Carta aos meus filhos #112

Há músicas que nos transportam para outros estádios de nós mesmos. A In a Sentimental Mood é dessas.  Hoje a mamã acordou a sentir a eminência de uma tragédia. Mas, como até sei o que possa ser, é só a vida a obrigar-me a velá-la. Lembrei-me de uma coisa má que fiz. A mamã fez algumas estupidezes, todas motivadas por cobardia. Lavei as mãos de algumas situações. Numa dessas, acabámos, eu e a avó, abraçadas e a chorar compulsivamente. Pôs-me a chorar hoje também, e porá sempre. É vergonha. Uma vergonha tão forte e tão sofrida, por ter desamparado outro ser, que me apetece voltar para a cama e enrolar-me numa bola.O mundo está a desintegrar-se. Não são só as pessoas – o ar que algumas pessoas respiram, regressa à atmosfera e volta a recair em chuva ácida. As coisas estão de um modo que pessoas e animais perecem, pedem esmola, são assassinados à pedrada e à bengalada. Deve ter acontecido sempre, mas…

A mamã pondera deixar o facebook de vez. É uma ideia que tem crescido em mim. Assim afasto-me de vez das notícias de arrepiar.

A mamã quer ser feliz… preciso, tanto quanto sempre, que o vosso pai me abrace e me ajude a fazer bem. A mãe quer expiar os seus males. 

(E, depois, a certeza de que não serve nem servirá nunca um qualquer. Porque a mãe quer estar no sofá com o vosso pai e, se não for ele, quero estar sozinha com os gatos e um livro). 

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