas do Médio Oriente. Sou apologista de que devemos ir para onde pudermos estar melhores, que a vida é uma só. Mas… Estas pessoas que chegam cheias de sonhos a Itália – uma média de 500 imigrantes por dia, segundo me disseram, e que não têm trabalho, porque também a Itália sofre de desemprego, que lhes resta fazer? Há albaneses ajoelhados em cada canto em Florença e aqui, no cimo das escadas, no acesso ao metro, nas esquinas ventosas das muitas praças. E romenos, claro. O problema não é que sejam pessoas de onde são, porque a origem é a última coisa que importa. Importa que se insiram, de algum modo, na sociedade à qual chegam. Não digo abdicar do seu traje ou da sua religião – isso pouco me importa e muito menos me ofende. Mas, na Piazza del Duomo, em Florença, vi-os embrulharem os selfie sticks numa trouxa e desaparecerem pelas adjacentes assim que vieram os carabinieri. Não estão dentro “do sistema”, não contribuem para o sistema. Não cumprem, por vezes, os princípios básicos de respeito e legalidade para com os locais. E, perante a perspectiva de miséria, não virá também a criminalidade? Porque cada um é um consumidor de recursos, e num povo já de si em sufoco, torna-se insustentável. Por aqui me fico, porque de política nada entendo e de pessoas cada vez menos, também.

Vem-me à lembrança a feira dos ciganos em Almada, como a chamávamos nos anos noventa. Havia sempre imensas bugigangas à venda e eu, nos meus primeiros anos de vida, adorava andar por ali a aponta os tamagoshis, os jogos de argolas em água e bolhas, as Barbies desviadas da sua prateleira do Pão de Açúcar, sobre os panos coloridos daquelas pessoas de saias compridas e chinelos abertos. Mas eu vendia, não estava ali para comprar. Isto é, a minha mãe vendia, ou trocava coisas com os outros vendedores. E eu gostava das vozes altas, do clima de festa, e até da correria quando vinha “a bófia” e ela pegava em mim com um braço e na trouxa com o outro. A dado momento devo ter-me aborrecido daquilo, ou começado a ter vergonha. Entendi que era errado. Se a polícia não gostava era porque era errado. A mãe distraía-se com toda a gente, nunca me apertava a mão como deve ser. E, uma vez, a avó. A avó do outro lado da estrada, com a permanente no cabelo, o sorriso nas maçãs altas do rosto, e o queixo meio escondido na gola escura do casaco, de mala reluzente a tiracolo. Do outro lado da avenida, a avó. Abriu os braços num gesto irreflectido, e só depois olhou para um lado e para o outro a ver se vinham carros. Atirei-me em voo para ela – lembro-me da sensação de alegria a pressionar-me os tímpanos, de ela significar luz e segurança. Atravessei a avenida em corrida, a vê-la empalidecer do outro lado e a ouvir os gritos da minha mãe atrás de mim. Anos depois ainda haviam de falar disso. A avó conta sempre que eu estava doente e de olhos febris, que estava frio e que não tinha culpa se eu entrava em êxtase quando a via. A mãe, por sua vez, contava que a avó tinha feito uma coisa estúpida, que não se chama assim uma criança do outro lado de uma avenida, que podia ter acabado mal. Mas não importa, era a avó. E a avó ia tirar-me dessas pessoas que falavam alto e das corridas quando vinha o carro com as luzes giratórias, para irmos dispor tudo sobre o trapo mais adiante na mesma rua, quando a ameaça passasse. E depois, suspensa do braço dela, a brincar com a aliança de casamento dela, dizia “por favor”, e a mãe, que entretanto nos alcançara, a insistir para que eu ficasse, porque ainda há poucos dias tinha vindo da avó. “Lembras-te? Ainda agora vieste de lá”. “Quero ir para casa, por favor”. E a mãe, um tanto contrariada, acabava por me libertar dessas curtas férias consigo – porque para mim, estar com ela era uma fuga à rotina – e eu dava a mão à avó. Íamos embora, de costas para a feira, de costas para os feirantes, de costas para a mãe. E, quem sabe, enquanto eu apontava os bolinhos que queria levar connosco na montra do Páscoa, a mãe inventava meias-verdades para explicar aos amigos barulhentos porque é que eu a preteria sempre. Se calhar dizia que eu estava a ficar doente. Ou que me ia buscar mais logo porque eu estava cansada. Não sei. Até hoje, nunca tinha posto a hipótese de poder ter partido o coração à minha mãe.

E por aqui me fico, porque amanhã é o último dia em Roma e nem todos os dias são tão inspiradores quanto isso. Porém ri, sinto que fiz dois amigos e falei, falei, falei italiano. E é bom chegar a “casa” ao final de um dia de trabalho, e casa ser a estação de metro do Colosseo (a que me comeu 20€ de manhã).

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