Il Viaggio in Rosa – Parte XII e XIII

Roma – Napoli

Napoli – Roma

Nos últimos dois dias encontrei uma família em Nápoles. A história não deve ser muito diferente das dos outros italianos do sul. Trabalharam, trabalharam, trabalharam. Agora estão a colher os frutos de um bom coração e dessa vida árdua.

A ideia que tinha de Nápoles era a de um filme de terror. Que seria assaltada, que me roubariam um rim, que teríamos de abrir caminho por entre lixo para andar nas ruas, e que numa via com uma faixa passariam, lado a lado, dois carros, duas motas e uma bicicleta.

A melancolia de que fala a “O Sole Mio” faz sentido, agora. Os napolitanos têm orgulho em dizer que pertencem ao Reino das duas Sicílias. O património que ficou dessa era é, ainda hoje, imenso. Entre outras coisas, há a visitar um palácio tão grande quanto o de Versailles, e com jardins tão garbosos quanto esses. Esta família – composta de pai, mãe, dois filhos e um cão amoroso, que espeta as orelhas quando ouve a palavra “gato”, introduziram-me à cidade. Mas Nápoles começou pelo caminho, quando, no comboio, uma mulher com uns extraordinários olhos azuis – e sem maquilhagem, o que é digno de se mencionar em Itália -, se sentou à minha frente, me ajudou a alçar as malas para o comportamento sobre os bancos e se pôs a perguntar-me coisas sem conter nenhuma curiosidade. A dado ponto contou-me que estava há cinco anos com um homem que tinha uma vida paralela. A história não é nova, mas ainda impressiona. Cinco anos? Meia década e foi tudo mentira?

Trocámos contactos e só na estação, quando esperávamos a minha família napolitana, é que dissémos o nome uma à outra.

Entretanto chegou a família napolitana – pai e filho, e fizeram um passeio panorâmico das vias e praças principais de Nápoles debaixo de um sol condescendente – o mesmo que ilumina as vielas de Roma. Palácios, carros e obras com fartura.

Cheguei a casa e reencontrei a mãe e conheci o cão, e, como me perguntavam constantemente se tinha medo de cães, pensei que fosse enorme. É um jack russell acima do peso e chamado, a propósito, Jack. Parecia sempre triste, e com o passar das horas entendi que a sua tristeza deriva de sofrer por antecipação. Assim que algum membro da família mete um casaco sobre os ombros, começa a tremer. Entra e sai de casa tantas vezes ao dia que, segundo o dono, precisa de um porteiro para lhe abrir a porta do terraço.

A mãe é una vera donna italiana. Cabelos compridos, encaracolados e vistosos, unhas tratadas e elegância natural. Não sai de casa sem se pintar e é toda ela um coração grande e pulsante que às vezes te segura a mão para a aquecer.

Durante as horas que passámos sentadas à beira do fogão, entendi que a sua vida não é fácil e, antes que o planeasse, contei-lhe um pouco da minha também.

Bebemos café, comemos mozzarella de búfala, ricotta suavíssima, presunto e um pão tão fofo que nunca tinha provado igual. Como têm um terreno cultivado perto de casa, os ovos são caseiros, bem como a fruta, e como é Natal há saquinhos de frutos secos e chocolates arrumados num cesto. A árvore de Natal tem pelo menos dois metros farfalhudos de ramagens plenas de decoração, entre elas bolinhas de cada viagem que fizeram. Nova Iorque, Budapeste, Peru, etc. Vivem bem – mesmo muito bem, porque se perde a conta ao número de carros que têm na garagem, a casa é um palácio cheio de tesouros – incluindo um piano vertical reluzente -, e num raio de 1km em torno da casa, tudo lhes pertence. Alugam lojas a chineses, apartamentos a locais, mas o coração do negócio da família é a oficina onde recebem camiões. Mas esta família com posses tem as suas regras e não esbanja dinheiro, os filhos não têm Playstation, não há empregada a limpar a casa (é o filho com sindrome de Down que sabe exactamente onde está o aspirador e a corre todos os dias). Um estuda engenharia aero-espacial, porque em pequeno não teve bonecos inúteis mas sim castelos de lego com que se entreter, e adorava montar e desmontar veículos, e o outro, a seu ritmo, há-de diplomar-se em piano-forte depois de mais de dez anos de prática.

