Quase filha

Ainda sobre as crianças…


Eu tive uma infância maravilhosaComi terra – e ainda sei ao que a terra sabe. Brinquei aos gangues de bandidos – e, como líder do gangue aqui da rua, molhei os filhos das vizinhas com a pistola de água e vieram pedir safisfações. Fiz equilibrismo em cima dos muros – e caí numa roseira, mas a pior parte foi ter de apresentar-me de pernas crivadas de espinhos perante a avó. Perdi a conta ao número de vezes que saltei para um muro de dois metros e meio de altura, e que me ergui acima dele só com a força dos braços, para ir comer bombons para casa da dona Hermínia. Uma vez até roubei uma série de bombons na casa da tia e trouxe-os nas collants comigo – teria o quê? Uns sete anos? Tinha o meu vestido de xadrez. A avó protegeu-me? Encobriu? Não, arrastou-me de volta ao local do crime e fez-me esvaziar as meias. Nunca tirei os olhos do chão, mas a lição estava aprendida.

Perdi a conta também ao número de vezes que apareci de joelhos esfolados e de canelas rasgadas, e de como a avó se sentava na beira da banheira a limpar-me com algodão e tintura de iodo, a resmungar e a assoprar. Nunca usei chapéu, mas ela bem tentava. Acendia o fogareiro no quintal e fiz sopas nojentas – a minha irmã de dez anos não sabe acender um fósforo. Construí casas de bonecas em que as paredes eram o espólio de cassetes que algum vizinho veio trazer. Dissequei pardais que encontrava mortos (ewww). Carreguei o cheiro das carochas na ponta dos dedos. Enterrei gatinhos bebés em toalhas de bidé quando não vingavam. Colhi jarros-de-leite em terrenos prenhes de urtigas. Sustive a respiração para as urtigas não picarem. Joguei (mal) ao berlinde. Joguei à cabra-cega e ao outro jogo (só me lembro do nome em espanhol: Rayuela). Fingi que era professora e pintei a porta toda com giz. Cortei o meu próprio cabelo e rapei uma sobrancelha. Desfiz as minhas roupas porque não gostava das mangas ou dos bolsos. Apropriei-me do eyeliner da mãe e esborratei uma pálpebra. E ela o que fez? Limpou, papagueou? Não, disse que enquanto não saísse por si iria apresentar-me na rua como um panda.
Cosi vestidos para as bonecas – obrigada, avó, porque me deixaste manejar a agulha aos sete e oito anos para coser – se me picasse “também não me saía por ali a tripa”. Andei de bicicleta e rasguei as palmas das mãos no alcatrão. Brinquei muito na rua, sem me afastar do espaço que era sagrado, e mergulhei as Barbies no tanque até aos cotovelos. Quando andava na primária já ia fazer recados. Ia comprar um kilo de café – Super Maravilha, o favorito da avó -, e ia ao lugar da esquina buscar farinha e pão e açúcar. Ia comprar tabaco para o pai.
E a avó, apesar do medo do que me pudesse acontecer, e de que me constipasse, ou que partisse uma perna, ou que rachasse a cabeça, ou que me enganassem nos trocos, sempre me deixou ir.
E agora? Porque não deixa que a mais nova faça o mesmo? Em parte, a pequena não tem com quem brincar… As ruas estão despovoadas de crianças, pobre Ana, sempre a brincar sozinha com a casinha de bonecas e as tralhas, porque à tecnologia não lhe damos acesso e os miúdos ali da rua estão no tablet, parece que os pais acham que os filhos estão melhor onde os puderem ver. Em parte, é porque a avó acha que o mundo está pior. Mas estará mesmo? Não haveria mais impunidade antes da era da videovigilância? A mana também não tem o irmão mais novo um ano e meio que eu tive, e com quem brincava às presas e ao predador, e com quem andava sempre a imitar os moves da Lara Croft e das personagens do Dragon Ball… E se eu fingia que era a professora, ele era convocado para fazer de aluno.
Então a Ana lê, porque Facebook nem pensar. Quando a vida dela se voltar para as selfies e para o boomerang todo o resto desvanece, e já é tão pouco de bom… (como o arbusto de madressilva…). É importante que seja criança o máximo de tempo possível.

Queria que ela caminhasse da escola (nem 2km) até casa, mas não há quase miúdos a vir a pé, e sozinha, sozinha, não a queremos. Porque não se organizam os pais e dão aos filhos essa oportunidade de rirem e caminharem juntos até casa, pelo menos? De explorarem um pouco da cidade por si? De atravessarem no verde e na passadeira e de se sentirem capazes e dominantes face ao que os rodeia?

Então a Ana estuda Geografia – e quando a deixo um pouco no pc, ora joga a coisas de miúdas ora pesquisa por mapas. Abre os livros e segue as fronteiras com os dedos. E a Ana lê – aos dez anos já despachou quatro volumes e meio do Harry Potter. E a Ana não gosta do Trump – e se lhe perguntarem porquê ela vai dizer que é o presidente dos Estados Unidos e que só diz disparates. Talvez enumere um ou outro.

E a Ana pede bonecos. É normal, é uma criança. Pouco depois do Natal fomos ao centro comercial e olhou com ar de gato das botas para uma bugiganga qualquer… e por um instante ouvi a vozinha que deve tentar muitos pais: “tens aí dinheiro, dá lá essa alegria à miúda”. Mas isso é fácil e com o tempo ela ia ficar insatisfeita. Então pensei cá para comigo que o Natal acabou de passar e que é importante que saiba que não podemos ter tudo o que queremos… E é por isso que temos a nossa recompensa também, porque quando abriu as prendas de Natal (as possíveis e razoáveis) estava exultante e agradeceu condignamente. Tem dado uso ao jogo de cultura geral, bem como à boneca, e já começou até a ler Um Conto de Natal, do Dickens.

Mas não deixa de ser uma criança solitária, quando podia precisamente ser a líder do gangue. Vivemos num dos países mais seguros do globo… Quando se ouvem histórias de terror por aqui, com crianças? Quase nunca ou nunca. Estar-se fechado em casa com alguém também não é sinónimo de segurança.

Porque não pode ir a minha miúda ao pão? Não vêm os adultos o medo que lhes transmitem quando dizem que o mundo são só desgraças?

Quando a minha irmã nasceu, prometi que seria o elemento “obstáculo” na sua vida. A pessoa que lhe dava palmadas no rabiosque quando batia na avó. A pessoa que não a deixava levantar-se sem ao menos provar os feijões feios que tinha deixado de lado no prato. A pessoa que, ainda com receio – quem não tem? -, insiste para que se bata por vir a pé sempre que possível e quando é dia, porque os desafios virão e quero-a preparada. Sou a pessoa que às vezes é demasiado dura com a miúda que se oferece para pôr a mesa e que no Natal pega nos poucos trocos que tem e me compra um conjunto de pincéis de maquilhagem. Mas é por eu ter tantas vezes coragem de a desafiar e de a corrigir que ela é assim… Uma criança a combater inseguranças num mundo de adultos histéricos e picuinhas e melindrosos e ocupados, mas uma criança que acredito que tem força suficiente para vir a conquistar o que quiser.

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