Carta aos meus filhos #103

Hoje fiz a árvore de Natal depois de dois dias de compras intensos, em que os presentes estão para ali por embrulhar e a conta já tem três cifras. Se é época de consumismo extremo? Sem dúvida. Mas não só.

Para mim, o Natal não é algo religioso. É cultural. Creio que para a maioria das pessoas é assim – embora seja mais grave se forem católicos/cristãos. É difícil focar-me na história de uma criança que nasceu de uma família em êxodo, cuja fecundação se deu por meio de sofro divino. E que essa criança seria filha do Criador, e que todo este ritual de presépio de de luzes e de troca de presentes é em honra de um homem que acabou abandonado pelo pai, pregado pelos romanos numa cruz, e com a mãe em pranto aos pés. Não se ofendam se para mim a Bíblia é uma Epopeia. Um “Senhor dos Anéis em Duas Partes”. E, como história com final infeliz, gosto do seu conteúdo e das suas lições e do seu desfecho. O que não posso abraçar é o culto das escrituras. Assim como não passaria três horas no Almada Forum a comprar bolo, velas, árvore e luzes e fitas e pinhas e estrelas, no dia 31 de Julho só porque o Harry Potter nasceu. E eu adoro o Harry Potter… Pronto, posso estar já a entrar no campo do ofensiva, mas acho que os cristãos, enquanto se lambuzam de azevias, pouco ou nada pensam em Cristo.

Houve uma altura em que detestei o Natal: foi uma altura em que me custava a lidar com a hipocrisia e em que o associava a religião e a fingir-se um afecto que não se tem pelos outros. Nem queria fazer árvore, e também como raramente tinha algum embrulho para abrir, não sentia falta do ritual por nenhum dos seus prismas.

Mas porque qualquer cristão o diz: o Natal é para as crianças (no modo menos religioso possível), comecei a tirar um prazer enorme do Natal a partir do momento em que vi que posso trazer alguma satisfação aos outros. Não é por mim que passo o dia 24 todo na cozinha há já alguns anos. Não é por mim que gasto uma fortuna em presentes – mais porque só irmãos somos cinco do que porque compre coisas dispendiosas. É pelas minhas irmãs. Sobretudo pela Ana, que este ano pegou nos trocos que poupou durante o ano e comprou presentes para todos. Mais pelo meu irmão que tem um filho e que precisa que a família coopere para que seja uma altura de ouro para o seu menino.

O Natal é-me, agora, uma época de paz e de amor. De perdoar, de dar tréguas – nem sempre, porém -, de acrescentar mais isto e mais isto ao carrinho porque aquela pessoa nos é, de algum modo, querida. Acho que posso celebrá-lo, sendo agnóstica. Nunca tinha sequer pensado nisso, de tão enraizado que está na nossa cultura, até alguém de outra religião mo mencionar hoje.

O que realmente me interessa no Natal são os momentos de conforto em que estou estendida no sofá com as mantas e a árvore de Natal a cintilar. Apago as luzes e oiço a minha cantiga favorita da quadra: Silent Night. Holy night. Para mim, não porque alguém nasceu, mas porque os nossos corações se enchem da satisfação de estarmos todos a esforçarmo-nos para que tudo corra bem e para que todos estejamos igualmente satisfeitos nessa noite. E porque se fazem pequenos sacrifícios (ainda que financeiros) a fim de vermos o outro sorrir.

E até o Grinch cinzento que me destrói a árvore e a derruba sobre o sofá quando vemos televisão distraídos, já entendeu que passada a febre dos centros comerciais (das bolinhas a reluzir nos ramos e a cair com estrondo) é hora de me subir para o colo e se enroscar, porque está frio lá hora e está-se tão bem aqui…

E, um dia, quando vocês chegarem, não pensem que o Natal será tempo de receberem grandes consolas ou ténis de marca ou cheques chorudos. Devem detestar o facto de vos oferecer livros e talvez bilhetes de avião e bilhetes para o zoo e museus e concertos e vinis do Nat King Cole. Prefeririam algo mais normal – uma enxorrada de presentes sem alma mas custosos, talvez. Mas acho que temos de oferecer algo que enriqueça o outro, ou que lhe dê prazer sem o prejudicar demasiado (como chocolates).

Vamos ter uma árvore enorme. Se o vosso pai for cristão, e se se interessar por rituais do género,  talvez eu vos vista pulovers vermelhos e verdes e vá convosco à Missa do Galo, e nessa noite, só aí, vou manter-me silenciosa quanto a reparos ideológicos.

Como detesto desperdício, a ementa vai ser sempre bem pensada para que não se deite comida pelos olhos e pelo cano abaixo. E quando for hora de abrir os presentes, vão sentar-se no meu colo e no do papá (proíbo-o de se vestir de Pai Natal!) e vão voar lacinhos e fitas e celofane. E só nessa noite vão poder brincar atá tarde, sobre o tapete, só com as luzinhas da árvore a iluminar-vos as brincadeiras. Amo-vos já tanto, e aos vossos pijaminhas natalícios e aos vossos pés pequeninos dentro das meias anti-derrapantes…

E, se for sortuda, todos os anos o vosso pai me vai dar um frasco de Coco Mademoiselle e todos os anos eu lhe vou dar algo que identifique sempre com ele. Como se renovando o frasco se renovasse também o amor.

Vou ser tão, mas tão feliz nessa altura…

🎄

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3 thoughts on “Carta aos meus filhos #103

  1. Olá Célia!

    Eu adoro estes teus textos. Por detrás de uma simplicidade de palavras está uma enorme sensibilidade.
    Também eu já andei “zangada” com o Natal. Não é que tenha feito completamente as pazes, mas quando há pessoas significativas à mistura, acabamos sempre com outro olhar sobre o mesmo.
    Também sou contra o consumismo, daí achar que o mais importante é dar coisas simbólicas e que tenham algum significado. É o que eu ofereço. Aliás, algumas coisas até são feitas por mim.
    Tenho uma amiga que me apresentou a religião dela. De algumas discussões que fomos tendo ela dizia sempre que nós é que deturpamos os valores das diferentes religiões. Todas têm a mesma base: amor, respeito pelo próximo, solidariedade, paz, partilha… Adorava discutir com ela estas coisas, já que sou curiosa por natureza.
    Se os teus sonhos passam por aquilo que descreves na carta, espero, de coração, que os consigas realizar.
    Um feliz Natal para ti e para toda a tua enorme família. Que seja uma altura de paz, partilha, amor… Coisas boas que se devem espalhar ao longo de cada dia de 2017.
    Beijinhos
    Silvana

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