A casa parece de revista e é esta mulher de cabelos cuidados e unhas arranjadas que lava a chávena do café, lava e estende a roupa, põe e tira a mesa. Não se vê um grão de pó em uma das trinta peças de cerâmica expostas, ou no piano, ou nas molduras, ou nos sofás de pele. E não se vê um pêlo do cão nos tapetes, no chão ou no sofá, ainda que ele ande por onde entende. Por falar no cão, não come ração de compra: come legumes (cenoura e brócolos) sob molho de carne, e, quando há frango come franguinho desfiado e ignorado pelos convivas. Uma organização e uma simplicidade como nunca tinha visto.

Levam-me à igreja, às 18:00, que é o ponto de encontro para eu rever o grupo de vinte e oito pessoas que guiei em Agosto, e estava sinceramente convencida que estas pessoas não sairiam das suas casas numa noite fria de Dezembro para verem a rapariga que tantas facadas impingiu ao seu amado Italiano (repensando, talvez amem mais o dialecto napolitano, porque a cada mudança subtil de humor vêm as palavras que não entendo, capit?).

Vêm pelo menos vinte pessoas. Eram tantos, não me recordo de todos os rostos. Mas eram o poeta Benedetto, o casal que descia do autocarro, metia o chapéu na cabeça e a máquina ao pescoço e acenavam um adeus, até já, vamos explorar por nós e à hora combinada cá estaremos. Eram a senhora de olhos azuis, que afinal é dona de uma pizzaria para a qual nos dirigimos após a missa. Eram o casal cujo marido, de olhos azuis e rosto corado, cerrava os olhos para ver em redor. Eram o outro, também de olhos azuis e sorridente, que me perguntava toda a espécie de coisas em dialecto, só para me ver desorientada e se rir às gargalhadas depois. Eram a Amália italiana, que abriu a blusa na casa de banho e me mostrou a cicatriz da operação ao coração, quase todo ele mecânico agora, e que me disse: tinha dez porcento de possibilidades de sobrevivência, e fui operada no dia da Nossa Senhora de Fátima e sobrevivi.

Insomma, eram todas as pessoas que choraram quando os nossos sete dias juntos acabaram e os deixei no aeroporto, mais o padre que era jovem mas com um coração enorme. Todos juntos fizeram-me fixar a Ave Maria em Italiano, porque a recitaram tantas vezes em coro.

Na pizzaria vinham pizzas atrás de pizzas, as pessoas tocavam-me, sorriam, diziam que nunca pensaram que eu cumprisse a promessa de ir a Nápoles. Abraçavam-me, desejavam-me tudo de bom da vida. Diziam que ainda querem entender a receita de bacalhau e que ainda querem voltar a Lisboa. Deram-me presentes e sorrisos.

Depois, no dia seguinte, fui a Pompeia com a Amália italiana, que me diz que não se sente à vontade por passear sozinha. Tem medo, e como o companheiro não se interessa por nada, tem sessenta e seis anos e nunca tinha ido a Pompeia, a 25km da sua casa.

Leu tudo sobre o local antes de chegar, e quando entendi que o cartão de memória da minha máquina tinha ficado no portátil, discutiu com bravura com o árabe das bancas em frente à bilheteira, que mo queria fazer por 12€. Ela conseguiu 10€. Ele disse umas quantas coisas que me fez entender que, fosse isto Marrocos, também ele teria negociado com ela a minha pessoa: dois camelos em vez de quatro.

