Carta aos meus filhos #104

Os últimos meses têm sido de grande reflexão. Por entre as toneladas de trabalho e as poucas saídas, houve alguns momentos de vão de escada. Algumas conversas envoltas no fumo do cigarro. Muita observação e muita auto-consciência.

Tirei várias conclusões a meu respeito e do mundo ao meu redor, mas questões maiores se levantam:

  • Estamos todos quebrados, defeituosos, traumatizados, ou é da cidade?

Isto é; esta disfuncionalidade, oscilação de humores, grandes amores e grandes ódios, traições, meias-palavras, mal-entendidos, coscuvilhice com fartura, mudança de lados (os “lados”), a resistência ao amor, à verdade, aos abraços e à alma-nua … porquê? Porque é que só nos damos a quem sabemos que nos vai desmantelar e devolver em peças à origem? Teremos assim tanto receio de sair da zona de conforto – o abandono, a dor, o correr atrás sem retorno – e de ser felizes? Será essa cobardia, esse gostar de se rojar na lama, essa vocação para carpideiros, que interpõe um muro entre nós e a felicidade? A felicidade soa bem mas não é fácil. Ser-se honesto a todas as horas, num meio em que uma linha de diálogo dá origem a uma epopeia, é difícil. Faz-nos querer ir embora e desistir. Será que não há um pedacinho só, de tudo isto, que se possa salvar? Que se possa guardar junto ao peito e levar connosco a onde quer que se vá?

É Almada que nos moldou assim? É do ar? Da água? Ou é dos nossos passados em comum e da teia que tecem em conjunto? É da mescla dos vícios, das doenças, das mortes prematuras, da orfandade, dos acidentes, dos cancros e das bipolaridades, do desemprego, do país em crise, das bofetadas que amparámos com as maçãs-do-rosto em pequenos? É das dentadas da mãe e do desprezo do pai? É porque ele traiu a mãe? É de termos sido criados pela avó, pelo tio, pela vizinha? É de não sabermos quem era o nosso pai até à idade tal e de nunca termos conhecido a nossa mãe? É de termos sido adoptados? É de nos amarem de menos ou de nos amarem demais? É de nos ligarem sempre ou de não nos chamarem nunca? É por o nosso pai ter fugido por ser incapaz de suportar a mãe? Ou é porque a mãe fugiu com os outros filhos e nos deixou a nós para trás? É porque nunca tivémos ninguém a nosso lado e não sabemos se conseguiremos lidar com o ter, ou porque estivémos sempre acompanhados e não sabemos estar sozinhos?

É por isto tudo que se contam mentiras? Que se trai o namorado e que se engana a namorada? Que mandamos abaixo os outros para nos sentirmos melhor? Que pegamos na cadência do “boa noite” para começar uma guerra? Porque é que, aqui, não se pode ficar feliz pelo bem dos outros? Porque é que se distorcem as coisas? Porque é que não se consegue manter a mesma cara com todos os espectadores? Porque é que procuramos agradar aqui e ferir ali? Porque é que rimos uns dos outros e não uns com os outros?

Porque é que Almada repele e se afasta do equilíbrio, da harmonia, do amor? Porque é que nada de benévolo respira por muito tempo deste lado do rio? É porque se juntaram aqui algumas das pessoas mais feridas que conheço, e pelos mais diversos motivos? Porque é que somos obrigados a desistir uns dos outros quando em tempos houve, inequivocamente, esse mesmo amor?

Não estaria na altura de arrumar os demónios e de crescermos? Estamos a envelhecer mesquinhos. E eu, de mesquinhez, não gosto.

 

#familyissues #trustissues #motherissues #daddyissues

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