Carta aos meus filhos #110

Estão a acontecer muitas coisas. Estão sempre. Às vezes parece que me meti numa daquelas esteiras que distribuem as malas no aeroporto, e ando aos círculos. A coisa está demasiado rápida para que saia sem partir um pé, mas talvez sacrificando o pé possa salvar a cabeça.O cancro entrou na minha esfera de preocupações há quase um ano. Primeiro uma pessoa. Agora duas. É uma impossibilidade que vem ter connosco quando nunca esperamos. Ninguém está à espera de cancro. Mesmo que os testes genéticos a que serei submetida digam que os meus genes estão inclinadíssimos para isso, eu vou sempre acreditar que comigo não há-de acontecer. Há até uma chance de que não carregue essa ameaça no sangue, porque os outros estudos realizados pela família disseram que o que temos é adquirido. Eu não tenho nada, felizmente, mas não consigo impedir-me de sentir que também eu sou uma bomba-relógio.

A mamã tem visto as coisas noutra perspectiva. A mamã tem visto mais partes íntimas, chichis e cocós, fraldas e úlceras nas últimas semanas do que na vida toda. Tem visto as pessoas abandonarem a civilidade (e outros músculos) por exaustão, por velhice, por doença, porque estão fartos. Porque a ciência, com tanto paracetamol, nos prolonga o sofrimento. Há mais de dez anos que o avô está todos os dias estendido na mesma cama, em frente à televisão. Mal sai, mal se levanta, mal ouve, mal vê, mal se interessa seja pelo que for a não ser pelo passado. São mais de setenta anos a fazer a barba e são oitenta e oito anos a cortar as unhas. Uma pessoa farta-se de carregar o corpo de um lado para o outro. Mas o motor é o coração, e o coração dele é potente. Bem precisou dessa força para viver o século vinte como um filho de sapateiro e mais velho de cinco irmãos. Às vezes pergunta-se, com um sorriso bem-disposto, o que é que anda cá a fazer. O avô sorri sempre e raramente se aborrece. Diz que se calhar só cá anda para ir vendo os netos e conhecendo os bisnetos. Parece-me um bom motivo, mas entendo a sua ânsia por ir. As aventuras deste lado já terminaram.
A mamã tem problemas em dormir, agora. Já tive coisas piores, e é possível que seja fruto dos meus dois cafés diários. É habitual passar das duas da manhã quando adormeço. Ainda assim, com o cérebro a organizar coisas a todas as horas, esqueço-me de algumas. Como a bomba de asma do avô que ficou no hospital, ou a expedição de um livro, ou uma ida ao mecânico.

Durante quase três anos fui voluntária aqui na universidade sénior – esqueci-me de informar que vou sair à administração! -, mas a minha vida já não mo permite. Não me permite trabalhar 40h/semana, às vezes mais, ir às compras, fazer máquinas de roupa – tenho de ir apanhar a roupa! -, limpar a casa (3 horas semanais), apanhar os afazeres das gatas, alimentar as gatas, levar três membros da família ao hospital/ir buscá-los quando posso, dar contas da saúde deles à restante família por telefone, sms, chats de redes sociais, ler (riso), escrever (gargalhada!), e ainda tomar banho, cortar unhas, pentear o cabelo. Carregar a minha agenda e mais três agendas (quatro quando a Ana tem aniversários/testes, cinco quando a Cláudia tem compromissos) na cabeça. E as pessoas ainda fazem anos, pedem um euro emprestado que têm de ae lembrar de devolver, aguardam a carta verde do carro, encomendam sapatos online e votam na música que querem que vença o Festival da Canção. E, nas entrelinhas, a saudade.

A mamã entende que o turismo, em parceria com a situação familiar, me está a esborrachar contra a esteira das malas. A mamã não existirá em 2017. Mas a mamã está farta, tão farta que está na hora do aplauso a mim própria.

A minha cabeça está bem (não tem tempo de estar mal). Uff. A minha sanidade está intacta, mas outros enlouquecem ao meu redor, e nunca sei se é para aí que o círculo da esteira se dirige.

E o vosso pai, onde anda? Teria jantado se ele me tivesse feito o jantar – estava cansada e com qs dores habituais. E, amanhã, jantávamos os dois quando eu lho preparasse também (tenho pouco tempo para comer, mas tenho cozinhado por prazer. Consigo fazê-lo dia-sim-dia-não, mas todos os dias não). A mamã precisa de um par extra de mãos… ou só de duas mãos que puxem a colcha por cima dos meus ombros à noite, para poder adormecer sem ter de ficar de vigia.

… é melhor acrescentar à lista “prestar atenção à indústria robótica”, não vão andar por aí mãos biónicas.

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