No horizonte pompeano, o Vesúvio. O Vesúvio que, em 1944, escorreu sobre Nápoles e fez chover cinzas e fumos tóxicos sobre Nápoles. E a Amália pulava no pavimento irregular e falava sobre três temas em simultâneo, sendo os mais importantes: “porque é que não quiseste discutir mais o preço?” e, crucial, “são 10:00, a que horas queres almoçar?”, e “onde será o auto grill, para quando a hora de almoço chegar?”. Sempre sob o receio de um almoço indigesto, comentou o desastre de Pompeia, o vermelho pompeano e os canais de água/estradas de Pompeia. A dado momento vimos um rapaz ruivo a passar sozinho, e pedimos-lhe que nos tirasse umas fotos. Apesar de ser meio da manhã, ela perguntou-lhe onde era o auto-grill, pelo sim pelo não. E ele explicou. Entenderam que eram ambos napolitanos e digladiaram-se no dialecto por um momento, como se discutissem, só que riam. Por fim, divagámos mais um bocado e acabámos por ver de novo o moço, que nos seguia na mesma rua. Ela começa a dizer que está com receio. Que queimaram um andar inteiro do palácio onde vive para abrir o cofre de uma vizinha, e que nem valeu a pena porque em dinheiro e jóias a vizinha só tinha uns 25 mil euros. A casa valia uns 200 mil e desapareceu, o quarto ficou feito em cinzas empastadas em água, fotografias, objectos pessoais, tudo se perdeu.

Entrámos numa das portas abertas ao longo das muitas ruas de Pompeia, que me pareceu pelo menos da dimensão da Baixa Pompalina, da Praça do Comércio ao Rossio, do Chiado à Rua da Madalena. Quando estávamos a sair, surge o ruivo de novo, recua e sai connosco. Caminha a nosso lado, embora nós no passeio e ele no meio da estrada. A Amália sussurra-me que não lhe agrada que o napolitano tenha voltado para trás por causa de nós, mesmo porque depois de lhe pedirmos direcções o dispensámos da maneira educada. Disse que as pessoas em Nápoles, por desespero ou por carácter, são capazes de tudo para roubar 20€ de uma carteira. A dado momento o rapaz pára e aponta para a sua direita. Anuncia que o seu trabalho está feito, o restaurante é ali. Agora vai trabalhar. Despede-se e segue na direcção oposta. E a Amália olha para mim, desconcertada, e diz que o mundo está num ponto em que ninguém se fia no bem, por recear o mal. E amar é, mais do que nunca, uma prova de fé. A fé, porém, não tem abundado.

A dado momento vem uma rapariga com ar asiático e lenço na cabeça pedir-nos para lhe tirarmos uma foto. Só fala inglês e parece ansiosa por algum contacto humano. Era da Malásia e estuda em Amsterdão. Nenhuma amiga quis vir, ela veio sozinha. Disse-me, muito rápido, que as limitações dos outros (tempo, dinheiro, interesse) não devem ser as nossas, e que a vida é uma só e breve. Vai viver tudo o que puder viver à medida que as oportunidades forem surgindo. Abraçámo-nos e cada uma seguiu o seu caminho. Fiz ver à Amalia que, se uma jovem muçulmana, num momento destes, tem coragem de ser livre e andar por aí sozinha, ela ainda está a tempo de conseguir.

Voltámos para Nápoles e para mais uma refeição. Desta vez no seio da família napolitana, e foi frango no churrasco, batatas no forno e salada, quase como estar em Portugal. À noite meteram-se os senhores de acordo para me mostrarem Nápoles, e a vista da baía iluminada é soberba. Mostraram-me “i bassi napoletani”, que são as tais casas sem condições, e o antigo palácio real, o porto onde chegam os cruzeiros, a maior árvore de Natal do mundo. Fiquei a saber que o primeiro troço ferroviário do mundo foi inaugurado em Nápoles pelos Bourbón, que a ocupavam mas a mantinham grandiosa.

