Carta aos meus filhos #108

Apaixonei-me. Já me aconteceu algumas vezes. De vez em quando acontecem coisas inesperadas, por vezes no meio de coisas más. Já me aconteceu o mundo estar a resplandescer de dádivas e eu seca, incapaz de sorrir. Agora o mundo está do avesso, mas eu quero sorrir, quero ser feliz. E então o milagre aconteceu.
Da última vez que aconteceu, foi difícil mas fui feliz. Sabia que era difícil, e não poderia ter-me apaixonado se não fosse difícil. Mas também foi simples. Bastou um olhar – é um lugar-comum, mas é verdade. Depois de um único olhar, de dois sorrisos contidos – ele não é muito de sorrisos, mas a cada vez sorri mais -, os nossos peitos entrelaçaram-se. E, ainda que numa redoma de formalidade, encontramo-nos.
Quando está certo é simples. Li uma frase que fez muito sentido: uma coisa é o amor da tua vida, a criatura que te fará miserável a todas as horas. Outra é o homem da tua vida, cuja existência foi planeada para te aliviar dos teus fardos.
E por isso, mesmo sabendo que este é outro daqueles amores impossíveis – e apesar de nunca ter mencionado esse sentimento a ninguém, nem a quem paira por perto quando falamos -, a mamã sabe que está apaixonada. É uma coisa que aconteceu sem que me apercebesse, que está guardada do mundo e é-me saudável que assim seja.
Estar apaixonado é bom, é diferente de amar. Quando um dia este sentimento se conjugar com circunstâncias favoráveis, a mamã vai sentir-se muito segura e muito feliz. Ele não pode destruir-me. Não tem como me deixar de rastos.
Já dura há uns meses. Vi-o poucas vezes, não sei quase nada dele. Nem a impessoalidade das redes sociais nos une. Não sei a que cheira, se usa perfume. É algo de mais profundo, é pouco físico e bem mais espiritual. Nem sei bem qual é o seu primeiro nome, já o vi assinar com dois. Não sei que idade tem, penso que no máximo seja mais velho dois ou três anos do que eu. Mas foi uma coisa que cresceu a cada vez que o vi. Um jeito diferente que me obriga a ajeitar o cabelo se sei que vou vê-lo. E o meu cabelo, vocês sabem, não tem jeito.

A mamã pode fazer muitas piadas, mas nunca achou que mais do que um homem, na minha vida, merecesse o tempo dispendido do meu eye-liner. Não me importei muito com a ideia que ele tivesse de mim. Conhecer pessoas novas é assim, tens esperança de que te vejam por aquilo que és agora, não pelo reflexo do que tens sido. Quis ser eu. Mas acabei por ser um eu diferente. Só estivémos sozinhos umas três vezes, mas é esquisito que haja tanta gente ao redor e que me pareça que o mundo se cala para eu o poder ouvir. E, mesmo sozinhos, nunca estivémos a sós.
Ele sofre do mesmo que eu, e é isto que sei. Trabalha demais. É distraído, está em todo o lado ao mesmo tempo. Esquece-se de pormenores importantes, mas a inteligência brota-lhe de cada gesto. Olha-me por detrás dos óculos e tenta explicar-me coisas difíceis que não alcanço. Coisas que deslocam os eixos da minha vida. Fito-lhe o punho imaculado da camisa enquanto fala. É magro, tem uma aura de fragilidade enganosa, porque lhe antevejo um certo vigor nos gestos, além da gentileza de espírito. É como se as nossas almas se conhecessem de há muito, e reconhecemo-nos. Mas eu sou demasiado tímida – pode soar estranho, mas sou muito tímida com as pessoas que amo. A minha auto-confiança fica fora da porta. Talvez aquele senhor tivesse razão quando disse que eu sou insegura, mas não sabia. Agora sei. Ao contrário de toda a gente, fico insegurança perante quem amo, não perante estranhos: a esses enfrento sem receios. Eu sou demasiado tímida para fazer algo que não deva, e ele é demasiado sério e formal. Sério e formal deve ser um padrão nos meus afectos, sobretudo quando, em privado, a pessoa tem outra postura. Tudo bem, a mamã também não quer que haja nada. Sei que ainda não é ele, mas gosto de pensar que o meu coração bate, que as janelas se multiplicam. Quando conhecer o vosso pai, vou saber que é ele.

