Carta aos meus filhos #106

Hoje vi a morte três vezes. Não vi uma quarta porque não quis olhá-la nos olhos. Estava por toda a parte, em cada corredor daquele hospital, em cada olhar vazio, em cada boca escancarada, e até na protecção absorvente estendida no chão e manchada de sangue, a meio do corredor de imagiologia.

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Fiquei a conhecer melhor a morte hoje. Quando começa a chamar-nos, deixamos de ouvir o mundo físico e começamos a concentrar-nos no silêncio. Fala-se com a pessoa e a pessoa demora a entender, demora a responder. Não é que esteja a reflectir sobre a vida, está é a desligar-se de tudo. Por detrás dos olhos, nada. Quando responde, responde sobre coisas ao lado. O universo das coisas práticas interessa pouco, mas é ainda assim reconfortante, para quem fica, saber que quem está a ir quer saber se a conta da água foi paga, ou se o bilhete de identidade foi levantado no secretariado. Esta foi a primeira vez que me apareceu hoje.

Da segunda vez, acenou a uma pessoa cheia de energia. Veio de mansinho, menos de uma hora depois de eu lhe assegurar que não seria nada, não porque seja uma pessoa optimista, mas porque aqueles membros me parecem cheios de vitalidade. Quem sabe a tenha colocado acima das nuvens, para depois um rosto bonito e umas unhas pintadas, a maltratarem um teclado enferrujado, lhe terem varrido essa luz dos olhos. Uma vez mais, o silêncio. O escutar as palavras à distância sem lhes discernir sentido. O acenar, o gaguejar, o desorientamento momentêaneo. E as pontas dos meus dedos a tremer.

Da terceira vez, na espera interminável por um elevador, no átrio do hospital, reparo numa senhora de olhos marejados de lágrimas. Mas não era o piso oito, e não ser o piso oito já é bom sinal. A pessoa que me amparava, pelo braço, dirigiu-se-lhe com um sorriso. Chamou-a pelo nome. A loirinha varreu da expressão o desalento, enquanto a abraçava e lhe garantia que estava tudo bem. Quanto mais dizia que estava tudo bem, mais lhe brilhavam os olhos, e quanto mais a estudava mais via os passos de dança da morte, lá ao fundo, a enegrecer-lhe o semblante.

Da quarta olhei para o lado. As palavras estavam lá, o silêncio também. As respirações pesadas, o compasso de espera. O diagnóstico e a incapacidade de se articular um quadro de grande esperança – precisamente por causa da queda que se lhe segue.

A mamã ficou sem chão, hoje. Tenho tido dias muito maus, mas hoje foi um dos piores. Houve momentos em que achei que não ia suster-me de pé. Apenas me permiti desabar perante a pessoa mais improvável, que me conduziu pelos corredores até à saída, que me abraçou e que me lembrou que a minha força vai vencer mais isto. E isto não é fácil – a mamã hoje tem demasiadas dores na cervical e na alma para vos dizer que vai ficar tudo bem.

Mas, lá no fundo, sei que vai. A família foi amaldiçoada, já vos tinha dito isso? Alguns dos horrores do passado foram-me confidenciados, mas não é só isso. Não pode ser só isso. Há uma força maiores a puxar-nos a todos para baixo, mas a mamã vai valer-se de luz para se manter à tona. É só que a mamã está muito cansada e os recursos são todos escassos – o dinheiro, a saúde, o tempo. E a mamã já não aguenta mais estar sempre sozinha contra o rebentar das ondas. A mamã é forte, mas não é invencível.

Vou pensar em vocês, e no quanto vos quero, e no cheiro que imagino nos vossos cabelos encaracolados, e nas covinhas dos vossos dedos e quem sabe do vosso queixo, e nos vossos olhos pestanudos e na vossa absoluta inocência, para chamar ar aos meus pulmões.

Se a mamã conseguir respirar, quem sabe a onda me devolva à praia.

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