Na sexta saímos cedo, depois de mais um cappuccino e uma fatia de crostata com doce caseiro. O Jack veio connosco, pela trela, e quis vir sentado aos meus pés, no carro. Fomos ao centro histórico, experimentar uma casa de café que o faz com chocolate kinder, com avelãs, com isto, com aquilo. As chávenas estão mergulhadas em água quente. É tudo a escaldar, por cá. Mantive a bolsa junto ao corpo mas levava a máquina ao pescoço, fui fotografando a rua San Gregorio Armeno, onde abundam artesãos que, todo o ano, trabalham em presépios. Estrutas enormes com fornecimento de água e electricidade servem de base. Depois vende-se uma miríede de figuras à parte. Passámos por galerias com peixe fresco na rua, fruta e vegetais com abundância. Toranjas, figos e frutos secos, pastelaria que inspirou decerto a nossa, à base de massa folhada e doce de ovos, além do famoso Babá, mergulhado em rum.

Há imensa gente a pedir dinheiro nas ruas. Uma coisa… bagh. Andas pela rua, se pareces perdido atiram-se para a tua frente. “Procura a capela de San Savero? É aqui à esquerda”, e bloqueiam o cruzamento (a dois passos da capela, não é que sejam úteis), e só passas se largares a moeda no copo de plástico.

Il Cristo Velato é de facto algo de sublime do ponto de vista escultórico. Não entendo de escultura como de pintura, mas havia trabalhos em mámore a imitar rede de pescadores e renda nas figuras da capela de San Savero. E, no centro, estendido e com uma veia (quase) pulsante na fronte, o famoso Cristo. O movimento do véu, a depressão das formas do seu rosto e a concavidade das chagas nas costas das mãos são admiráveis. Transmite sofrimento, humanidade. Como o Jack não podia entrar, esperei cá fora enquanto mãe e filho foram admirar o Cristo que há tanto tempo não olhavam, e o pobre Jack esteve sempre atento à porta, assolado por tremeliques, a julgar-se abandonado.

Em seguida uma exposição de pintores famosíssimos de Nápoles ou que trabalharam em Nápoles, dos quais sobressaem Tiziano, Giordano, Caravaggio. Vi um quadro do sec. XVIII lindíssimo sobre os templos de Paestum, tão grandiosos quanto a Acrópole de Atenas e seus contemporâneos. Mais um motivo para regressar a Nápoles, porque não houve tempo de vê-los ao vivo.

No regresso a casa, a partir do centro de Nápoles, houve o episódio clássico que demonstra a ideia que o mundo tem dos italianos, e que aqui confere. Numa rua apertadíssima (todas as ruas são apertadas), um Smart queria ultrapassar o Land Rover tipo nave espacial em que viajávamos. Tanto buzinou que a brava donna que me guiava parou o carro, desceu, e mandou uns quantos berros à de trás. “Sai cosa vuol dire stare rotto? Mi hai proprio rotto!”, suponho que queira dizer que estava farta da outra. Foi tão inevitável que só pude sorrir. Medo, nunca senti.

Comemos uns gnocchi alla sorrentina (com molho de tomate e mozzarella de Sorrento) maravilhosos ao almoço e anunciam-me que vamos subir à cratera do Vesúvio. Creio que o teríamos feito, se ao chegar próximos dos 1200m de altitude do mesmo não estivesse a estrada coberta de gelo, e não fizessem um graus. Não levava luvas, pelo que as mãos me congelaram instantaneamente. Tirei duas fotos, caminhando sobre terra fina e quase preta, e o senhor que nos acompanhou mostrou o rasto da última lava que o Vesuvio verteu, em 44. Depois descemos de novo, aqui sim, perante rodos de lixo de cada lado da estrada, ainda que seja uma reserva natural. Têm um humor tão único que o condutor me dizia: por isso já sabes, se o Vesúvio acordar vem escavar-nos, ficas com outra Pompeia. E ríamos.

Voltei a abrir as malas algumas vezes, porque me ofereciam comida (bombons, biscoitos), e vieram todos levar-me à estação. Custou despedir-me de cada um deles, até do cão.

O tempo voou até ser hora do meu comboio, e quando dou por mim estou num “hotel” em Roma, com um senhor do Bangladesh no frontdesk a ver tv, uma barata na parede da casa de banho, o autoclismo desmontado e a novela que ele vê a ressoar muito alto no corredor. É isto, Itália. Tudo ou nada.

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