É bom que seja só assim, uma coisa sem aspirações, ânsias, tombos, murros no estômago. Sem o esplendor da ascensão nem o dissabor da queda.
Sonho com ele, quando nos vemos. Os sonhos são uma ilusão de intimidade. Sonho que conversamos como dois amigos, e que falamos um ao outro do que nos faz felizes. Há uma certa nostalgia nesses sonhos. Ontem sonhei que ele estava a trabalhar, dentro do carro, e que eu estava por perto, a atravessar uma ponte instável. A ponte desfazia-se-me debaixo dos meus pés e eu caía na água fria. E ele apanhava-me. Não cheguei a ficar em pânico. Só isso e quase acordei em lágrimas. Porquê? Porque estou habituada a que toda a gente me ache forte. Toda a gente acha que me hei de pôr de pé quando cair. Toda a gente me acha capaz disso. Mas e se eu não for tão forte quanto isso? Se os braços, os pulmões, me falharem? Morro afogada porque amei demasiado uma pessoa que me queria enrijecer à força? Que não podia facilitar? Que me deixaria dormir nas escadas frias por princípio, porque não ajuda ninguém com pernas a subir escadas? Tudo bem, se da minha parte fosse frescura. Mas alturas houve em que os problemas me incapacitaram, e que precisei realmente de ser levada ao colo. A mamã é forte, mas tem direito a fraquezas.
Ele apanhava-me. Eu estava cansada e ele apanhava-me. Eu não conseguia nadar – ou talvez conseguisse, nem cheguei a tentar -, mas ele não arriscava e puxava-me para a borda. Eu ficava envergonhada, ele não sabe se sou forte ou fraca. Dizia-lhe de imediato que tinha sido desastrada, que ele não devia ter-se molhado. Sendo um sonho, ele não se molhava muito. Levantava-me com  um braço das águas escuras, sem sequer mergulhar.

Já me viu chorar uma vez e não tive coragem de o olhar nos olhos, sei que foi um choro honesto e ele nada podia fazer para me aliviar. Foi um dia difícil e ele não fugiu, mas também não soube o que dizer. Ficou em silêncio, mal lhe ouvia a respiração. Quando nos despedimos, fizémos o jogo habitual do dá a mão esquerda ou a direita. Sorriu-me (já lhe conheço a forma dos dentes, usou aparelho) disse que tanto faz e as nossas mãos direitas encontram-se, e depois as esquerdas. Uma vez tocou-me no ombro. Isso materializou-lhe a presença ao meu redor durante semanas. Foi reticente, mas deu-me vida.

Enquanto escreve, estudo-lhe as unhas (além do punho da camisa). Não sou muito picuinhas, mas unhas limpas e curtas ficam bem a qualquer género. Tem os dedos finos. O cabelo começa a rarear, mas é tão escuro que disfarça. Tem este ar de homem esforçado e bem-sucedido, mas uma jovialidade no trato, como se ainda há pouco tempo jogasse computador a noite toda. É mentira, acho é que estudava a noite toda. Parece ter visto bem mais do que a sua idade sugere. Não tem jeito com pessoas, é estranho que nunca encontre as palavras certas. Gagueja quando algo que lhe é claro é incompreensível para os outros. Não é um gato, não vai ao ginásio; não tem tempo. Sempre que nos vemos,  eu tenho um livro debaixo do braço, têm sido vários que reviro na sua presença. Inclusive, já li várias páginas enquanto ele mantém um silêncio reflexivo.
Há uns dias cruzámo-nos fora do contexto. Eu estava de óculos e era noite, pelo que o reconheci ao longe. Vinha com um livro debaixo do braço, rodeado de amigos. Parei, disse-lhe “boa noite” e ele parou, nem sequer disse adeus aos amigos. Foi a primeira vez que o vi deslocado, e em que eu, em vez do casaco e da mala no antebraço, estava de poncho e mola no cabelo. Ficámos ali, no escuro, debaixo da galeria. Demasiado formais para dizer algo íntimo, fui demasiado formal para perguntar seja o que fosse de privado. Ele também. Mal dei conta de que me passava algumas informações pessoais, fiquei sem-graça. Não fiz perguntas, diverte-me imaginar. Toda a gente me vê como alguém que conta tudo de si próprio, é-me estranho não ter de dizer nada, não querer dizer nada nem provar nada, e contentar-me só com uma despedida atabalhoada no escuro, depois de um tempo que me pareceu demasiado longo para o que somos um para o outro.
A mamã tem esperança de que alguém certo surja. Alguém fácil – a facilidade dos amores que têm de ser. Alguém feito à minha medida. Alguém grande e bom o suficiente para ser vosso pai. Entretanto, estou apaixonada. E isso é bom.

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