Carta aos meus filhos #105

A mamã está a colapsar de cansaço. Há anos que está a colapsar de cansaço, mas quando a vontade de viver um pouco (sair, beber um copo, ir ao cinema, escrever um pouco pós-horas) colide com essa exaustão física e mental, dão-se acidentes. Pequenos erros no trabalho. Erros na vida. Esquecimentos (como de chamar o irmão D. para passar o Natal connosco, ou como pagar uma conta, ou como dar a contagem da luz). Outros esquecimentos – como pagar o ticket do estacionamento e voltar para o carro sem o ticket pago. Outros maiores: como onde pus as coisas? Onde deixei o carro?

A mamã agora tem carro. Faz um mês e pouco que tenho carro e a sensação de liberdade é engolida por outra maior, de responsabilidade. A mamã é um tanto ou quanto perfeccionista, e quando as coisas não estão no nível máximo de polimento, aborreço-me e fico frustrada. Gosto de ser exímia no que faço, mas por vezes não consigo dedicar-me suficientemente a isso e as coisas saem do avesso. Queria muito ouvir Deftones, coisa que me inspire a sentir-me livre e viva, e conduzir sem destino. Mas nem tempo para isso consegui tirar ainda… Depois, como nunca há estacionamento na minha rua, fico com o pé atrás de tirar o carro de um bom sítio, sob pena de ter de ir deixá-lo mais longe ainda. Agora, quando deixo o carro às 04 da manhã longe de casa e caminho à chuva até à minha porta, convenço-me que numa sociedade mais desenvolvida os carros vão acabar, e o transporte público vai impor-se. Em termos de gastos, uma corrida de Uber só vem beneficiar. Em termos de poluição idem. Também me custa deixar as coisas pelas quais tenho estima longe do meu alcance. Isso é válido para objectos também – não porque sobrevalorize o objecto, mas porque não gosto de saber o que me pertence à mercê das maldades, das invejas e dos destorcimentos alheios.

Pelo menos, em um mês, já consigo pôr as mudanças e travar de modo automático, sem repensar cada passo. Já consigo fazer pontos de embraiagem menos brutos e levar a avó ao hospital sem lhe partir uma anca devido à brusquidão com que executo cada gesto.

Hoje, no parque de estacionamento do Garcia de Orta, a mamã usava um casaco cinzento, o cabelo desgrenhado, os olhos pesados de sono, e por entre o dia cinzento procurava o carro cinzento e soprava vagas de vapor branco para o ar. Está frio neste fevereiro, e a mamã sentou-se no carro, nervosa até às lágrimas, porque não sabia do ticket do parque. Fui a correr para a cabine, e um casal amoroso de idosos estendeu-mo com um sorriso. “A correr assim, só pode ser a pessoa que se esqueceu do papelinho”.

E o resto? A mamã encaixa mil e uma coisas num dia só. Trabalhar. Ir aos correios. Limpar a areia do gato. Levar a avó ao hospital. Levantar os exames da mãe. Ligar a chamar o D. para o fim-de-semana, levar o boletim de vacinas da cadela ao veterinário, para que lhe acrescente a vinheta da última vacina, posto que no dia da dita cuja deixei o boletim em casa. A mamã não poderia ter filhos agora, a mamã não consegue lidar com as mil e uma coisas da sua vida. Anda

há semanas sem tempo para pintar as unhas, e só arranjo tempo para cortá-las porque tenho horror a unhas grandes.

Ando a adiar escrever há meses. Ando a ler um livro desde o ano passado. Quando chego a casa, a cabeça vai tão sobrecarregada que só vejo novelas. Penso que gostaria de abrir uma garrafa de vinho – mas o resto estraga-se. Ou que gostaria de beber um gin tónico, mas no dia seguinte a cabeça pesa-me mais e custa-me a acordar.

A mamã confunde os dias todos. Acha sempre que ainda está a meio do ano anterior. Trabalha para o fim-de-semana, e quando o mesmo vem, dorme até às 15:00 e à noite obriga-se a sair, a aprumar-me um pouco (às vezes passo lip gross nas olheiras, em vez de corrector), e faço contas às muitas contas que há para pagar.

A mamã anda a torturar-se. A pensar no que lhe é mais sagrado e como seria perdê-lo. Pode soar absurdo, mas o meu amor mais puro e mais intenso vai para a Valentina, que não se ri do meu afecto imposto, dos meus beijos roubados, dos meus abraços sufocados. Deito-me mais tarde para poder deixá-la dormir um pouco nas minhas pernas e pergunto-me como será, daqui a uma década, quando ela morrer. Lembro-me de como a família se une num amor harmonioso em torno dos animais, e de como, quando o Bambi foi atropelado à nossa porta, a minha mãe disse “Se fosse a Valentina, o nosso coração explodia”. O nosso coração. Como se esta família partilhasse um amor maior, quando partilhamos apenas diagnósticos de cancro e, durante anos, uma pobreza conformada.

A mamã descobriu inúmeros casos de cancro na família que desconhecia. Aqueles familiares que morreram sem que ninguém nos dissesse porquê, tinham cancro. Mas muitos jovens (de 20 a 45 anos) sofreram do mesmo – nos pulmões, no esófago, no estômago, na tiróide, na mama, nos ossos. E a mamã no centro disso, até ontem, a julgar que estávamos a salvo desse mal quando, afinal, se calhar é isso que nos vai varrer a todos para a terra.

O dia acabou de novo comigo no Hospital Garcia de Orta, a marcar exames. Depois vim para casa, contas refeitas, cantar os parabéns ao avô Américo pelo seu 88º aniversário. Foi a primeira vez, na minha vida inteira, em que o avô soprou as velas e a avó estava a uma parede de distância, com gripe e a antibiótico, estendida na cama e a queixar-se de calores no rosto. Por isso, cantei os parabéns para o corredor, para que o eco da vida celebrada lhe chegasse.

Ainda falta um cometa, um eclipse penumbral e a contemplação da lua cheia. O meu bar favorito reabre hoje. Acham que ainda há uma hipótese de que a mamã seja feliz?

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