Carta aos meus filhos #109

Quando tinha doze anos, prestes a fazer treze, apaixonei-me por um homem dez anos mais velho. Já escrevi sobre ele várias vezes. Foi coisa de verão, traduziu-se no primeiro romance de duzentas páginas que escrevi. Deu-me um maior parecer sobre aquilo que eu era e sobre o que queria da vida. Ele era a pessoa mais nova de uma aldeola minúscula, e eu era apenas uma visita espalhafatosa com um cabelo péssimo, magricela, que usava uma saia amarela costurada pela avó. Estava a vários anos de pôr o aparelho, por isso posso dizer que não tinha, sequer, nada de atraente. Seria alarmante se ele me achasse atraente, de qualquer modo. Eu era pouco mais do que uma criança, e ele um rapaz que teria decerto raparigas da sua idade com que se entreter. Isto demonstra a minha tendência para os amores distantes, de outros mundos, outras faixas etárias, outras latitudes. Quem sabe eu tenha tido sempre medo do amor – de amar e de ser amada, e do vazio que isso deixa quando termina. A coisa durou vários verões. Eu a chorar nas suas escadas, quando a avó deu uma pastora belga que eu tinha adoptado, aproveitando a minha ausência. Ele a consolar-me. Eu a salvar os gatos bebés das redondezas e ele, com vinte e seis anos, também a chorar, desconsolado, quando a sua gatinha branca foi atropelada na curva da estrada. Tínhamos os animais em comum. Tínhamos ambos um coração que se enternecia e se debulhava em lágrimas ao primeiro vislumbre de crueldade. Tínhamos o mesmo espírito livre – ambos de pés descalços, ambos com o mínimo de roupa possível (não por uma proximidade à nossa sexualidade, mas sim para nos sentirmos mais perto da natureza). Queria (quero) tanto morar no campo, e isso só seria possível com alguém como ele. Ambos a usar a mangueira e o rio para nos aliviarmos da impiedade do verão. Ambos a estremecer quando os nossos dedos se tocavam em torno da chávena de café que ele me estendia. E, depois, a confirmação de que eu não estava maluca e de que era mútuo. Mas impossível.

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Não havia maldade em nenhum de nós. Como poderia haver? Eu tinha tanto medo do amor quanto da intimidade física, mesmo aos dezasseis anos, quando o vi pela última vez. Não pensava nele assim. Imaginava-o sentado no terraço, à noite, com um dos gatos ao colo. Imaginava-me a estender roupa ao luar, com os lençóis perfumados a ondular ao meu redor e a sua presença tranquilizante logo ali. O seu olhar de infinita paz. Imaginava-me descalça sob o local da terra onde o firmamento é mais escuro e onde as estrelas surgem mais luminosas, e imaginava-me com o meu cabelo em absoluta liberdade e a pele limpa dos banhos e do sabão. E imaginava-o, também descalço, em plena harmonia com o universo e com o silêncio nocturno – a opereta das cigarras, das rãs e dos grilos -, recortado contra uma parede alva de cal, talvez maculada por um gafanhoto, e, a emoldurar-nos, o fumo da chaminé a erguer-se acima das nossas cabeças. Não imaginava quaisquer palavras, porque era um entendimento diferente. Era um saber, algo que me remexia e me tranquilizava as entranhas. Algo que se revolvia e depois encontrava harmonia em si próprio. Era seguro. Não havia nada que lhe quisesse explicar a meu respeito. Não tinha nada a provar-lhe. Também ele não me poderia destruir de modo algum. Eu flutuava dois palmos além do seu alcance.

Há pouco reencontrei-o no mundo virtual. É pai. Tem a família que tanto queria. Saiu da aldeola. Está quase careca. A sua vida gira em torno dos filhos, e sempre foi evidente que assim seria. Mas há também uma foto dele de joelhos, de calções e braços nus, a aflorar o nariz de um gatinho sujo com o indicador, e a apelar à sua adopção com um texto que me pôs a sorrir. Um homem tão sólido, com um sorriso tão terno, uma voz tão dócil, uns membros tão robustos, e para ali está, de joelhos firmes no saibro, a salvar gatinhos das rodas dos carros. Não se lhe vê o rosto nessa foto, mas reconheço-lhe as mãos e as unhas. As mãos de um homem contam muito da sua alma. Nomeadamente, se é tortuosa, encardida, meticulosa, tranquila, despreocupada.

A mamã emociona-se quando se lembra do sorriso dele. Obrigo-me a pensar em cada homem que mexeu com o meu coração, estou a fazer um estudo de mim própria. Não foram muitos, mas foram alguns. Às vezes entrelaçavam-se no tempo. Gostava de dois em simultâneo: enquanto o tempo e a distância me afastavam de um, ligava-me mais ao outro. Torturava-me a imaginar que teria de escolher um dos dois, escrevia sobre triângulos amorosos ao longo da adolescência. Fazia listas dos motivos que me levariam a preterir um deles.

Depois, aí por volta dos dezassete anos, mudou tudo.  Estou a reencontrar-me agora com aquilo que me puxa noutras pessoas. Estou à procura do vosso pai no olhar de estranhos. Na música que eles ouvem (tenho a certeza de que o vosso pai não começa os dias a ouvir Kesha). No modo como cortam as unhas (tenho a certeza de que o vosso pai não tolera unhas compridas nem sujas). No modo como as suas vidas se centram na família, no futebol, no suposto sucesso das carteiras, no crédito habitação ou nas noitadas na discoteca. Tenho a certeza de que o vosso pai vos há-de por à frente de tudo na sua existência.

A mamã sente que a data está muito próxima. Temos de pensar na biologia. Depois dos trinta tudo se complica quanto a bebés. A mamã já tem imensos problemas de saúde – agravados por uma pitada de hipocrondrismo – a última coisa que precisa é de gravidezes de risco e de cesarianas. E, se quero ter três, não é aos quarenta que vou começar a parir. A mamã gostava de ter um bocadinho de juventude nas fotos convosco, e um bocadinho de paciência para vos ensinar aquilo que sei, e um bocadinho de saúde para andar de gatas atrás de vocês, a rugir.

Espero que a Natureza e o Universo saibam disso. Posso esperar pelo vosso pai até ao meu centenário, mas por vocês não. Vocês devem estar ao virar da esquina, para juntos sermos outro final feliz. Como o desse homem que amei.

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